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Internacional

O Brasil e as "potências emergentes"

por José Luis Fiori — publicado 24/10/2013 18h17, última modificação 24/10/2013 19h09
Importantes econômica e geopoliticamente, BRICS podem estabelecer cooperação e parcerias. Mas não uma aliança estratégica, por ocuparem posições díspares no cenário mundial
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Brasil tem menor importância econômica do que China e muito menor poder militar do que a Rússia e a Índia. Mas é o o país com maior potencial de expansão pacífica, dentro da sua própria região

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Considerar a China uma “potência emergente” é, no mínimo, um descuido etnocêntrico ou um grave erro histórico. No caso da Rússia é uma tentativa explícita de diminuir a importância de uma nação que assombra os europeus desde que os soldados de Alexander Nevsky derrotaram e expulsaram do território russo os cavaleiros teutônicos, germânicos e suecos na famosa Batalha do lago Chudskoie, em 1242. E que, no século XX, alcançou em poucas décadas a condição de segunda maior potência econômica, militar e atômica do mundo. Apesar disto, tornou-se um lugar comum colocar estes dois países na categoria das “potências emergentes”, ao lado da Índia e do Brasil, e a própria África do Sul acabou sendo incluída na produção midiática do grupo BRICS.

A somatória simples indica que o peso demográfico e econômico destes cinco países é considerável. Juntos, governam cerca de 3 bilhões de seres humanos, quase metade da população mundial, e desde 2003, o crescimento do grupo representou 65% da expansão do PIB mundial. O produto interno bruto destes países já é de cerca de US$ 29 trilhões, ou seja, 25% do PIB mundial, e já é superior ao dos EUA, e da União Europeia, tomados isoladamente, pela paridade do “poder de compra”. A formação de um grupo de cooperação diplomática e econômica, e a existência de um fluxo comercial e financeiro significativo dentro deste grupo de países é um fato novo e pode vir a ser a base material de algumas parcerias setoriais, e localizadas, entre todos ou alguns deles. Mas não é suficiente para justificar uma “aliança estratégica” entre estes cinco países que ocupam posição de destaque, nas suas regiões, pelo seu tamanho, território, população e economia – mas são muito diferentes, do ponto de vista de sua inserção internacional, geopolítica e econômica.

Logo depois da dissolução da União Soviética, e durante toda a década de 1990, muitos analistas vaticinaram o fim da grande potência eurasiana. Mas a Rússia já foi destruída e reconstruída muitas vezes, ao longo de sua história milenar. Por sua vez, China e Índia controlam um terço da população mundial, têm 3.200 quilômetros de fronteiras comuns, possuem arsenais atômicos e sistemas balísticos de longo alcance e já se enfrentaram em várias guerras. Dentro do xadrez geopolítico asiático, China e Índia disputam várias zonas de influência sobrepostas, e possuem algumas alianças regionais antagônicas. Por sua vez, Brasil e África do Sul compartem, com os gigantes asiáticos, o fato de serem as economias mais importantes de suas respectivas regiões, e de serem responsáveis por uma parte expressiva do produto e do comércio da América do Sul e da África. Mas os dois países não têm disputas territoriais com seus vizinhos, não enfrentam ameaças externas imediatas à sua segurança, e não são potências militares relevantes. Mesmo assim, o Brasil é mais extenso, populoso, rico e industrializado do que a África do Sul, dispõe de recursos estratégicos, tem capacidade para ser auto-suficiente do ponto de vista alimentar e energético e possui uma importância e uma projeção regional, política e econômica, dentro da América do Sul, muito maior do que a da África do Sul dentro do continente africano. E, por isto também, o Brasil tem, no médio prazo, um potencial de expansão pacífica e de projeção internacional de sua influência muito maior que a dos africanos – e talvez mais desimpedida, ou desbloqueada, que a dos russos e dos asiáticos.

Nas próximas décadas, o mais provável é que a Rússia tente reverter suas perdas sofridas depois do fim da Guerra Fria e se proponha um imediato retorno ao núcleo central das grandes potências, deixando de ser “potência emergente”. Enquanto a China tende a se afastar de qualquer aliança que restrinja sua ação no tabuleiro internacional, já na condição de quem participa diretamente da gestão econômica do poder mundial. Por sua vez, a Índia não tem nenhuma perspectiva nem projeto expansivo global e deve se dedicar cada vez mais ao seu “entorno estratégico”, onde a expansão da China aparece como sua principal ameaça regional. Comparado com estes três “países continentais”, o Brasil tem menor importância econômica do que a China e muito menor poder militar do que a Rússia e a Índia. Mas, ao mesmo tempo, o Brasil é o único destes países que está situado numa região onde não enfrenta disputas territoriais com seus vizinhos, e por isto é o país com maior potencial de expansão pacífica, dentro da sua própria região. Por último, o Brasil, mais do que a África do Sul, deve manter e ampliar sua posição de estado relevante, dentro do sistema mundial, mas com pouca capacidade ainda de projetar seu poder fora do seu “entorno estratégico”, durante as próximas décadas.

Somando e subtraindo, a categoria das “potências emergentes” pode gerar inciativas diplomáticas importantes, mas o mais provável é que este grupo perca coesão e eficácia, na medida em que o século XXI for avançando, e que cada um destes cinco países seja obrigado a tomar o seu próprio caminho, mesmo na contramão dos demais, na luta pelo poder e pela riqueza mundial.

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José Luís Fiori é professor titular de Economia Política Internacional da UFRJ, é Coordenador do Grupo de Pesquisa do CNPQ/UFRJ, “O poder Global e a Geopolítica do Capitalismo”,www.poderglobal.net. O último livro publicado pelo autor, O Poder Global, editora Boitempo, pode ser encontrado em nossa loja virtual. O acervo de seus textos publicados no Outras Palavras, podem ser lidos aqui.