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Educação

A rara arte de Galeanear

por Deni Rubbo e Tiago Villa — publicado 15/04/2015 14h49, última modificação 20/04/2015 09h39
Escritor uruguaio influenciou gerações de jovens rebeldes e permanece atual. Ao contrário de tantos, ele soube articular grandes construções da utopia com lentas mudanças do cotidiano
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A literatura passou a ser um caldo mais grosso no seu coquetel, mas sem perder o caráter provocador, radical e subversivo à ordem estabelecida.

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O mundo ultimamente tornou-se estranho e desagradável. E isso parece materializado com o anúncio da morte do escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015). Foi de câncer, essa doença que nunca respeito mando de campo. Para nós, o impacto foi tão forte comparável à perda de um amigo ou um parente próximo. De repente o dia ficou pequenino, menos poético, mais conservador, menos delirante, mais injusto. E o transbordar da paixão que tanto Galeano frisava? Parece que no dia de sua partida, ele também fez as malas e sumiu do mundo feito um passarinho triste, desterrado de seu ninho. Tudo ficou acinzentado, normal demais, terrível demais.

Não temos a intenção de fazer um balanço de sua obra e a reconstrução de sua trajetória. Outras pessoas mais capazes certamente farão isso com mais precisão e rigor. Gostaríamos apenas de realizar modestamente um ligeiro depoimento sobre a relação amorosa que tivemos com os livros de Eduardo Galeano. Afinal, o exercício de recordar, do latim re-cordis, é tornar a passar pelo coração, como está na epígrafe de um de seus livros, O livro dos abraços.

Ler As veias abertas da América Latina durante a adolescência foi decisivo para tudo o que vem depois para estes garotos franzinos que, assim como Galeano, sonhavam desde pequenos em ser jogadores de futebol. Era a história da América Latina, a região das veias abertas, que era contada nesse livro. Mas era escrita de maneira peculiar, inimitável, como a história de um pirata ou uma canção de amor: delicada e cortante, como a vida. A narrativa parecia constituída de diversos gêneros: um coquetel explosivo de análise política e histórica, jornalismo, literatura e documentos. Um gol de placa.

Era um pouco demais para ele ser aplaudido pelos campos aprisionados do saber especializado ou pelo fanatismo político acorrentado pelas doutrinas asfixiantes. Aos primeiros, defensores de uma linguagem hermética, deu a seguinte resposta: “suspeito que o fastio serve para dizer a ordem estabelecida: confirma que o conhecimento é uma privilégio das elites”. Aos segundos disparou: “talvez essa literatura de paróquia esteja tão longe da revolução como a pornografia está longe do erotismo”.

A sensação de cada página, cada parágrafo, cada frase, cada palavra era deliciosamente desesperadora. Era como se descobríssemos que havia uma janela nunca aberta, e uma vez destravada, surgia uma paisagem e horizonte infinitos. Parecia que ele tinha nos bolsos as melhores palavras para se expressar com o mundo: denunciava o que doía e compartilhava o que dava alegria.

Fato é que um novo mundo se abria. Um continente se apresentava naquelas páginas com mil histórias e memórias, com mil dores e esperanças, com mil momentos e pessoas, aquelas entregues ao esquecimento de nosso continente. Era o ponto de vista dos vencidos, dos marginalizados, dos párias e tudo indicava que tinham muito que dizer. Galeano driblou a história dos vencedores. Um silêncio parecido com a estupidez tinha sido quebrado. Desde então, nunca mais fechamos essa janela.

Tempos depois fomos conhecendo outros livros de sua autoria, que carregavam a mesma verve narrativa: uma estranha acidez misturada com ternura. Parecia mais radical a sua linguagem. Ele optou em relatar a memória social latino-americana com histórias em pedacinhos. “Para que a gente escreve, se não é para juntar nossos pedacinhos? Desde que entramos na escola ou na igreja, a educação nos esquarteja: nos ensina a divorciar a alma do corpo e a razão do coração. Sábio doutores de Ética e Moral serão os pescadores das costas colombianas, que inventaram a palavra sentipensador para definir a linguagem que diz a verdade”.

A literatura passou a ser um caldo mais grosso no seu coquetel, mas sem perder o caráter provocador, radical e subversivo à ordem estabelecida. Contudo, ao contrário do que os mais apressados dizem, Galeano não renegou o conteúdo político d’As veias abertas, apenas seguiu o conselho dos sábios pescadores colombianos para uma forma que expressasse mais a convergência entre prosa e conto. Ele temia as formas de burocratização das palavras, do amor, da política, do futebol, muito embora As veias não sejam um livro burocrático.

Como um mendigo que implora apenas por gesto de rebeldia na sociedade contemporânea, prestou toda solidariedade aos movimentos que sonham e anunciam outra realidade possível. Galeano despertou o gatilho da imaginação e a vontade da transformação em muitos que o leram. Ele possuía uma doença rara: sofria de obsessão pela memória da América Latina. Assim como Walter Benjamin nas suas Teses sobre o conceito de história apostava que “o dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”.

Uma promissora hipótese para avançarmos na caracterização da obra do escritor uruguaio é o conceito de “romantismo revolucionário”, definido pelo sociólogo Michael Löwy. Segundo o sociólogo franco-brasileiro o romantismo é mais do uma escola literária, mas uma estrutura de sensibilidade que começa no século XVIII e perdura até os dias de hoje. Sua manifestação ecoa em todos os campos do saber: artes, literatura, política, sociologia. Trata-se de um grito “contra o advento da moderna civilização capitalista, uma revolta contra a irrupção da sociedade industrial/burguês fundamentada na racionalidade burocrática, na reificação mercantil, na quantificação da vida social e uma manifestação do ‘desencantamento do mundo’”. Ela pode assumir diversas tonalidades: regressivas e reacionárias, mas também utópicas e revolucionárias. No caso da obra de Galeano, parece mais adequado o romantismo revolucionário, já que seu legado pode dar nome à cultura política mais geral que costurou projetos e utopias de diferentes matrizes durante a história, ancorada numa visão de ruptura autêntica com a modernidade capitalista.

E agora, o que resta sem Galeano? Galeanar, pois. Continuar perseguindo obsessivamente o encontro com novas utopias. Galeanar as pequenas construções do cotidiano, galeanar os laços afetivos construídos ternamente com pessoas por uma mágica chamada de afinidade. Construir apaixonadamente caminhos abertos à esperança. Mas também indignar-se com um mundo que prometeu diuturnamente paz e justiça social e em nome da ganância e do livre mercado entregou-nos um mundo pior do que havia prometido.

É por essas e outras que, infelizmente, os livros de Galeano são atuais. Torcemos para que seu legado não se transforme em um mausoléu sagrado, mas que sua crítica profana à modernidade capitalista, sem deuses nem fetiches, se estenda as novas gerações como uma leitura estratégica imprescindível para enfrentar os novos demônios do século XXI. Vencidos da América Latina, galeanemos o mundo! Esta é a crônica do abraço. Do abraço à Eduardo Galeano.