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Política

Há razões para não podermos?

por Nuno Ramos de Almeida — publicado 06/11/2014 17h29
Quem se opõe à ditadura dos mercados deve ocupar o lugar do poder, para torná-lo espaço de todos. Por isso, o Podemos avança na Espanha
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Pablo Iglesias, principal referência do “Podemos”. No último domingo (2/11), novas pesquisas de opinião pública revelaram que partido-movimento lidera, na Espanha. preferência dos eleitores

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Na Espanha, Itália, França, Grécia e por todo os cantos da Europa existe um grande descontentamento: a uma crise econômica e social gerando uma crise política. As pessoas estão descontentes com um regime que se chama democracia, literalmente “poder do povo”, mas em que as pessoas mandam cada vez menos. A capital de fato do governo português está em Berlim, os serviços em Bruxelas e os lacaios em Lisboa, e todos servem a mesma casta ligada aos interesses financeiros e especulativos. A nossa participação só é pedida quando é necessário pagar os buracos dos bancos feitos por essa gente. A cidadania foi limitada ao papel de fiador obrigado.

Por todo o lado, os partidos do “centrão”, que conduziram os povos da Europa à crise e à destruição das conquistas sociais de várias gerações, estão com a corda no pescoço. Em todo o lado? Não, em Portugal o governo que se segue vai pertencer mais uma vez à alternância do bloco central dos interesses, e em todas as sondagens PS e PSD continuam a ser de longe os partidos mais votados pelos portugueses.

Era interessante perceber quais são as razões que fazem que os partidos do sistema tenham tanta resistência apesar do enorme desastre a que nos conduziram: se calhar, é porque os partidos que contestam este estado de coisas não tiveram a capacidade de os afrontar de forma eficiente. O politólogo André Freire, num interessante comentário numa notícia do ionline sobre a passagem do Podemos para a condição de primeira força política em Espanha, diz o seguinte: “Em Portugal é, preciso que a esquerda radical deixe muito claro que quer ser governo e está disponível para fazer as alianças necessárias para o conseguir.”

Acho precisamente o contrário. O problema dos partidos como o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português não é estarem indisponíveis para patrocinar os governos da ala de centro-esquerda do bloco central — é terem sido incapazes de transformar uma maioria social contra estas políticas numa maioria política. Aliás, o que as pessoas exigem às forças políticas é uma ruptura com aquilo que existe, não que se proponham comer à mesa do sistema. O drama surge quando as alegadas novas alternativas têm como alfa e ômega da sua política o desejo de se aliarem ao partido do próximo governo, independentemente de tudo o resto.

Mas pelo menos numa coisa André Freire tem razão: quem se opõe a este estado de coisas deve ter a ambição de governar e de ocupar o lugar do poder para torná-lo um espaço de todos: devolver o poder político aos cidadãos. Não há governo por telepatia. É preciso ter a ambição de vencer. Não é possível triunfar sem incorporar no processo político a maioria das pessoas que foram expulsas dele. Se um partido contesta um sistema que decide pelas pessoas, tem de colocar a democracia no centro da sua atividade.

Aquilo que o Podemos parece demonstrar é que isso é possível. O partido espanhol não se contentou em jogar nas condições existentes: alterou as coordenadas do terreno. O seu programa alicerça-se em ideias em que existe uma fortíssima hegemonia na maioria da população. Nesta fase da luta política, em vez de nos dividirmos em questões que não se levantam agora, é preciso unirmo-nos contra um estado de coisas: as pessoas não estão de acordo com um regime, com uma corrupção sistêmica que privilegia sempre os mesmos e aumenta cada vez mais as desigualdade sociais. O Podemos, ao pôr tudo isto em cima da mesa, criou as condições para uma ruptura populista que dê o poder ao povo. E sobretudo declarou a sua vontade de vencer. É esta a grande diferença.