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Sociedade

O perigoso fetiche de Wall Street

por Rafael Zacca — publicado 23/04/2014 16h33
Algo fundamental passou despercebido no filme de Martin Scorcese. Num tempo de crise de paradigmas, ele desnuda ponto de encontro ente capital e fascismo

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Por Rafael Zacca

A cena de abertura de O Lobo de Wall Street exibe um comercial das Stratton Oakmont Inc. que traz uma importante chave de decifração do malabarismo a que Martin Scorsese submete o seu último filme. Nesse comercial, a placa de Wall Street, a famosa rua da ilha de Manhattan em que está a principal bolsa de valores do mundo, precede um discurso sobre a selva que é o mundo dos negócios. O narrador guia o espectador ao dizer: “Touros, ursos, perigo a todo momento.” O comercial das Stratton Oakmont promete guiar os compradores da bolsa de valores pela selva financeira a partir de seus princípios de estabilidade, integridade e orgulho, enquanto um leão, o majestoso rei da selva, caminha deixando um rastro, uma promessa de ordem.

Repentinamente, porém, o espectador é remetido ao universo caótico das Stratton Oakmont, com um lunático Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) berrando alucinadamente enquanto anões são arremessados em um jogo de apostas. A sequência duplamente surrealista do filme, que traz um leão no comercial da empresa, e um anão arremessado em meio a um dia de trabalho rotineiro, denuncia que este não é um filme exatamente sobre a bolsa de valores. É claro que seu conteúdo material, a massa factual que manipula, diz respeito a esse universo. Mas o que o filme de Scorsese tenta apresentar diz respeito a um fenômeno mágico moderno. Quando Jordan Belfort pede para que algum de seus funcionários lhe venda uma caneta, ou quando pede, na última cena do filme, para que os ouvintes de sua palestra façam o mesmo, ele denuncia esse fenômeno e de onde ele emana. Trata-se do fetiche da mercadoria.

Da primeira vez que usa a expressão “sell me this pen”, venda-me esta caneta, a natureza mágica do fetiche se expõe. Ela sucede um diálogo em que Belfort explicava que todas as pessoas do mundo querem ficar ricas, enquanto um de seus empregados argumentava que vendia maconha para um homem que só queria fabricar móveis. Que um homem queira apenas fabricar móveis, isso é incompreensível para Belfort. Todas as relações mágicas têm por natureza tamanha autoridade da ilusão, que é impossível compreender que algo de diferente exista. Belfort não pode compreender que haja gente que não queira ficar rico. Isso não é exposto de maneira moral por Scorsese: existe um tipo de relação social que engendra certa concepção de mundo (e é exatamente por isso que não há uma mensagem moralista no filme que diga: “veja como Wall Street é cheia de babacas e imorais”, ou “a natureza do homem é de lobo do próprio homem”, embora haja tanto desentendimento sobre o filme, quando dois lados de uma discussão infrutífera argumentam se o filme é pró ou anticapitalista). A natureza de qualquer fetiche é um véu. Ele oculta todas as relações que dão origem a um fenômeno; apenas no ocultamento é possível a emergência de um fetiche. Deste véu emergem tanto as imagens irresistíveis da “mulher inacessível”, que está por trás de toda a história da dominação patriarcal, e que resulta na abundância de fantasias sexuais femininas emsexy shops ou em novelas televisivas, como as embalagens estetizantes dos diversos produtos nas vitrines que fazem com que eles sejam perseguidos para além de suas qualidades ou das suas possibilidades de uso. O filme de Scorsese serve-nos para que lancemos um olhar mais profundo sobre o Black Friday e sobre as zonas de prostituição – e sobre a sugestiva culminância do Red Light District.

Não é por acaso que a prostituta é uma figura central no filme. Prostituição, drogas de origem industrial e dinheiro são um trio inseparável na arquitetura cinematográfica doLobo. Na sequência “desmistificadora” da personagem de Belfort há uma cena em que essas três figuras se alternam de maneira significativa. Num primeiro momento, o corretor está com uma prostituta, a mercadoria encarnada, mas não a está penetrando; ao invés disso, usa seu ânus como suporte para se entorpecer. Em seguida, fala de sua relação com a droga, vestido em um terno Armani: “Sim, em uma base diária, eu consumo drogas o suficiente para sedar Manhattan, Long Island e Queens.” Após descrever as drogas que toma a cada momento do dia (todas de origem industrial – as drogas industriais são contemporâneas do auge do capitalismo no século XXI), fala de seu principal vício: “De todas as drogas sob o céu azul de Deus, há uma que é a minha favorita absoluta”, e, enquanto bate uma carreira de cocaína, prossegue: “Vê? O suficiente dessa droga vai torná-lo invencível, capaz de conquistar o mundo e extirpar seus inimigos.” E explica que não está falando da cocaína. Ele abre o canudo com que cheirou a droga, e exibe uma nota de cem dólares: “estou falando disso.”

A maior parte da autoapresentação de Belfort é exibida no estilo dos selfmade men. Um Leonardo DiCaprio bem vestido, penteado e confiante é exibido sempre caminhando em direção à câmera, explicando suas qualidades e sua história, a servir de exemplo para seus espectadores. O formato acolhido pela estética dos livros de autoajuda é torcido (ou melhor, revelado em sua mais profunda verdade) por Scorsese para mostrar o quanto há de destruction of the other em qualquer relação mercadológica. As Stratton Oakmont, entulhadas em processos e sob investigação constante do FBI por suas ações ilegais, não devem ser compreendidas como um acidente na história divina do deus mercado: elas são o seu modus operandi.

Os desígnios do deus mercado são inescrutáveis. Não tente compreender, Belfort adverte. Quando precisa explicar alguma manobra que fez para quebrar as leis estatais e faturar milhões com a venda ilegal de ações ou qualquer outro procedimento (não tente compreender!), ele avisa ao espectador para que não se preocupe em entender: faturar milhões ultrapassa qualquer entendimento. É claro, o deus mercado é incompreensível para quem está de olho nas cifras. Para manipular a mercadoria como objeto poético em seu filme, e o fetiche que dela decorre, Martin Scorsese não poderia usá-la como objeto direto; nem poderia, pois ela não é o objeto em si, não teria como mostrar diversos consumidores na fila pelas últimas novidades em um shopping centerqualquer. Pois é da natureza da mercadoria ocultar as relações sociais que a produziram. Sua culminância são os números da bolsa de valores, que são negociados como números, mas que flutuam de acordo com uma série de relações humanas, e não com uma matemática pura aplicada.

Apenas ao esconder as relações humanas, a mercadoria consegue estetizar a vida dos seres humanos. Ainda em princípios do Lobo, Belfort explica que aos 22 anos teve uma experiência com a bolsa de valores de Nova York que mudou sua vida. Principalmente após a conversa com o corretor Mark Hanna. A fala do corretor ao aconselhar Belfort sobre o trabalho na bolsa é reveladora neste sentido. Segundo Hanna:

Ninguém sabe se uma ação sobe ou desce ou se a merda fica variando em círculos. (…) É tudo falso, pó de fada, não existe. Nunca se materializou, ou seja, não importa, não é carga elementar, não é real! Não criamos nada, não construímos nada. Então, se tem um cliente, que trouxe a ação em 8 e agora está em 16, está feliz pra caralho, quer descontá-lo e liquidar, levar a grana pra casa… Você não deixa ele fazer isso. Porque isso vai tornar a coisa real.

Hanna introduz Belfort no reino mágico da mercadoria. A música que improvisa ao ensinar-lhe o caminho das pedras – tomada por um observador desatento como puro descontrole emocional – representa um passo a mais nessa estetização. Sai da argumentação racional do funcionamento da bolsa para “tornar-se um hábito”, como explica Hanna. A mesma canção é entoada anos mais tarde por Belfort para embalar seus funcionários, enquanto discursa tão furiosamente como um Führer. O ponto de encontro entre capitalismo e fascismo é desnudado por Scorsese a partir da estetização da vida promovida pela mercadoria; estetização tão característica do fascismo e tão aparente no Terceiro Reich. Ao discursar para seus funcionários eufóricos, Jordan Belfort pode ser comparado a Adolf Hitler, não no sentido de culpabilizá-lo moralmente pelos escândalos das Stratton Oakmont, assim como não deve recair sobre Hitler a responsabilidade única sobre o Nazismo. Se Jordan Belfort não existisse, outro ocuparia o seu lugar, assim como o Führer é a parte menos trágica do Terceiro Reich.

A história de Jordan Belfort contada por Scorsese não fala de um homem descontrolado, imoral ou afetado. Não fala de um sacana que quer ferrar a todos. Não fala sobre um corretor da bolsa de valores. Jordan Belfort é um cavalo de santo, através de quem fala a própria mercadoria, assim como através de Hitler falavam as relações de produção capitalistas desesperadas por se defender de uma crise sem precedentes, mimetizando os anseios mais profundos e contraditórios do povo alemão da meia noite do século.

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Rafael Zacca Poeta e crítico literário, é mestrando em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense. Integra o corpo editorial da Revista Chão, e mantém a coluna Sucesso de Sebo. Participa da Oficina Experimental de Poesia, no Rio de Janeiro.