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Cultura

O Menino e o Mundo: radicalismo e marca autoral

por Cláudia Mogadouro — publicado 17/10/2014 16h59, última modificação 17/10/2014 17h30
Riquíssimo em inovações estéticas, lírico e político simultaneamente, oposto às superproduções, filme premiado de Alê Abreu sugere boom da animação brasileira
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Cena do filme de animação O "Menino e o Mundo", dirigido por Alê Abreu.

[Este é o blog do site Outras Palavras em CartaCapital. Aqui você vê o site completo]

“É preciso restaurar (a unidade complexa da natureza humana),
de modo que cada um, onde quer que se encontre, tome conhecimento e consciência,
ao mesmo tempo de sua identidade complexa
e de sua identidade comum a todos os outros humanos”

Edgar Morin

O filme de animação O Menino e o Mundo, dirigido por Alê Abreu, já vinha revelando uma rara unanimidade entre os críticos de cinema, nos festivais e mostras internacionais das quais participou em 2013. O aplauso do público, após o lançamento comercial brasileiro em janeiro de 2014, só confirmou que se tratava de uma novidade muito especial no cenário da animação brasileira. Não é exagero afirmar que sua relevância vai além dos filmes de animação. Traz bons ventos à cinematografia brasileira como um todo, afirmando-se como uma de nossas melhores produções audiovisuais dos últimos tempos.

Tentarei esboçar alguns dos aspectos que fazem deste filme uma obra prima do audiovisual brasileiro e mundial. Certamente, muitas críticas e estudos ainda serão escritos sobre essa animação tão mágica e poética.

Em junho de 2014, depois de circular por muitos festivais mundiais, sempre arrebatando prêmios, veio o veredito do festival mais conceituado do mundo da animação: o melhor filme no Festival de Annecy, na França. Até 2013, o Brasil nunca tinha participado na mostra competitiva deste festival. Sua estreia se deu com Uma História de AmorFúria, de Luiz Bolognesi (2013), premiado como melhor filme pela crítica especializada. Em 2014, ganhou novamente o primeiro prêmio, sendo que, desta vez, o reconhecimento foi da crítica e do público.

Segundo Luiz Bolognesi, que compôs o júri deste último festival, o “boom” da atual fase da animação brasileira pode ser comparado ao sucesso da bossa nova no início dos anos 1960. De acordo com o cineasta, a animação brasileira tem se destacado mundialmente por seu radicalismo e por sua marca autoral. A prova disso é que O Menino e o Mundo custou menos de 2 milhões de reais e ganhou de produções norte-americanas e japonesas – os craques da animação mundial – que custaram mais de 20 milhões.

Segundo Alê Abreu, as ideias iniciais para fazer esse filme surgiram logo na fase de finalização de seu primeiro longa – Garoto Cósmico (2008) –, quando ele abraçou um projeto de pesquisa sobre a conturbada história do continente latino-americano, do ponto de vista das canções de protesto. De mochila nas costas, percorreu diversos países, estudando história e música, levando consigo um caderno de anotações, uma espécie de diário com rascunhos de ideias e muitos desenhos.

Foi nessa viagem que o menino lhe surgiu. Batizado inicialmente de Cuca, tempos depois perdeu o nome. O diretor optou por chamá-lo apenas de menino.

Nos anos seguintes, era como se o menino tivesse vida própria e lhe contasse passagens de sua história, sem linearidade e sempre na ambiência daquela viagem e da música latino-americana. A primeira imagem que brotou foi a de um menino em um jardim muito colorido, brincando com bichos e plantas, até que é levado pelo vento, aventurando-se pelo mundo. A motivação de sua viagem é a saudade do pai, que tomara um trem em busca de trabalho no campo ou na indústria, já que a plantação de sua pequena propriedade não mais sustentava sua família.

O processo de produção do roteiro se deu de forma atípica. Ideias desconexas foram se juntando, ligadas muito mais por música e desenhos, já que o cineasta é artista plástico e tem forte ligação com a linguagem musical. Talvez por isso, há poucos diálogos no filme, que são falados em português de trás para frente. Desta forma, a palavra “menino” é falada “oninem”. A palavra “adeus” é “sueda”. O mesmo se aplica às propagandas e telejornais que estão sempre nesta linguagem (escrita e falada), dispensando palavras claras. A crítica à mídia é mordaz, mostrada como elemento de alienação e manipulação ideológica.

A narrativa com cores e som conjugados traz um sentimento nostálgico da infância e do estado natural das coisas. Logo no início do filme, mergulhamos numa experiência sensorial indescritível, quando caímos junto com o menino no meio das árvores e depois num lago com peixes.

Além do forte colorido feito com as mais diversas texturas e técnicas de desenho, somos acompanhados pela sonoridade de Naná Vasconcelos, que nos remete ao som das árvores e das águas. Os perigos que essa criança enfrenta no início do filme, estão na ordem do crescimento natural, dos tombos, galos na testa e arranhões no joelho, que todos nós ganhamos na primeira infância.

Como o filme é mostrado a partir dos olhos ingênuos e perplexos do menino, com fala incompreensível, o espectador veste sua pele e sente como ele os problemas do mundo adulto, ainda que não os entenda e que nada lhe seja explicado. Apesar de sentirmos como ele, nós somos adultos, por isso vem uma grande aflição em relação aos perigos que o menino enfrenta.

A união do desenho com a música tem presença muito forte, por exemplo, na representação dos sons da flauta: quando o pai toca a flauta em uníssono, o som é representado por bolinhas de uma mesma cor; quando aparecem vários músicos tocando uma música mais harmonizada, as bolinhas são de várias cores. A imagem do pai, cada vez mais distante, se concretiza no som da sua flauta, guiando suas aventuras. Mais adiante, quando o som vem do exército opressor, as bolinhas são pretas. A mesma oposição se dará com os pássaros que lutam: o pássaro preto está do lado do opressor e o colorido representa o movimento popular, sempre renascendo.

A trilha sonora, composta por Gustavo Kurlat e Ruben Feffer, é essencial na narrativa e mostra influência das canções de protesto latino-americanas. Além do percussionista Naná Vasconcelos, o filme conta com a participação do rapper Emicida, do GEM – Grupo Experimental de Música e do grupo Barbatuques, marcando cada passo e respiro do menino.

O filme é adequado para qualquer idade, pois, independente de seu engajamento e do pano de fundo sociopolítico, o filme é de uma plasticidade rara. Sua ousadia estética se dá inclusive no intenso uso do branco, em contraponto às paisagens que lembram Paul Klee ou Kandinsky.

Outra opção estética interessante é a utilização de traços muito simples no espaço de origem do menino, com cenários feitos com lápis de cor, canetinhas e tintas. À medida que o menino trava contato com a complexidade do mundo, com as injustiças e aberrações do mundo urbano, a textura dos cenários é invadida por colagens de jornais e revistas, chegando ao ponto de pegar fogo na folha do desenho, transformando-se em vídeo, em uma cena quase apocalíptica.

 

 

A identidade latino-americana em tempo e espaço indefinidos

O Menino e o Mundo não localiza o espectador nem no tempo nem no espaço. Somos levados como o menino, num tempo impreciso, a lugares imaginários, mas nem por isso irreais. Saindo de seu jardim colorido e poético, o menino conhece a realidade dos processos de trabalho capitalista em todas as suas etapas: plantações de algodão em larga escala, tecelagem, distribuição para o mercado consumidor, exportação e, por fim, a publicidade incitando ao consumismo. A chegada da tecnologia para os trabalhadores significa o desemprego e a acentuação da exclusão.

Apesar dessa imprecisão, não há como não pensar nos processos semelhantes de colonização pelos quais passou todo o continente latino-americano. Primeiro como colônia fornecedora de matéria prima e mão de obra barata. Depois, a condição de todos esses países terem sido governados por ditaduras militares, representadas no filme por grandes tanques de guerra – como se fossem máquinas-monstro. O clima de opressão é quebrado várias vezes por uma trupe de músicos e dançarinos, com gorros e ponchos coloridos, tocando músicas alegres, ao som da flauta-pan. São momentos de respiro, como a lembrar que a resistência popular não morreu e dará alento a esse menino tão solitário.

A situação de dependência mantém-se até hoje no mundo globalizado. O descaso com que são tratados os trabalhadores é mostrado tanto no trabalho do campo como na fábrica. Outra crítica importante é a questão da destruição do meio ambiente. Mas o filme não nos fala apenas de opressão e destruição, mas também da resistência cotidiana criativa e transformadora, como nos diz Michel De Certeau (2003). O operário que se solidariza com o menino mora na periferia, dorme em frente à televisão, toca sua flauta em um lixão e ainda consegue participar de feiras de artesanato aos fins de semana.

A imprecisão e a simplicidade desse menino desenhado com lápis de cera mostra uma estética minimalista, muito diferente dos grandes estúdios de animação. Essa simplicidade o torna um menino único e universal, ao mesmo tempo. Há uma cena em que o menino espera a chegada do trem e vê seu pai. Quando corre para abraçá-lo, ele vê vários homens iguais, uma infinidade de trabalhadores em busca de uma vida melhor. O aperto no coração que sentimos neste momento não se deve apenas ao sentimento de saudade do garoto, mas também à dor dos imigrantes brasileiros e universais, ao abandono dos trabalhadores e suas famílias, à dor da miséria humana.

O Menino e o Mundo é uma obra humanista e densa, que mostra a complexidade do mundo por meio de um desenho simples de menino. E essa simplicidade da essência permite que o filme faça uma forte comunicação com todo tipo de espectador.

Pensando na potencialidade do cinema como instrumento de formação cultural, este é um filme fundamental para ser visto por crianças e adultos, educadores e educandos, pois permite que aflore nosso sentimento de sujeito, como parte de uma sociedade e como parte da espécie humana.

Referências

CERTEAU, Michel De. A Invenção do Cotidiano, Artes de Fazer. Petrópolis/RJ: Vozes, 2003.

MORIN, Edgar. Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, São Paulo: Ed. Cortez,

2001.

Entrevista de Alê Abreu e Luiz Bolognesi sobre o boom da animação brasileira no Programa Metrópolis de 25/06/2014, na TV Cultura.