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Política

Crítica a certa crítica do amor

por Nuno Ramos de Almeida — publicado 31/07/2014 18h38
Seria a cama sem paixão uma liberdade? Ou uma espécie de continuação da ideologia do consumo noutros lençóis?
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Imagem: Gustav Klimt, O Beijo, 1908 (detalhe)

[Este é o blog do site Outras Palavras em CartaCapitalAquivocê vê o site completo]

Numa célebre passagem da sua obra, Jorge Luis Borges põe um narrador a conversar com um velho chinês. O idoso explica-lhe que uma infinidade de possibilidades coexistem num mesmo tempo, mas em mundos paralelos – como na parábola do gato de Schrödinger, fundadora da moderna física quântica, em que no momento em que abrimos uma caixa, com veneno e um gato, o felino está ao mesmo tempo morto e vivo. Diz o chinês da história de Borges: “Não existimos na maioria desses tempos; em alguns existe você e não eu; noutros eu e você não; noutros os dois. Neste que a sorte me permite, você chegou a minha casa; noutro, você está atravessar o meu jardim e encontra-me morto.”

Perdemos um ônibus por 30 segundos e encontramos alguém que de outra maneira teríamos falhado. O amor é um verdadeiro acaso. Escrevia Niklas Luhmann, “o amor não é apenas uma anomalia, mas antes uma improbabilidade absolutamente normal”. No processo amoroso, um encontro fortuito abre a possibilidade de criar um mundo, através da capacidade de ver a partir da diferença a dois. Segundo Badiou, ele não nos leva para “cima” nem para “baixo”, permite-nos construir um mundo de uma forma descentrada da visão, que ultrapassa o nosso simples interesse individual. Modifica o tempo e “inventa uma forma diferente de durar na vida”. É um duro desejo de durar, mas é sobretudo a assunção de um desejo de uma duração desconhecida.

A esta ideia de um amor que constrói a partir de um encontro fortuito uma verdade que dura no tempo, opõe-se a concepção de que o amor não passa de uma capa ideológica para a reprodução, em que a paixão não seria mais que a sua prisão.

“O amor é também um prazer”, assim começa Roger Vailland o seu Esboço para um retrato de um verdadeiro libertino. Nesta pequena obra, o escritor francês defende que o amor-prazer se opõe tão rigorosamente ao amor-paixão como a liberdade à escravatura. No amor-paixão os amantes aceitam passivamente “o curso inexorável” de um destino que não elegeram. Pelo contrário, o libertino escolhe o objeto do seu prazer.

O libertino não pretende apaixonar-se nem perder-se. Vê na paixão uma alienação que não lhe permite ser livre e controlar a sua vida. A sua verdadeira forma de comportamento está inscrita na frase do Divino Marquês num romance: “Ele pousou em mim o olhar frio do verdadeiro libertino.”

Nada é mais estranho ao espírito da libertinagem que a linguagem das afinidades eletivas de Goethe. A ideia da predestinação das almas gêmeas é totalmente repugnante para aquele que apenas a liberdade segue. A geometria variável da cama seria parte desse processo de libertação perante uma moral burguesa. Para Vailland, “a cama é para o amor-prazer o que o dinheiro é para o jogo. Foi precisa uma certa burguesia para imaginar o jogo a feijões e o amor sem ir para a cama”.

“Libertino” designava originalmente o filósofo ateu. A palavra foi passando a designar, pela lei da vida, aquele que escorraça Deus e a moral dos outros da sua cama. Resta saber se a alteração da moral dominante não torna o libertino vizinho do liberal. E a cama sem paixão uma espécie de continuação da ideologia do consumo noutros lençóis.

Esta escolha de relações “livres” encaixa bem numa sociedade que pretende os outros à distância em que o maior desejo é a segurança. Vivemos uma época divertida, em que nos apresentam como conquistas civilizacionais o café sem cafeína, o amor sem riscos e a política sem revolução. Uma campanha de um site de encontros francês proclamava com orgulho: “É possível ter paixão sem cair apaixonado.” E acrescentava: “Pode-se perfeitamente estar apaixonado sem sofrer.” Para resolver este embate, o site de encontros propunha uma espécie de “coaching do amor”, para menorizar este choque traumático que é um encontro com o outro.

À cruzada pela segurança das almas juntam-se os liberais; não há nada mais parecido com a doutrina do mercado capitalista que esta ideia das relações afetivas e sexuais como uma questão de gozo ligada a expectativas de consumo.

“Longe de ameaçar o presente regime de biopoder – para utilizar o conceito de Foucault –, a proliferação recente de várias práticas sexuais e identidades sexuais é a forma precisa que assume a sexualidade engendrada nas condições presentes do capitalismo mundial, que encoraja claramente uma subjectividade caracterizada por identificações múltiplas em permanente mudança”, defende Zizek.

Nada garante mais a manutenção de um poder despótico que perpetua a desigualdade que a proliferação de um conjunto de relações fluidas de trabalho, sociais e amorosas que nos tornem a todos elementos isolados num espaço em que não temos poder.

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Nuno Ramos de Almeida é jornalista português, editor-executivo do Jornal I (www.ionline.pt).

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