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Política

Impeachment

Após fala na ONU, Dilma diz que há golpe em curso no Brasil

por Eduardo Graça — publicado 22/04/2016 22h44, última modificação 23/04/2016 11h38
Presidenta anuncia à imprensa que pretende pedir ao Mercosul e à Unasul que suspendam o Brasil por conta da quebra do processo democrático do país
Ichiro Guerra/PR/Fotos Públicas
Dilma Rousseff discursa à ONU

"Você rasga os princípios democráticos, está dado o golpe", disse Dilma à imprensa, em tom mais duro do que no discurso na ONU

Em um tom muito mais duro do que o usado na ONU, quando participou, na manhã de sexta-feira 22, da cerimônia de assinatura do Acordo de Paris, que rege medidas de redução de emissão dióxido de carbono a partir de 2020, a presidente Dilma Rousseff afirmou, em coletiva de imprensa em Nova York, no fim do dia, que há sim um golpe em curso no Brasil, do qual ela é a principal vítima: 

"Golpe é um mecanismo pelo qual você tira pessoas do Poder por razões que não estão expressas na lei. Não há crime de responsabilidade contra mim. Os golpes militares se deram rompendo a Constituição. E no meu caso há um outro jeito de se dar o golpe: basta a mão (do voto dos congressistas), que é extremamente poderosa. Com ela você rasga a Carta Constitucional e está dado o golpe. Você rasga os princípios democráticos, está dado o golpe" 

Enquanto cidadãos pró e contrários aos impeachment se manifestavam do lado de fora, na rua 79, residência do embaixador do Brasil na ONU, o ex-chanceler Antonio Patriota, no bairro residencial de classe alta Upper East Side, Rousseff conversou, por mais de uma hora, com jornalistas estrangeiros baseados na cidade, entre eles profissionais do The New York Times, Washington Post, Finantial Times, Guardian, Bloomberg, Reuters, Associated Press e El País.

Em seguida, em coletiva para a imprensa brasileira, ela repetiu o que já havia adiantado à imprensa internacional: em caso de aceitação pelo Senado de seu julgamento por crime de responsabilidade e conseqüente afastamento do cargo por até 180 dias ela pretende pedir ao Mercosul e à União das Nações Sul-Americanas (Unasul) que suspendam o Brasil por conta da quebra do processo democrático do país.

Em 2012 o Paraguai sofreu a punição, defendida por Brasília, por ferir a chamada cláusula democrática do acordo sul-americano durante o processo de deposição do então presidente Fernando Lugo. 

"Se eu, que sou presidente da República, me sinto vítima de um processo ilegal, golpista e conspirador, imagine o que poderá ocorrer à população pobre do Brasil quando seus direitos forem afetados. A garantia de meu direito não é só minha, pessoal. É a de que a lei irá se sobrepor a qualquer interesse pessoal ou político na nação", disse a presidente. 

Mais cedo, na cerimônia da ONU, Dilma frustrou seus apoiadores ao mencionar apenas no fim de um discurso de pouco mais de 9 minutos, centrado na exaltação do recorde ambiental de seu governo, e de forma velada, o impasse político brasileiro.

Ela encerrou sua fala dizendo que o Brasil conta com uma sociedade que soube vencer o autoritarismo e construir uma pujante democracia, com um povo trabalhador com apreço pela liberdade. E, em mensagem cifrada, afirmou que os brasileiros saberão "impedir eventuais retrocessos". 

Dilma afirmou que jamais iria à ONU "falar mal do Brasil", mas sim "a verdade sobre o Brasil". O foco do discurso, diz, sempre foi o Acordo de Paris. Mais tarde, na conversa com a imprensa, disse repudiar a crítica de que a denúncia do golpe poderia ser traduzida como uma forma de vitimização.

E, em claras referências ao vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP), companheiro de chapa de Dilma em 2010 e 2014, e ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que se tornará o segundo na linha de sucessão no caso de afastamento de Dilma, seguiu: 

"Se isso ocorrer, assumem o Poder pessoas ilegítimas, que não tiveram um voto sequer para a presidência. Pessoas que têm em suas trajetórias acusações de lavagem de dinheiro em conta no exterior de processo de corrupção. Não há contra mim nenhuma acusação de corrupção, jamais recebi dinheiro para me beneficiar. A sensação de injustiça, de ser a vítima, não foi escolha minha, me colocaram nela. Construíram um processo sacrificial no Brasil", disse, em tom grave. 

À constatação de que a imprensa internacional está cada vez mais sensível à narrativa do golpe, especialmente depois da caricata votação de abertura do processo de impeachment pela Câmara dos Deputados, Dilma afirmou que se subestima a capacidade da compreensão das pessoas, tanto dentro quanto fora do Brasil ao se tentar cercear sua movimentação fora do país.

A Câmara dos Deputados custeou a viagem, em classe executiva, de dois parlamentares da oposição – José Carlos Aleluia (DEM-BA) e Luiz Lauro Filho (PSB-SP) – para se contraporem a eventual discurso na ONU de denúncia de golpe pela presidente. Os dois se disseram "muito satisfeitos" com o discurso de Dilma nas Nações Unidas, mas não participaram da coletiva no fim do dia. 

"Lamento muito um tipo de editorial que vem sido lido e escrito no Brasil em relação a mim no momento em que decidi vir à ONU. Acho que esta precipitação mostra claramente o quanto temem serem tachados de golpistas. E sabe por que temem? Por que são." 

Dilma também foi direta em relação aos três ministros do Supremo Tribunal Federal – Dias Toffoli, Celso de Mello e Gilmar Mendes - que afirmaram em entrevistas à imprensa recentemente ver carência de razão na argumentação usada pela presidente para definir que o processo de impeachment é um golpe.

Na opinião de Dilma, eles não deveriam sequer ter se pronunciado publicamente: "Antes de mais nada, esta não é a opinião do STF. É a opinião de apenas três ministros. E são ministros que não deveriam dar opinião porque vão me julgar", argumentou, já apontando para a possibilidade de um julgamento no Supremo em caso de afastamento permanente da presidência. 

Dilma, que embarca de volta ao Brasil ainda esta noite, disse ainda que ela "tem a obrigação" de defender seu mandato, garantido por 54 milhões de votos dos eleitores brasileiros, e que irá "se esforçar muito" para convencer, nas próximas semanas, os senadores, com o apoio dos ministros da Justiça e da Fazenda, de que não há razão legal para o impeachment.

*Eduardo Graça, de Nova York

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