Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Parlatório / Conselho de Ética inferniza Cunha no pré-impeachment

Política

Câmara dos Deputados

Conselho de Ética inferniza Cunha no pré-impeachment

por André Barrocal publicado 08/04/2016 12h18
Novo delator reforça acusação de propina. Nos próximos dias, mais depoimentos. Se Dilma cair, Cunha pode escapar, diz presidente
Lucio Bernardo Júnior/Câmara dos Deputados/Fotos Públicas
O presidente da Câmara Eduardo Cunha

O atrelamento do futuro de Cunha ao de Dilma é uma marca do impeachment

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), queria ter sossego e ver deixada de lado a investigação de seu decoro parlamentar enquanto articula a derrubada de Dilma Rousseff. Enganou-se. O Conselho de Ética voltou à ativa para infernizá-lo bem na reta final do impeachment.

Após meses travado por manobras de Cunha, o Conselho ouviu nesta quinta-feira 7 o primeiro depoimento no processo que apura a conduta do peemedebista. Era Leonardo Meirelles, sócio-laranja do doleiro Alberto Youssef, preso na Operação Lava Jato.

Meirelles acaba de selar um acordo de colaboração com a Procuradoria Geral da República e prestou informações ao Conselho a confirmar a acusação de que o deputado arrancou 5 milhões de dólares em propina ao chantagear um lobista atuante na Petrobras. Dinheiro de origem “ilícita”, disse Meirelles.

Nos próximos dias, integrantes do Conselho irão a Curitiba, centro geográfico da Lava Jato, para ouvir gente presa sobre Cunha. A operação foi autorizada pelo juiz Sergio Moro e pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, relator de processos contra o deputado no STF. Um dos depoentes será o lobista supostamente achacado por Cunha, Júlio Camargo.

O Conselho também pediu a Zavascki, ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e ao Banco Central (BC) o compartilhamento de material existente em apurações contra Cunha. Todos toparam ceder o que não for sigiloso, o BC até já enviou o que tinha.

Promessa de um farto noticiário negativo para o deputado, a ser alimentado via Conselho e que não se restingirá ao foco central do pedido de cassação do peemedebista, a acusação de ele ter mentido aos pares e ao fisco sobre contas no exterior.

Tudo isso significa que a cassação de Cunha é questão de tempo, talvez em maio, quando se espera uma decisão do Conselho? “Se a Dilma cair, talvez a situação dele melhore, ele terá mostrado força política e vai querer usar essa força em seu favor”, diz o presidente do Conselho, José Carlos Araújo (PR-BA).

O atrelamento do futuro de Cunha ao de Dilma é uma marca do impeachment. O deputado resolveu dar andamento ao pedido de deposição da petista em 2 de dezembro, cerca de quatro horas depois de o PT anunciar que votaria pela cassação dele no Conselho.

Naquele mesmo dia, um dos autores do pedido de impeachment, o jurista Miguel Reale Jr, ministro da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso, declarou a O Estado de S. Paulo ter havido uma “chantagem explícita” por parte do presidente da Câmara.

A gênese vingativa do impeachment foi recapitulada na Câmara pelo advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, na segunda-feira 4, antevéspera da divulgação do parecer pró-cassação de Dilma. O governo torce para a ideia da vingança se disseminar na sociedade e entre os parlamentares para, quem sabe, isso ajudar a salvar o mandato presidencial.

Uma esperança que não é sem cabimento, a julgar por um desabafo feito no Conselho de Ética, durante o depoimento de Meirelles, por um deputado de um partido prestes a tomar uma posição formal a favor do impeachment, Julio Delgado (PSB-MG).

“Se o jogo aqui é o jogo de um (Cunha) contra o outro (Dilma), meu amigo, nego está agindo errado aqui, tirando voto de quem é favorável ao afastamento pelo processo de impeachment”, disse Delgado. “Se isso (impeachment) servir para protegê-lo (Cunha) aqui (no Conselho), vai mudar minha posição com relação a isso (impeachment).”