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Internacional

Outras Palavras

A aposta municipalista: plataformas pós-partido reconectam Espanha

por Bernardo Gutiérrez — publicado 16/06/2015 19h14, última modificação 17/06/2015 16h57
No terremoto que levou cidadãos aos governos de Madri e Barcelona, falta examinar um aspecto: a “aposta municipalista” — que crê em mudar a política onde o poder é obrigado a se chocar com sociedade

“Aconteça o que acontecer nas eleições europeias o sinal verde foi dado nas eleições municipais. Com isso chegará a grande prova de fogo dos movimentos que levantam um ataque institucional”. Assim anunciava Traficantes de Sueños – uma influente cooperativa editorial e livraria de Madri – no curso Ataque aos céus (terceiro round)1, em maio de 2014. O objetivo do curso estava traçado estrategicamente: “Pensar e desenhar uma aposta municipalista que trabalhe questões chave em torno de como construir uma verdadeira democracia”. Noutras palavras, planejar o salto para as instituições a partir do ecossistema do 15M – Indignados, que havia tomado as praças do país em 2011. O desafio: passar do grito “não nos representam” ao “nos representamos”.

O plano municipalista estava em andamento muitos antes do maremoto que o novo partido Podemos causou nas eleições europeias, em 25 de maio de 2014, quando conseguiu cinco eurodeputados. Podemos despertava já alguns receios entre alguns movimentos sociais, por sua pressa em “atacar” as instituições e por sua narrativa agressiva. E por isso, um dia depois das eleições europeias, seguindo o roteiro de uma trajetória prévia, nasceu o livro La apuesta municipalista (A aposta municipalista)2, assinado pelo Observatorio Municipal de Madri. 

O livro tem como subtítulo: “la política comienza por lo cercano”, a política começa pelo próximo, numa introdução histórica: “da Ágora grega ao cantonalismo espanhol do século 19 (movimento que propunha organizar a sociedade em confederações de cidades independentes com federação livre), passando pelas comunas e os municípios livres da segunda república espanhola, do Provos holandês (movimento de contracultura da década de 60) aos Verdes alemães (partido fundado em 80) ou as Juntas del Buen Gobierno zapatista”.

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Publicado com licença copyleft (licença livre para baixar, reproduzir e remixar), era mais do que um livro. Era um dispositivo apropriável: o Observatorio Metropolitano de Madri recomendava que cada cidade adaptasse o capítulo 4 (dedicado à Madri) por um capítulo local. “As eleições gerais pareciam inviáveis. As eleições municipais eram mais possíveis: poderiam ser abordadas sem aparatos centralizadores de partidos”, assegura Emmanuel Rodríguez, um dos responsáveis por La apuesta municipalista.

O livro se conclui com o capítulo Por um municipalismo democrático: “A democracia perde a maior parte de sua substância se não se instituem âmbitos diretos de decisão nos quais as pessoas comuns possam fazer exercício efetivo de um mínimo de autogoverno”. O desafio estava lançado. Em La apuesta municipalista, confluíam de alguma maneira os anseios do grupo EnReduma aposta pela organização aberta em Madri desde o começo de 2013, por movimentos sociais vinculados ao 15M, em prol da cultura livre e dos bens comuns. La apuesta municipalista também era um antídoto coletivo frente ao furacão Podemos. Se EnRed.cc significava decisão por consenso, a prática da assembleia e praças ocupadas, Podemos era ataque institucional e tentativa de hegemonia política. A tentativa de unir os diferentes fluxos político-sociais foi batizado de “confluência”. Confluência: algo muito diferente de uma coligação ou aliança político-partidária. Algo mais do que uma frente cidadã. Algo mais do que uma candidatura de unidade popular. Algo novo, inexistente até um ano atrás.

Ninguém imaginava que uma confluência chamada Ahora Madrid (Agora Madri) acabaria retirando o conservador Partido Popular (PP) da prefeitura de Madri. Como conseguiram? Como se teceram as confluências que tomaram o poder nas eleições do 24 de maio (o #24M nas redes) em algumas das cidades mais importantes da Espanha?

Resultados Gerais

Uma edição do Le Monde serve de metáfora perfeita para o processo eleitoral do #24M: “Terremoto político na Espanha3. Terremoto. Apesar disso, não é possível fazer uma leitura linear. Impossível simplificar. Difícil encontrar ganhadores e perdedores à primeira vista. A primeira contradição: o Partido Popular (PP), sendo o partido mais votado é o grande derrotado. O PP perde majoritariamente em 500 cidades, em quase todas as grandes urbanas. Perderá as cidades de Madri e Valência. E muitas capitais. Perde, por sua vez, a maioria em quase todas as regiões, que serão governadas por alianças de esquerda e/ou cidadãs. Especialmente simbólica será a perda da Comunidade Valenciana. O bipartidarismo levou um duro golpe: a soma dos votos do PP e do Partido Socialista Obrero Español (PSOE) resulta apenas 52% do total. Mas sobrevive no entorno rural e entre o eleitorado idoso.

O PSOE não morre: perde votos, mas recupera regiões como Astúrias ou Extremadura. Com pactos, governará em muito mais regiões e cidades. Já o Podemos se consolida como a terceira (e chave) força política, mesmo que ainda se mantenha com baixas espectativas: 14% dos votos nas eleições autônomas (regionais). O novo partido que surgiu depois do Podemos, chamado Ciudadanos (Cidadãos), exaltado pelos meios como a alternativa de centro ao “bolivariano” Podemos, não emplacou, ficando abaixo de 10% dos votos.

Onde está então o grande terremoto político de que fala o Le Monde? Está no resultado das eleições municipais. Não tanto entre quem perde, mas sim entre quem ganha. O terremoto político leva o selo confluência, esse pós-partido que governará as principais cidades da Espanha.

As leituras do terremoto eleitoral são confusas, contraditórias. Os meios conservadores espanhóis ignoram o fenômeno da confluência. E afirmam que o Podemos “não ganhou nada”. Os meios internacionais afirmam que Podemos acabará governando cidades como Madri ou Barcelona. Atribuem a Pablo Iglesias, líder indiscutível da formação, o êxito municipal “das esquerdas”. E seguem definindo as confluências municipais como “frentes de esquerda”. Owen Jones, em um artigo no The Guardian4, recomenda a esquerda britânica a aprender espanhol: “Tudo gira ao redor da atitude e a estratégia, de outra forma estaremos simplesmente elegendo o gueto autoimposto a partir do que queremos vociferar com impotência”.

Tudo é mais complexo. Menos linear. Menos dicotômico. Não serve à lógica binária. O eixo esquerda-direita não está morto: mas está agonizando. Não explica tudo. As confluências, especialmente em Madri, não são exatamente “as esquerdas unidas”. Mais complexidade, por favor, escrevia Antón Losada: “Após a campanha mais vazia, frívola e simples que alguém é capaz de recordar, nós protestamos ao votar no #24M pela complexidade, a sutileza e os matizes. Frente às propostas for dummies5 sobre escolher entre comigo ou contra mim, os votantes optaram por ensinar a todos os candidatos e todas as forças políticas que a política deve ser praticada conforme a realidade: diversificada e multifacetada e por vezes contraditória”6. Os espanhóis não votaram massivamente no PP e no PSOE. Tão pouco aconteceu exatamente o contrário. Certo: o voto foi para a esquerda. Apostou, em geral, pela mudança. Mas o mais importante: o #24M desajustou a lógica binária-antagonista do sistema político.

E a novidade do abalo democrático reside na complexidade e pluralidade das confluências. As confluências, em alguns casos com alguns pactos com forças de esquerda, governam cidades como Madri, Barcelona, La Coruña, Santiago de Compostela, Zaragoza, Terrasa ou Cádiz, entre outras cidades. Ademais, as confluências facilitam governos de esquerda, ecologistas ou cidadãos em Valência (terceira cidade mais importante da Espanha) ou Oviedo. Reformularão também os governos do cinturão obreiro de cidades como Madri ou Barcelona.

Pablo Iglesias, em outro golpe narrativo de seu particular Game of Thrones7, recordou poucos dias depois das eleições que as confluências eram uma grande aposta de Podemos. E que Podemos não é um partido: “é um instrumento de mudança”. Qual o papel do Podemos no abalo municipal da Espanha? Como se relacionam as confluências cidadãs como Barcelona em Comum ou Ahora Madrid com o Podemos? Que diálogo existe entre a cidadania, movimentos sociais, 15M – Indignados, as confluências e Podemos?

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Tentativa de cronologia

Em maio de 2014, ninguém imaginava que a onda narrativa, organizacional e emocional do Podemos poderia virar a política espanhola de cabeça para baixo em tão poucos meses. Tampouco que o municipalismo se consolidaria em todo o território espanhol de forma tão fulminante. Muito menos que ambos os processos acabariam se entendendo, confluindo. Poucos entenderam, em 3 de junho de 2014, um tweet da editora Traficantes de Sueños, que recordava aos líderes hipermidiáticos do Podemos que já existia um plano municipalista:

La apuesta municipalista” #libro preparar siguiente asalto. #DescargaLibre http://www.traficantes.net/libros/la-apuesta-municipalista CC @ahorapodemos — Traficantes (@traficantes2010) junio 3, 2014.”

Em 15 de junho de 2014, algumas semanas depois da publicação de La apuesta municipalista, foi publicado o manifesto da plataforma Guanyem Barcelona: “Não queremos nenhuma coligação nem uma mera sopa de letras. Queremos nos esquivar das velhas lógicas de partido e construir novos espaços que vão além da mera soma aritimética das partes que as integram”.1 Em 26 de junho, se apresentava oficialmente o Guanyem Barcelona, iniciativa liderada por Ada Colau, a midiática porta-voz da Plataforma dos Afetados pela Hipoteca (PAH). Seu propósito era “ganhar a presidência do município de Barcelona”, criando uma confluência de maiorias. Guanyem, “ganhemos” em catalão, pegava a carona no grito empoderador do Podemos.

Por trás de Guanyem, a plataforma EnRed, em que organizações como Traficantes de Sueños2Observatório Metropolitano de Madri3Juventude Sem Futuro4 (vital no 15M) ou o Pátio Maravillas (um centro social ocupado) – cozinhavam o plano municipalista desde o início de 2013, transformando-se rapidamente para se tornar a chamada “Municipália”. E sua reunião aberta em 28 de junho, no MediaLab Prado de Madri5, abriu a porta para a tradução do nome: Gañemos (Ganhemos). E brotaram iniciativas Ganhemos em todos os bairros, em dezenas de cidades da Espanha. “Durante os últimos meses foram cozidos em fogo brando os acordos, as propostas e os programas para construir candidaturas cidadãs democráticas que se debruçassem em novas formas de organização e criação política e respondessem as teias sociais de cada localidade”, escrevia há alguns dias Pablo Carmona, um dos cérebros do El plan municipalista, vereador do Ahora Madrid.

Acordos em fogo brando, assembleias, entusiasmo, sessões, tensões. Havia pressa. E muita. Alguns participantes das assembleias dos bairros do 15M haviam aberto em 2014 círculos de Podemos nos bairros, a estrutura descentralizada mais elogiada do partido. No verão de 2014, muitos se animaram com a onda nos bairros e e abriram nós do Ganhemos. E foram tecendo a rede humana e descentralizada do que viria a ser Ahora Madrid. “As praças evidenciaram o alto nivel de preparação que temos para a gestão de situações muito complexas, com grande inteligência, mas também ternura, escuta e proximidade”, assegura Alberto Nanclares, colaborador do Ganhemos e do Movimento de Liberação Gráfica de Madri6, chave na reta final da campanha do Ahora Madrid. “As formas de cooperação dos movimentos em rede não passam mais por grandes dogmas ideológicos unitários, mas por conectar as práticas nas quais se exercem a reconquista dos direitos e do que é comum”, escrevia em 2013 Arnau Monty, em seu artigo As mutações dos movimentos de rede do 15M. “Se nos organizamos a partir de objetivos e práticas concretas, poderemos alcançar metas que pareciam impossíveis”, recorria o manifesto inicial Guanyem Barcelona.

pegatina_patossa1-746x1024-746x1024O imaginário e o método do Ganhemos Madri foram especialmente construtivos. “Tomar a cidade, mandar obedecendo (desobedecendo)7, publicado por Ganhemos Madri em 27 de junho de 2014, foi um inspirador roteiro comum. A obediência zapatista8, remixada com a desobediência em massa ativada pelo 15M. O “tomar a rua”, de 2011, mudando para “tomar as suas instituições da cidade”. O dia a dia quase invisível de assembleias e redes de afetos, reivindicando o líquido, a política lateral, flexível. Uma política real. O espaço, o ingrediente territorial e hiperlocal estavam entrando no processo político de baixo-pra-cima, de fora-pra-dentro.

Os cinco princípios da confluência do Ganhemos funcionaram metaforicamente como as quatro liberdades do software livre9: um breve quadro ético para a construção de processos e práticas de partilha de códigos. Vale a pena ler com calma: 1) Princípio da confluência: não criar uma nova estrutura, mas sim promover a coordenação das existentes e trabalhando em conjunto. 2) Princípio da promoção: encorajar o desenvolvimento de ferramentas e oportunidades de cooperação no território em lugares onde eles não existem. 3) Princípio da sustentabilidade: pense mecanismos de participação para que eles sejam sustentáveis, não só para os pessoas ativistas, mas para o público em geral. 4) Princípio da inclusão: que as iniciativas lançadas sempre busquem a cidadania em geral, a sua participação, e não só a composição interna do movimento. 5) Princípio da co-organização: não compreender a cidadania como um espaço para a consulta ou validação, mas sim favorecer as ferramentas, que para aqueles que o desejem possam organizar-se, participar e tomar decisões vinculativas.

A onda Ganhemos cresceu rapidamente durante o verão de 2014. Multiplicava-se. Transformava-se. A lógica do software livre, os repositorios de códigos informáticos compartilhados e a cooperação em rede facilitaram a expansão. Guanyem Barcelona publicou uma “Guia útil para a criação de um Guanyem10. A inteligência coletiva e as necessidades locais de cada cidade foram reconfigurando a lógica de cada confluência. Ahora Madrid, por exemplo, aproveitaria o código fonte da plataforma digital de Zaragoza em Comum11, para desenvolver um programa de colaboração. “A implementação de mecanismos de participação cidadã é uma expropriação do poder pelos representantes, é um ato de des-representação”12alegou alguns dias antes da eleição Pablo Soto, gerente de participação digital e futuro vereador do Ahora Madrid.

Como foram evoluindo as confluências? A eficácia da aventura, como apontado no início de novembro de 2014 pela jornalista Olga Rodríguez13, participante do Madri Ganhemos, dependia de encontrar “espaços nos quais se englobem todos que sofrem de exclusão, para restaurar a democracia e valores tão simples como solidariedade”. Enquanto isso, Podemos – atacado pelos meios de comunicação de massa e vítima de manipulações constantes – resolvia a sua operação secreta “One Girl”: o plano era obter uma candidata mulher, independente e experiente para a confluência de Madri. Jesús Montero, secretário-geral do Podemos Madri, depois de várias recusas, convenceu a ex-juíza Manuela Carmena a se candidatar pelo Ahora Madrid. Já em campanha, Manuela repetia uma vez oy outra que “não tinha nada a ver com Podemos”. Sem essa distância, teria sido impossível o triunfo do Ahora Madrid.

Ninguém suspeitou que a mutação provocada pelas siglas municipalistas fosse tão vertiginosa. Em muitos casos, foi causado um problema pelo oportunismo de antigos partidos políticos, que se adiantaram à gestação dos Ganhemos para legalmente registraram a marca em toda a Espanha, contando para isso com a cumplicidade do Ministério do Interior. Em face dessa manobra, o Guanyem Barcelona teve de rebatizar-se para Barcelona en Comú (“Barcelona em Comum”, do catalão).

Na Galícia, as Mareas Atlánticas e Compostela Aberta se consolidaram. O mesmo aconteceu com Somos Oviedo, nas Astúrias. Por Cádiz si puedo, em Cádiz. O nome da confluência era o de menos. O espírito permeava centenas de candidatos com palavras como “ganhar”, “agora”, “mudança”, “ganhemos”, “nós” ou “comum”. Os formatos jurídicos utilizados, como explica14 o periodista Aitor Rivero, dependiam de cada cidade: a fórmula “grupo de eleitores” e “partido instrumental” foram as mais utilizadas.

Em 6 de março de 2015, foi lançado oficialmente Ahora Madrid, como um partido instrumental formado por essa confluência de movimentos cidadãos, associações e novos partidos (contando com o Podemos, o Equo e dissidentes da Izquierda Unida). Um verdadeiro pós-partido. Não havia orçamento. Faltava ainda fazer as eleições primárias, condição inegociável do Ganhemos Madri. Em 24 de março, foi realizada a coletiva de imprensa15 de apresentação da lista dos vencedores das primárias, encabeçada por Manuela Carmena. A ex-juíza era uma perfeita desconhecida. A essa altura, faltavam apenas 60 dias para as eleições e poucos pensaram que Ahora Madrid poderia conquistar a capital da Espanha.

Manuela, a musa

A menos de duas semanas das eleições, começou o transbordamento cidadão. O Movimento de Liberação Gráfica, em Barcelona e Madri, colocou os primeiros grãos de areia. A plataforma #MadriConManuela dinamizou a campanha com uma narrativa agregadora, emocional e contagiosa. Desmantelou-se o medo. Manuela Carmena se transformou numa musa pop e quebrou o bloqueio que a mídia havia tecido contra Ahora Madri. Manuela, a musa ilustrada16, entoava o periódico El País. E quando a mídia quis seguir com o personalismo pop da candidata, surgiu a hashtag e a narrativa #SomosManuela, que chegou a trending topic no Twitter por toda a terça-feira, 19 de março. Manuela Carmena se tornou uma máscara da multidão, uma candidata apropriável pela cidadania. #SomosManuela transbordou em toda parte. Com isso, se descentralizou a campanha. Contágio entusiasmado. Conquistou Madri. Toda a Espanha. Todos eram Manuela.

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A campanha oficial de Ahora Madrid já não definia o ritmo dos acontecimentos. Foi mais uma camada dentro de um conjunto polifônico de narrativas, estratégias e ações. A manifestação poética em 19 de maio, no Plaza de Tirso de Molina em Madri, serve como outra metáfora para o transbordamento: “Nem os responsáveis pela comunicação de Ahora Madrid refletiram o encontro. Nem os comentaristas e especialistas, com a praça de Tirso Molina lotada ouvindo poemas, sem discursos eleitorais, mas com conteúdo muito político”, disse Ruben Caravaca.

Felipe Gil e Francisco Jurado, em Desbordarse para ganar (Transbordar para ganhar)17, descrevem essa nova realidade que vai além das políticas dos ditos “spin doctors”, os consultores e gabinetes de partido. Seu texto fala de narrativas inclusivas e inacabadas. De protótipos abertos e identidades mutantes, que apontam para uma chave em todas as confluências políticas que emergiram e continuam emergindo: “deixar-se ser invadido e confiar em uma construção coletiva e descontrolada.” Mayo Fuster, pesquisadora em cultura colaborativa também enfatizou esse ponto. “Um conceito-chave é o de transbordamento (overflow), que se refere à capacidade de perder o controle sobre o processo e operar livremente no processo de mobilização”.18

A campanha cidadã para Manuela Carmena foi baseada em um sistema-rede de pessoas. Um ecossistema humano que se liga com a definição histórica de “autopoiesis” feita pelos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela, em 1972: o mecanismo que favorece que um sistema vivo se reproduza de forma auto-organizada. Da autopoiese das células para a autopoiese de uma cidadania indignada e auto organizada desde 2011. Da autopoiese dos nós do Ahora Madrid à mythopoesis19, o processo de criação coletiva mitos: a cidadania transformou Manuela Carmena em um desejo-corpo comum. “A campanha pró Manuela é uma história que não aceitou outro emitente que não os próprios cidadãos, e não poderia ter sido gerida por uma estrutura de uso”, diz Nacho Padilla, um dos fundadores da plataforma Madri com Manuela.

O que vem a seguir?

Um terremoto político. Para os partidos. Para o velho marketing. Para a esquerda tradicional. Um terremoto sistêmico. Também para os movimentos sociais. “Os movimentos sociais têm de ter a sua própria vida, a autonomia, deve ser massa crítica. Temos que acabar com a figura de associação amiga”, nas palavras de Rafael Pena, de Compostela Aberta.

E como é que o Podemos fica neste novo quadro político social? Uma confluência de diferentes forças políticas e sociais nas eleições gerais de novembro será possível? O sucesso dos laboratórios de confluência – onde Podemos é um motor importante – faz muitos sonharem com uma confluência nacional e cívica para a eleição geral do próximo mês de novembro. “Sim, nós podemos, mas não com o Podemos apenas”, escreve Isaac Rosa20. Alberto Garzón, candidato presidencial da Izquierda Unida (Esquerda Unitária), já defende publicamente o plano: “Nós não nos jogamos a próxima eleição, mas as próximas gerações.”21 Melhor Ganhemos que Podemos22 é um novo mantra coletiva. “O que foi jogado em Madri e Barcelona nas municipais/regionais tem uma conexão e correlação com as mudanças que vêm para ficar”, diz David Arenal, envolvido em 15M, Ganemos e Ahora Madrid.

Raúl Sánchez Cedillo, da Fundación de los Comunes, aponta Ahora Madrid como um modelo a seguir: “Há apenas um caso que ilustra este tipo de municipalismo soma mais do que Podemos, e é o Ahora Madrid. Uma experiência que sem o trabalho e determinação de Municipália primeiro e depois Ganemos Madri é inconcebível”. Barcelona em Comum obteve 25% dos votos na capital catalã, mas com Izquierda Unida (ICV) dentro da confluência. Os 32% dos votos obtidos pelos Ahora Madrid, sem o apoio oficial da Izquierda Unida e com menos tempo, abre horizontes de esperança.

Se o 15M inaugurou uma nova gramática social23, o resultado das eleições municipais espanholas criou um novo ecossistema político. Um ecossistema no qual coexistem diferentes formas vivas, interdependentes, mais líquidas do que definidas. Não da para falar de Podemos sem as confluências. Não dá para explicar Ahora Madrid sem Podemos. Em uma confluência nacional hipotética, o motor da mudança poderia ser Podemos. A forma e a narrativa seriam as confluências. Os nós cidadãos e os movimentos sociais seriam as células autopoiéticas para manter o novo ecossistema vivo.

Enquanto isso, Manuela Carmena, atual prefeita de Madri, confirma em cada gesto que outra forma de fazer política é possível. Viaja de metrô. Locomove-se de bicicleta. Não ataca os inimigos. Escuta. Um de seus tweets no dia da eleição, sem teorizar, resume a alma agregadora das novas confluências:

No tengáis miedo ni dejéis que os asusten. Ser felices es nuestra unica venganza. Participad y sigamos delante  #Eleccion2015 - Manuela Carmena (@ManuelaCarmena) Maio 24, 2015


Tradução: Laila Manuelle (GuerrilhaGRR)

1 O curso, com duração de cinco dias, foi lançado em 5 de junho de 2014. É possível ouvir as seis sessões em http://www.traficantes.net/nociones-comunes/asaltar-los-cielos-round-3

5 Burros, em inglês.

24http://www.eldiario.es/zonacritica/Perder-ganar_6_393420666.html