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Cultura

Carlitos: delicadezas de um pária rebelde

por Deni Rubbo — publicado 09/01/2015 21h12
Charlie Chaplin, que estreava no cinema há 101 anos, atiçou “sentimento mais revolucionário das massas”, ao golpear costumes aristocráticos e aliviar tristeza do mundo

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Difícil a missão de escrever algo minimamente atraente sobre um dos personagens mais antigos e apaixonantes do cinema mundial – e por isso, fartamente comentado e analisado: o famigerado Carlitos, personagem antológico de Charlie Chaplin.

De imediato, um elemento que desperta atenção é capacidade ímpar de atravessar tantas gerações e ainda ganhar o pódio da universalidade. Assim, existe uma construção secreta de identificação, um curioso enigma, com aquele baixinho e o público infantil e adulto. Mas essa universalidade de Carlitos merece uma explicação melhor. Como disse certa vez o jornalista peruano José Carlos Mariátegui, Chaplin tem o sufrágio da maioria e da minoria. Uma fama que é rigorosamente aristocrática e democrática.

Um fato, aliás, bastante estranho para os dias de hoje e para o tipo de cinema que é feito hoje; outros tempos, outros cinemas. Afinal, Carlitos se fez em meio a um cinema preto e branco e mudinho mudinho, embora nunca tenha transmitido tantas cores afetivas de ternura, delicadeza e nunca tenha falado tão docemente aos nossos ouvidos sobre coragem, utopias e sonhos. Foi aí, caro leitor, que nasceu a relação entre o maravilhoso e o cinema. Um cinema preto e branco colorido e um cinema mudo que fala. Chaplin, o fiador de Carlitos, fez do cinema um instrumento musical de imaginação e afinou com a fantasia. Uma recreação da realidade. Milagres da sétima arte.

Permeado tudo isso, Carlitos também foi um pária. Um desajustado na vida social. E não foi um pária qualquer, inconsciente. Foi uma pária rebelde, atrevido, desobediente. Segundo o belo livro de Eleni Varikas, A escória do mundo – figuras do pária, o personagem de Chaplin seria a expressão mais intensa da experiência marginal do pária à dignidade da experiência humana universal. De todos, ainda segundo a autora, Carlitos foi aquele que soube exprimir a crítica incisiva da situação desumana do pária, com a inventividade criadora de uma imaginação suprimida pelo que, na experiência do pária, existe apenas como esperança de uma outra existência. Ele sempre teve lado, sempre marcou posição.

E o fez principalmente através do riso, “o sentimento mais internacional e mais revolucionário das massas”, tal como defendia Walter Benjamin. Carlitos, por exemplo, não consegue seguir nenhuma das mil e uma cerimônias que os ambientes aristocráticos seguem a risca. Com sua sátira golpeava os costumes da aristocracia e com seu sorriso aliviava a tristeza do mundo.

Talvez seja um pouco exagerado, mas há também o elemento da presença visual de Carlitos. Enquanto ele não entra em cena (basta lembrar dos infinitos minutos de O Circoque antecedem sua primeira entrada), o público fica em estado de agitação, insaciável, ansioso, como no primeiro encontro, ou no primeiro beijo, apesar de tirarmos o chapéu e nos encantarmos com personagens que gravitam os filmes de Chaplin. Como esquecer e não lacrimejar com a atuação de Virginia Cherril, de Luzes da cidade, interpretando uma vendedora cega de flores? Como não sentir o cheiro que essas flores representam na história? Foi com ela, por exemplo, que descobri que o cinema pode ter cheiro.

Mas é só quando ele entra em cena que se estrutura o universo desencadeador do processo ímpar de comunicação. É como se o cafuné finalmente chegasse ao público, sem pressa e sem relógios. Não por acaso, o grande crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes já cantava a bola sobre isso: ou seja, o abismo que se estabelece entre imagens que poderiam ter sido criadas por qualquer outro e a eficácia fulgurante da presença visual de Chaplin. Diante dessa constatação aparentemente sem explicação, Paulo Emílio convenceu-se de que Chaplin não seria cinema: cinema é uma coisa e Chaplin outra.

Seja como for, Carlitos encarna com seu “bigodinho de trapézio e passo de ganso”, como costumava caracterizá-lo André Bazin, ainda hoje, ou melhor, mais do que nunca hoje, fragmentos insubmissos de um outro humanismo e o lampejo de uma utopia democrática e libertária. Esse pequeno personagem soprou como ninguém a poética da simplicidade e chamou vezes e vezes em seu mundo o comparecimento da rebeldia. Porque na família dos párias e dos românticos loucos e dissidentes ela jamais deve se ausentar.