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Sociedade

Violência policial

Tiros em Junho de 2013: “a ordem partiu de quem?”

por Tadeu Breda — publicado 23/06/2015 15h18, última modificação 23/06/2015 15h46
Dois anos depois de perder um olho, alvejado pela PM, fotógrafo Sérgio Silva propõe reflexão sobre violência policial contra as manifestações sociais e as periferias
Reprodução
Sergio Silva

O fotógrafo Sergio, vítima da truculência da Polícia Militar

Sérgio deixou-se levar pela emoção quando invadiu a cena, “Seu filho da puta!”, gritando. Tinha seu pesado instrumento de trabalho pendurado no pescoço. “Não está vendo que isso aqui é uma câmera?!”, berrou, enquanto o policial de mentira, atônito, se encolhia na cadeira. Há exatamente dois anos, naquela mesma esquina, o policial de verdade não viu que Sérgio trazia nas mãos uma máquina que produz nada além de imagens digitais. Não quis ver: dentre os vários tiros de bala de borracha que disparou, um bastou para destruir o olho esquerdo do fotógrafo. Em cheio.

Até agora não houve indenização, responsabilização e muito menos punição ao culpado. Ainda não se sabe quem puxou o gatilho nem quem deu a ordem para reprimir com tamanha violência os manifestantes que ganharam as ruas do centro de São Paulo no início da noite de 13 de junho de 2013. Na falta de justiça, resta a memória. Para relembrar tão infame efeméride, o grupo de teatro Companhia do Ernesto improvisou a encenação da peça A ordem partiu de quem? no cruzamento da Rua da Consolação com a Rua Maria Antonia.

Cerca de cem pessoas trocaram os embalos individuais de sábado à noite para, juntos, descomemorar o episódio. “Bala de borracha cega, mas não cala”, costumava dizer Sérgio nos primeiros meses de sua parcial cegueira. Desta vez, não se ouviu o slogan quando tomou o microfone: estava implícito. “Estão se completando dois anos desse ataque infeliz de um governo que cada vez tem colocado o povo mais pra baixo. Mas a gente vai se levantar”, prometeu. 

O ataque a que Sérgio se refere marcou o quarto dia de protestos convocados pelo Movimento Passe Livre (MPL) em 2013, exigindo a revogação do reajuste na tarifa de transporte público em São Paulo: graças a uma ação coordenada da prefeitura e do governo do estado, o bilhete havia subido de 3 reais para 3 reais e vinte centavos. O descontentamento depois se espalharia pelo País, numa rebelião popular que produziu manifestações em mais de 120 cidades. Foram as Jornadas de Junho.

Muita gente acredita que as cenas de violência vistas no dia 13, em São Paulo, quando Sérgio perdeu o olho, determinaram a massificação e nacionalização dos protestos. Outros, não. Eu não: para mim, o repentino apoio dos grandes meios de comunicação, convocando as pessoas às ruas enquanto desvirtuava as raízes do movimento, foi o que mais contribuiu para aquela avalanche de gente. Seja como for, a repressão foi intensa.

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Pelo menos 150 cidadãos, entre manifestantes, jornalistas e transeuntes, sofreram algum tipo de violência perpetrada pela Polícia Militar de Geraldo Alckmin (PSDB) naquela noite. As imagens das agressões ganharam as redes em fotos e vídeos: lambadas de cassetete no rosto e nas costas, surras covardes, assédio sexual, ameaças de estupro, estilhaços de bombas, sufocamento por gás – e, claro, tiros de borracha. Dois retratos chocaram sobremaneira: a da repórter da TV Folha, Giuliana Vallone, sentada na sarjeta com o olho invisível atrás de uma pelota enegrecida de sangue pisado; e a de Sérgio, numa cadeira de rodas, com as pálpebras cerradas e o fatídico diagnóstico.

Foi uma noite de “dores indizíveis”, me relatou, quando conversamos pela primeira vez, ainda em 2013, poucos meses depois. Quase todos os que voltaram à esquina, no último sábado, têm relatos pessoais da brutalidade policial. Poucos, porém, testemunharam o momento em que o fotógrafo foi atingido: um instante depois de fazer uma foto, assim que baixou a câmera. Ainda menos gente presenciou o martírio de Sérgio. Quem viu – e socorreu – foi Severino Honorato, professor de uma escola pública na zona sul da capital, que estava na manifestação junto com companheiros do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp).

“Ele gritava muito, Meu olho! Meu olho!”, lembrou Severino, numa entrevista que fizemos há quase dois anos. “Meu olho tá furado! Me ajuda!” Atendendo aos pedidos desesperados, Severino abraçou seu novo amigo e o levou para longe da truculência policial. Caminharam até o final da Rua Caio Prado, desceram um escadão e subiram a avenida que dá nome ao Hospital Nove de Julho. O trânsito estava parado, inviável pegar um táxi. O jeito era ir a pé. A maratona se estendeu por intermináveis 40 minutos.

Apoiado em Severino, o fotógrafo teve que parar várias vezes para vomitar. O gás havia ressecado sua garganta. A garrafinha d’água que haviam comprado num posto de gasolina, logo no início da via crucis, não fora páreo para as reações químicas da fumaça. Sérgio tinha dificuldades para respirar. Talvez por isso guarde poucas lembranças da caminhada: conversas monossilábicas com Severino, cansaço, desespero, agonia. “A vontade que eu tinha era de me jogar no chão para ver se toda aquela dor diminuía.”

Hoje não dói mais. Não fisicamente. Mas a memória ainda lateja. “Quando se fala em 13 de junho, a primeira coisa que me vem à cabeça é a dor que senti quando tomei o tiro”, me disse Sérgio, dois dias antes da encenação da peça. Outras lembranças, continua, vão aparecendo mais lentamente. “Há pouco tempo me lembrei que, quando tentei abrir o olho, logo depois de ser atingido, enxerguei o chão.” Foi a última imagem registrada pela pupila que já não existe: o lampejo distorcido de uma visão que, arrebentada pelo tiro, teimava seguir enxergando. “Foi muito rápido: o chão e, depois, a escuridão total.”

Então vieram os curativos, incontáveis; as cirurgias, duas; e a prótese, definitiva, que hoje disfarça bastante bem a deficiência visual. Tal como prometeram os médicos, a bolinha sintética que Sérgio tem no lugar do olho deixou-se aderir pelos nervos ópticos que se ligavam ao antigo órgão – e se mexe quase que naturalmente, acompanhando o movimento da vista direita.

Em nosso último café, Sérgio conseguiu, sem maiores cerimônias, despejar o açúcar diretamente na xícara de café: não derramou os cristaizinhos brancos pela mesa, como da primeira vez. Chegou a bater com a mão no gravador que registrava sua voz, como na outra ocasião, mas de raspão, sem derrubá-lo. Atravessar a rua, hoje, é menos difícil do que outrora, porém ainda não chega a ser moleza. “Não é mais propriamente um medo, mas uma atenção redobrada, que me acompanha em tudo o que vou fazer”, explica. “Não faço mais nada no impulso.”

O passar dos dias levou Sérgio a retomar as fotografias de manifestações, ao contrário do que imaginava acontecer tão cedo. Em 12 de abril, integrou a força-tarefa jornalística que cobriu uma série de ocupações realizada pela Frente de Luta por Moradia (FLM) em prédios abandonados do centro de São Paulo. “Houve ação policial onde eu estava e a polícia jogou uma bomba”, diz, falando do receio que desde então sente ao ficar perto da Polícia Militar. “Principalmente quando estou com uma câmera na mão.”

Assim como muitos profissionais de comunicação, e com mais motivos, Sérgio ficou com a impressão de que a imprensa é uma ameaça para as tropas repressivas. “A tensão estava presente”, reconhece. “Devagar, aos poucos, estou voltando a me colocar em situações que pra mim são muito difíceis. Mas quero fazê-las, mesmo enxergando com um olho só.”

O tempo pode ser um bom amigo da recuperação física, mas nem tanto da volta por cima. Sérgio se esforça para não deixar a peteca cair. Nas últimas semanas, e por várias vezes, pensou ficar na sua e deixar a data passar em branco. “Faço, não faço, faço, não faço…”, questionou-se. “Decidi fazer. Pelo menos reúno pessoas que gostam de mim.” É como se 13 de junho fosse seu segundo aniversário, né?, perguntei. “É”, respondeu Sérgio, que completa 34 anos em outubro. “Mais ou menos isso.”

Quando se passaram seis meses do dia em que perdeu a visão, o fotógrafo afixou lambe-lambe com uma foto de si mesmo na banca de jornais que fica bem na esquina onde levou o tiro. Quando o ferimento fez um ano, Sérgio inaugurou a exposição “Piratas Urbanos”, com retratos de amigos, familiares, colegas de profissão e personalidades escondendo a vista esquerda com um tapa-olho bucaneiro. Depois de ficarem em exposição em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, as imagens foram exibidas no Vale Anhangabaú, no centro. Agora, escolheu uma peça de teatro.

“A arte é muito sincera”, avalia, ao explicar sua preferência por marcar a data do olho perdido com manifestações artísticas. “A arte encurta o diálogo com as pessoas. Tudo fica mais compreensível e faz mais sentido, exatamente por causa dessa honestidade.” Talvez pouca gente tivesse se emocionado com o relato de Sérgio sobre o dia em que perdeu o olho, a dor da mutilação e o sofrimento da recuperação. Eu nunca chorei ao ouvi-lo – mas vê-lo desabafar, em cena, contra um policial fictício, foi arrebatador.

“A questão não é minha história pessoal, mas uma discussão sobre o que levou com que eu fosse atingido por uma bala de borracha”, afirma – e explica por que organiza eventos para rememorar o dia 13 de junho. “Me sinto na obrigação e com vontade de me manifestar, de falar e de fazer com que as pessoas conheçam o episódio.”

Sérgio tira energia de uma conversa que teve com Alex Silveira, fotógrafo que perdeu 85% da visão do olho esquerdo em 2000 ao cobrir uma greve de professores no centro de São Paulo. Foi atingido pela mesma bala de borracha disparada pela mesma polícia. “Quando nos encontramos, ele me disse: ‘Sérgio, se prepara, porque sua história vai cair no esquecimento. Foi isso que aconteceu comigo’”, relata. “Foi dolorido ouvi-lo, mas ele estava sendo realista. Então pensei: Isso não pode acontecer de novo, não pode ser mais uma história de violação aos direitos humanos a passar impune.”

Sérgio gostaria que a memória da repressão de 13 de junho estivesse sempre viva na cabeça das pessoas. Mas sabe que não tem sido assim. Logo depois de haver perdido a visão, e de a bala de borracha ter feito centenas de vítimas menos graves ao redor do país, houve algumas discussões sobre a proibição do artefato. “Eu tinha muita esperança que a própria polícia adotaria outro tipo de postura, que haveria mais discussão sobre a desmilitarização da PM”, lembra. “Até aconteceram algumas coisas, mas foi só no calor do momento.”

Após as jornadas repressivas de 2013, o governo do estado de São Paulo baixou uma norma impedindo a polícia de empregar as chamadas balas de elastômero contra manifestantes, mas voltou atrás logo em seguida, dizendo que o crescimento da tática black bloc – bode expiatório da vez – demandava respostas enérgicas do poder público. Um projeto de lei foi apresentado ao Congresso para proibir o uso dos projéteis contra manifestantes: não avançou. Outros dois textos, com os mesmos propósitos, tramitaram pela Assembleia Legislativa de São Paulo. “Um ano depois, a discussão ainda estava viva”, lembra. “Um dos projetos foi aprovado pelos deputados estaduais, mas acabou sendo vetado pelo governador. Aí acabou toda a discussão.”

Fora dos palácios, Sérgio conseguiu reunir mais de 45 mil adesões a um abaixo-assinado pedindo a proibição dos projéteis de borracha. Chegou a reunir-se a portas fechadas com Fernando Grella, então secretário de Segurança Pública de São Paulo, para entregar-lhe pessoalmente a petição. Em troca, recebeu nada além de promessas vazias. “Depois de junho vimos muitas outras cenas de abuso policial”, continua. “Nas manifestações contra a Copa do Mundo, houve mais uma pessoa que perdeu a visão – foi atingida por um estilhaço de bomba.”

A amnésia coletiva existe, conclui Sérgio. Com uma importante ressalva: “Uma parte das pessoas não esquece.” O fotógrafo ainda se surpreende quando encontra gente que nunca viu na vida, mas que conhece a história da violência que sofreu. “Outro dia um rapaz passou de carro e buzinou pra mim. Eu não entendi. Perguntei: É comigo? Ele disse que sim e tapou um dos olhos”, conta. “São pessoas que fazem questão de me dizer que lembram o que aconteceu.”

Ressignificando datas, dores e sensações, Sérgio procura encontrar combustível na frustração que o acompanha. Se nada mudou quanto aos métodos repressivos do Estado em manifestações, isso é mais um sinal do desrespeito sistemático aos direitos humanos que vigora no país. “É a realidade que vivemos”, argumenta, “e o peso dessa realidade me motiva a trabalhar.” Mudança. O fotógrafo quer mudança. Até porque, pouco a pouco, vai sentindo na pele as deficiências do sistema. “O processo que movi contra o governo de São Paulo está debaixo da bunda de alguém”, lamenta, contando que, dois anos depois, não recebeu nenhuma manifestação do Judiciário.

Ou melhor, recebeu sim: o juízes e desembargadores foram muito rápidos em indeferir o pedido de antecipação de tutela impetrado por seus advogados em primeira e segunda instâncias. Cientes de que a peleja entre fotógrafo e Estado vai se arrastar por anos, talvez mais de dez, seus representantes queriam apenas que a Fazenda Pública pagasse os R$ 3,8 mil gastos com os primeiros socorros que recebeu no Hospital Nove de Julho. Não, escreveram os magistrados, porque não está provado que a lesão foi causada pela PM. “Acredito que haverá justiça, mas ainda não tenho nenhum indício de que irá acontecer no curto ou médio prazo.”


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