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Cultura

Entrevista - Marcelo D’Salete

Por que falar da escravidão do Brasil em quadrinhos?

por Carolina Ito — publicado 30/07/2015 16h18, última modificação 30/07/2015 16h39
Produzido a partir de vasta pesquisa, novo livro de Marcelo D’Salete mostra que negros escravizados sempre resistiram e ajuda a compreender conflitos raciais contemporâneos
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A princípio, pode parecer estranho ou duvidoso lidar com temas históricos utilizando a linguagem dos quadrinhos, afinal, o desenho é uma expressão que recorre à subjetividade do artista, à ficção e à ligação entre os imaginários do autor e do leitor. Mas o quadrinista e pesquisador Marcelo D’Salete, autor da HQ Cumbe (Veneta, 2014), não parece se intimidar com esse tipo de questão. Para ele, a ficção é importante justamente por trazer outro ponto de vista diante de um cenário em que a maioria dos relatos históricos foi feita pelo mesmo grupo social – no caso, o de homens brancos da elite. E arremata: “precisamos da ficção para imaginar novas possibilidades de leitura a partir de outros atores sociais”. 

Cumbe traz contos de resistência, de personagens negros escravizados que sofrem os mais variados tipos de violência e que, na convivência com o fantasma da própria morte, buscam saídas. Longe de qualquer sensacionalismo em relação às condições de vida dos escravos, o autor usa a poesia para mostrar essas saídas, que vão desde o combate armado até o puro delírio. Poesia que se materializa mais em forma de traços, símbolos e metáforas do que propriamente em textos. Cumbe é uma HQ silenciosa que tem como plano de fundo a solidão.

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Marcelo D’Salete é mestre em História da Arte pela USP e publica quadrinhos há cerca de 15 anos. Em 2015, foi indicado ao Troféu HQMIX em três categorias: melhor desenhista, roteirista e melhor edição especial nacional. Também é autor de Noite Luz (Via Lettera , 2008), Encruzilhada (Leya, 2011) e Risco (Cachalote, 2014), livros em quadrinhos que têm em comum a atenção para os conflitos das grandes cidades, que acabam perpassando conflitos raciais.

D’Salete considera que “o Brasil naturaliza e muito as relações sociais e étnico-raciais” e que o descaso das autoridades em relação ao assassinato de jovens negros na periferia é um exemplo disso. 

O diálogo com histórias do passado não serve apenas para entender o presente, mas também para construir novas representações de identidade. Para ele, “existe uma necessidade dos grupos negros atuais construírem referências interessantes para pensar seu passado” e as histórias em quadrinhos podem contribuir para isso.

Outras Palavras: Como foi o processo de pesquisa histórica para compor as histórias de Cumbe? Quando ele teve início?

Marcelo D’Salete: O livro Cumbe começou a partir de pesquisas sobre a escravidão no Brasil colonial. Mais do que dados quantitativos, minha intenção era falar da perspectiva dos africanos escravizados, mostrando seus modos de resistência, desde a busca mais individual até as formas de luta coletiva. Há poucas histórias desse tipo em formato de HQ e tentei mostrá-las de um jeito mais pessoal.

As primeiras pesquisas começaram em 2006. Nos anos seguintes trabalhei no roteiro e, a partir de 2011, fiz os esboços e desenhos finais. A ficção, neste caso, tem grande importância, pois muitos dos relatos sobre o Brasil colonial foram feitos apenas por homens brancos. Precisamos da ficção para imaginar novas possibilidades de leitura a partir de outros atores sociais.

OP: Por que falar de histórias da escravidão depois de 127 anos da abolição?

MD: Minha intenção em Cumbe é suscitar novas formas de compreender o passado de africanos escravizados no Brasil. As cicatrizes causadas pela escravidão ainda são pouco discutidas e compreendidas por aqui. O Brasil é um país extremamente desigual e racista e isso está intimamente relacionado com seu passado. Não podemos continuar considerando a escravidão como algo harmonioso em nossa história, pois a resistência de muitos africanos negros também fez parte daquele período.

OP: Qual foi sua maior preocupação como quadrinista e pesquisador ao lidar com esse tema?

MD: Em Cumbe foi preciso realizar uma pesquisa para compreender o período e encontrar a forma mais interessante de mostrar o tema. Os casos sobre escravidão em registros policiais eram importantes, mas ainda era preciso mais. Por esse motivo estudei as características culturais dos africanos de origem banto que chegaram no Brasil colonial. As palavras de origem banto (do kimbundo, umbundo etc.) foram importantes para trazer esses traços culturais. Estudei sobre a arte dos povos tchokwe, do nordeste de Angola, suas esculturas, símbolos sona, marcas… Não podemos esquecer de divindades relevantes como Calunga (entidade relacionada ao mar e a morte) e Zambi (o grande criador) também. Pesquisar esses elementos era essencial para construir os personagens.

OP: A HQ Cumbe dialoga com os conflitos raciais na atualidade? Como?

MD: Existe uma necessidade dos grupos negros atuais construírem referências interessantes para pensar seu passado, por esse motivo, não me interessava representar negros e negras apenas como atores passivos. Mesmo subjugados socialmente, havia certo protagonismo e negociação nesse sistema. Essa busca por protagonismo é algo que está presente em nossa história recente.

O Brasil naturaliza e muito as relações sociais e etnico-raciais. O assassinato de jovens negros na periferia mostra o descaso das autoridades quanto ao futuro dos seus jovens. Grande parte da população negra está nos estratos mais pobres da sociedade e isso é visto com absurda normalidade. É preciso imaginar novas formas de representar esse grupo e as HQs podem colaborar nesse sentido.

OP: Como você considera a atuação/representação do negro nas histórias em quadrinhos, em geral?

MD: Temos poucos exemplos de quadrinhos que focam essa perspectiva de modo interessante, longe dos velhos estereótipos. O pesquisador Nobu Chinen tem uma tese muito interessante sobre a representação negra nas HQs nacionais. Ele demonstra como, durante longo período, os personagens negros foram apresentados de modo simplificado e socialmente inferior, uma típica visão da elite, da casa grande, sobre os demais grupos sociais. No entanto, nas últimas décadas, novas narrativas estão surgindo.

O trabalho do Maurício Pestana é um exemplo histórico muito interessante. Suas charges são extremamente fortes para discutir racismo e discriminação. Mais recentemente tem o livro Chibata, sobre o João Cândido [líder negro da Revolta da Chibata, que ocorreu em 1910], as narrativas do André Diniz e a HQ africana Aya. Estão surgindo autores novos interessados em discutir temas relacionados à história negra brasileira e este é um momento importante.

Entretanto, além dessas histórias negras se tornarem temas relevantes, é importante ter autores negros criando histórias. Garantir essa perspectiva é muito relevante artística e socialmente. Não podemos ter apenas um mesmo grupo falando de nossas histórias.

OP: Qual a diferença entre trabalhar com uma obra em quadrinhos inteiramente de ficção e uma obra que se baseia na História?

MD: As histórias dos livros Noite Luz (2008), Encruzilhada (2011) e Risco (2014) surgiram a partir de observação, notícias de jornal e conversas com amigos. Em geral, anoto as ideias em um caderno ou arquivo. Depois, revejo quais dessas ideias podem ser organizadas numa narrativa. A pesquisa, nesses casos, era menor, pois tudo dependia de uma boa observação do entorno. Já no livro Cumbe percebi desde o início que não podia trabalhar do mesmo modo. Qualquer narrativa que imaginasse seria menor do que as possibilidades das histórias registradas. Desse modo, fui atrás de registros e fatos envolvendo africanos e negros escravizados no Brasil colonial. A partir desses primeiros fatos foi possível criar os personagens, cenas e histórias.

OP: Seus trabalhos anteriores também envolviam temáticas semelhantes? Há quanto tempo trabalha com quadrinhos?

MD: Realizo e publico quadrinhos há cerca de 15 anos. Comecei nas revistas Quadreca e Front e minhas histórias e traço representam geralmente conflitos em grandes cidades. Essas narrativas mostram conflitos a partir de experiências de personagens razoavelmente à margem da sociedade, como trabalhadores pobres, desempregados, jovens negros, mendigos, ambulantes. De certo modo, há uma linha narrativa que costura o Brasil colonial com nossa realidade social atual. A questão da exclusão de grande parcela da população negra e da manutenção do poder na mão de uma elite pretensamente branca unem esses vários períodos da história.

OP: Em uma das páginas da HQ Cumbe há uma possível releitura do quadro “O beijo” do Gustav Klimt. Você utiliza outras referências artísticas (de quadrinhos ou outras vertentes) ao longo da obra?

MD: Tenho grande interesse por artes plásticas e arte da África. No livro, há muitas referências aos símbolos de origem africana, principalmente dos tchokwe de Angola. A escultura cabinda, o símbolo sona, além de estudos de obras (de artistas como Franz Post, Albert Eckout etc.) foram importantes para criar uma visualidade mais próxima da época. Às vezes, essa influência surge de modo indireto, como é o caso da semelhança com Klimt. Trabalhei por alguns anos no Museu Afro Brasil em São Paulo. Conhecer o seu acervo de artistas, assim como sua biblioteca, foi muito importante para esses trabalhos.

OP: Já está pensando em um próximo projeto?

MD: Meu projeto atual é fazer uma HQ de cerca de 350 páginas sobre o Quilombo dos Palmares. Este é o meu principal interesse no momento. Palmares foi um dos grandes fatos do século XVII e essa HQ é mais uma possibilidade de leitura daquele momento. Pretendo ter o livro pronto até ao final de 2016.