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Sociedade

Rolezinhos: qual deles combina com você?

por Gabriela Leite — publicado 15/01/2014 15h37, última modificação 15/01/2014 15h42
Além dos adolescentes da periferia, também jovens politizados de forma mais tradicional programam ações. Mas há diferenças nítidas entre elas
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Jovens se reúnem em shoppings de São Paulo

[Este é o blog do site Outras Palavras em CartaCapital. Aqui você vê o site completo]

Como aconteceu com os protestos de junho de 2013, a repressão aos encontros de adolescentes em shoppings de São Paulo pode sair pela culatra. Dias depois da decisão judicial que proibiu um rolezinho no aristocrático Itaim, e da violência contra os garotos em Itaquera, novas convocatórias multiplicam-se nas redes sociais. A principal novidade é o surgimento de um rolê político, que assume explicitamente o protesto contra a discriminação social. Até o momento, há dois convocados, ambos para o próximo sábado (19/1): em São Paulo e Rio. Mas as ações inspiradas pelo funk de ostentação continuam crescendo. São mais de quinze, espalhadas por diversos shoppings de São Paulo, além do Parque Ibirapuera e SESC Itaquera. Uma rápida análise, a partir das atividades agendadas no Facebook, pode revelar muito sobre a diferença entre estas as modalidades — e entre a juventude que as organiza.

Uma primeira distinção, muito clara, está em como cada grupo de jovens vê a violência. Nos rolês politizados, a crítica dirige-se, evidentemente, contra a polícia e o apartheid social. O jargão é sociológico. “Criminalizado como um dia foram a capoeira, o futebol, o samba, a MPB e o RAP, o funk moderno é tão contraditório em seu conteúdo quanto o é resistência em sua forma e estética”, diz a convocatória do Rolé contra o Racismo JK Iguatemi — marcado para o mesmo shopping que proibiu a entrada de pobres. Já os garotos discriminados parecem mais preocupados em não serem vistos como violentos ou praticantes de furtos. Num evento que convocava para ir no próximo sábado ao Shopping Tatuapé [e que foi deletado nesta terça-feira], um dos organizadores escreve, com as gírias comum a todos, que se alguém for para arrumar confusão, é melhor que não vá (ou “se for pra arasta nessa porra nem cola”). Muitos comentam apoiando, e reclamam dos chamados “ratos de tênis” — jovens que assaltam para tomar tênis de marca para si. A maioria afirma que só vai para “curtir” e “beijar na boca”.

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E por que vão aos rolezinhos estes garotos, senão para, segundo a classe média, “fazer baderna”? Observando muitos dos eventos no Facebook, é possível construir um pequeno perfil sobre quem são e o que querem. Adolescentes, geralmente menores de idade, que encontram-se nos shoppings para se conhecer — principalmente para relações afetivas casuais, também muito comuns em festas de adolescentes de classes mais favorecidas. Muitas meninas e meninos criam, na própria página do evento, algumas brincadeiras sugestivas. Postam fotos de si mesmas e pedem para os interessados “curtirem”, o que indicará intenção de conhecerem no dia do encontro. Perguntam de que quebrada vêm os outros e também fazem enquetes para saber a idade, número e operadora de celular e outras informações pessoais. Entre os posts, algumas pessoas “de fora” aparecem para fazer críticas — “onde estão os pais dessas crianças?”, “vai estudar que você ganha mais” e até comentários mais violentos, chamando-os de bandidos. Quase sempre, são solenemente ignoradas.

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Os temidos adolescentes da periferia que ocupam às centenas os shoppings paulistanos não tencionam nada muito diferente do que é feito normalmente em boates, bailes, festas e reuniões de outras pessoas da sua idade. A diferença é que a rede permite que muitos se conheçam e marquem encontros em massa. Gostam, como muitos outros adolescentes de diferentes classes sociais, de “causar” — chamar a atenção, fazer bagunça. Praticar isso em um shopping apenas reflete o que a vida lhes ensinou desde sempre: o consumo define a pessoa que você é, e para estar dentro desta sociedade é muito recomendável mostrar para todos o que você tem. Fazer baile de funk ostentação na rua não pode, mas marcar encontros no shopping também não?

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Enquanto os adolescentes trocam fotos e promessas de beijos, e bem distante deles, a discussão sobre a segregação cresce. Os “rolezinhos politizados” espalharam-se por várias cidades do Brasil, em apoio a São Paulo e contra o preconceito contra os pobres e negros nos shoppings. Organizam-se como um protesto, planejam ações de contestação e trazem um discurso de luta contra a desigualdade social. Apesar de um deles ter sido organizado por movimentos negros e de periferia, a polêmica (também dentro da página do evento) é bem menos pacífica. Como tem sido comum em tantas discussões da internet, os “coxinhas” (gíria para chamar pessoas da classe média e alta com atitudes e opiniões conservadoras) atacam os “petralhas” (palavra ofensiva para se referir não apenas a petistas, mas a todos os que criticam o capitalismo) e vice versa. Debates sobre a legitimidade da classe média fazer protestos em favor dos mais pobres também enchem a página.

“Autênticos” ou politizados, os rolezinhos viraram pauta importante no debate sobre a falta de espaços públicos para os jovens da periferia. Põem em cheque também a suposta segurança asséptica que os shoppings centers prometem para uma certa classe consumidora — até quando acreditava-se que as grades e seguranças conseguiriam separar as classes sociais? A segregação racial e de classes, antes velada, agora expõe-se cada vez mais. Outra questão: os centros de consumo são local de encontro de adolescentes em São Paulo já há algum tempo, também entre os mais ricos. Se não eles, então qual o local apropriado para os jovens começarem sua vida social — e também amorosa-sexual? A questão da construção das cidades, exposta em uma tão grande quanto complexa, mostra-se cada vez mais de extrema importância para a compreensão de nossos dias.