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Política

Almoço da bancada ruralista tem ira de deputados e expulsão de repórteres

por Alceu Luís Castilho — publicado 07/12/2016 15h07
"De Olho nos Ruralistas" esteve na mansão em Brasília onde Frente Parlamentar da Agropecuária se reúne todas as terças

Uma mansão em estilo modernista sedia, todas as terças-feiras, um almoço promovido pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Não se trata de um segredo. Ele é divulgado nas redes sociais, com menções a órgãos de imprensa – o próprio De Olho nos Ruralistas já foi citado nesses posts – e a apresentação do que eles chamam de “cardápio do dia”: a CPI da Funai, por exemplo; ou a venda de terras para estrangeiros; as dívidas dos agricultores. E assim por diante.

Na terça-feira 29, o cardápio era a eleição para o próximo presidente da Câmara. A bancada ruralista sempre pensa alto. Em julho, quem esteve nesse almoço foi o presidente Michel Temer. Em agosto, o então ministro Moreira Franco, responsável pelas parcerias para investimentos. As autoridades federais participam de um almoço específico para parlamentares, enquanto a imprensa aguarda a saída de cada um, logo na primeira sala, para entrevistas.

Por ali passam prefeitos e lobistas. Logo na entrada, um quadro com texto do jornalista Reinaldo Azevedo, em defesa dos ruralistas. Ele diz que os ruralistas “apanham de todo mundo”: das esquerdas, dos índios, da imprensa. E se refere aos que se preocupam com o aquecimento global como “fanáticos”. Para Azevedo (e a FPA), o Brasil é um país onde “os que produzem riquezas são alvo da fúria dos que produzem discursos”.

Os parlamentares vão chegando, aos poucos, sorridentes. Logo vemos o ex-deputado Odacir Zonta (PSB-SC), chocado com a morte dos jogadores da Chapecoense. “É meu time”, lamenta o político da região, enquanto recebe os pêsames de algumas pessoas. “O time é patrocinado pela cooperativa de carnes Aurora”, observa. Zonta já presidiu a Frente Parlamentar do Cooperativismo e coordenou as propostas do setor para a candidatura presidencial de Eduardo Campos, em 2014. Ele entra na área reservada aos parlamentares.

Os jornalistas que frequentam o local são profissionais que cobrem com regularidade o setor agropecuário. Alguns vão lá toda semana. Outros são assessores dos parlamentares. As conversas dos que não são jornalistas giram em torno de dinheiro. Na fila para o almoço, um deles destaca as vantagens de investimentos tecnológicos na produção de soja. Outro explica por que não é vantajoso plantar grãos. “Abacaxi é muito melhor”, avalia.

O almoço tem salada (alface, tomate, pepino), costela de porco, uma carne assada, arroz, arroz com calabresa, feijão, tutu, milho, batata, mandioca. Sobremesa: doce de leite, mamão, manga, melão. E abacaxi. Suco de uva e suco de caju, em caixinha.

Mais um tempo de espera e começam a sair os deputados. Duas jornalistas de televisão entrevistam o deputado Alceu Moreira (PMDB-RS). Esperamos suas perguntas (sobre CPI da Funai, Cadastro Ambiental Rural) e fazemos as nossas. O deputado responde, mas vai ficando cada vez mais nervoso, diante de perguntas que o incomodam. Como esta: “Deputado, essa defesa do interesse nacional dos produtores não é contraditória com a defesa da venda de terras para estrangeiros?”

 

Moreira diz que o ministro do Meio Ambiente, Zequinha Sarney, “não manda nada” no governo. Após uma pergunta sobre as ONGs internacionais, criticadas de modo virulento pelo deputado (“As ONGs internacionais são bolivarianas?”), Moreira decide que não vai mais responder os questionamentos, que passa a definir como “provocação”. “O senhor não faz pergunta, faz provocação”. E vai embora.

Em seguida vem o chefe da assessoria de imprensa da FPA, jornalista Tito Matos. Pergunta de onde somos, mostro o crachá: “Alceu Castilho, editor – De Olho nos Ruralistas”. Continuamos conversando, cordialmente, enquanto o deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS) fala com os jornalistas de TV. Dirijo-me novamente à rodinha e, igualmente quando encerram as perguntas, faço as minhas.

Diante de uma pergunta sobre mudanças climáticas (estávamos lá justamente por causa de uma pauta com essa temática), Heinze joga a pasta e os papéis que segurava numa mesa ao lado, com força, e se dirige a mim, entusiasmado. Critica a legislação brasileira, diz que o observatório “representa ONGs internacionais” e conta que não acredita em aquecimento global. “Estou esperando que Donald Trump faça a parte dele, pois também é contrário”. E sai.

Olho para o cinegrafista e pensamos: vamos ou não embora? Mas decidimos esperar a saída do presidente da Frente Parlamentar, deputado Marcos Montes (PSD-MG). Ele estava na porta da outra sala – onde só os parlamentares têm acesso. Sou abordado por outro assessor de imprensa, Lucio Haeser, que se lembra de mim. Quando eu era repórter da revista IstoÉ Dinheiro, participamos de uma mesma viagem aos Estados Unidos.

Conversamos sobre amenidades, sobre aquela viagem. E sobre o nosso trabalho – o dele e o do De Olho nos Ruralistas. Explicamos que estamos à disposição para publicar as versões da FPA, sobre os temas abordados pelo observatório, caso vejam necessidade. Pois fazemos jornalismo. O clima, agora, é de absoluta cordialidade. Apresento o nosso coordenador de projetos, André Takahashi, que faz a função de cinegrafista e…

… eis que de repente levo um tranco. Um grandalhão pega no meu braço, me empurra em direção à porta e começa a bradar: “Saia desta casa agora!”

 

Ninguém reage. Nem os assessores de imprensa, nem os demais jornalistas. Apenas Takahashi, que tenta ligar a câmera e é impedido por um jovem de terno. O jovem tenta quebrar a lente da câmera e empurra o cinegrafista em direção à porta, enquanto o primeiro homem diz que aquela é sua casa e que não tínhamos sido convidados.

Pergunto seu nome. Ele não responde. Ele continua dizendo para que saiamos imediatamente. Diz que vai chamar a polícia. Eu pergunto: “Quem é o senhor?” E tento argumentar – em situação de coação – que aquilo é a reunião de uma Frente Parlamentar, pública. Digo ao assessor de imprensa que quero falar com o presidente, deputado Marcos Montes. Mas o dono da casa se mostra irredutível.

Sou acompanhado até a porta pelo assessor, Tito Matos. Pergunto por Haeser, mas não o vejo mais. E continuo dizendo que quero falar com Montes – até para perguntar se ele banca a atitude do grandalhão. O assessor do deputado deixa um cartão. Mas Montes diz que não adianta dar entrevista, pois iríamos “distorcer tudo”.

O homem que nos expulsou chama-se João Henrique Hummel. É diretor executivo da Frente Parlamentar da Agropecuária.

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