Cultura

Cinema

Zweig com humor

por Orlando Margarido — publicado 06/02/2014 14h59, última modificação 06/02/2014 15h57
Mas nem o autor vienense muda a cara infantil do cinema de Wes Anderson. Por Orlando Margarido, de Berlim
Divulgação / Fox Searchlight
The Grand Budapest Hotel

Ralph Fiennes, Tilda Swinton, Tony Revolori e Paul Schlase em cena de "The Grand Budapest Hotel"

Berlim -- Talvez a maior, e única, surpresa deste início de Berlinale, além da temperatura nem tão baixa assim para fevereiro, é saber nos créditos finais que o novo filme de Wes Anderson, The Grand Budapest Hotel, é inspirado em escritos de Stephan Zweig. Surge na tela, inclusive, a data e local de nascimento e morte do autor vienense que, como se sabe, morreu em Petrópolis. Quais escritos são estes não se esclarece. Mas não pude deixar de pensar na coincidëncia da cidade fluminense ser a da nossa familia imperial, com seu palácios e prédios históricos. Será que Anderson sabe disso, ou detectou as referëncias nestes tais escritos? Porque seu filme tem essa ambiencia de riqueza e realeza moldada ainda em antigos preceitos e convenções aristocráticas que se pretende manter no limite de um mundo que começa a ruir. No caso, é a Segunda Guerra que vem se apresentar na trama central, relembrada por um dos personagens quando mais velho e no momento sob a égide do comunismo. Nesse sentido, sim, há a relação direta com o judeu Zweig, que se exilou no Brasil para fugir do nazismo.

Mas divago, porque o que Anderson faz é mais uma vez investir na fantasia um tanto infantilizada de seus filmes, como costuma ser. O cenário é o monumental hotel do título, local refinado no topo dos alpes onde se hospedam os ricos europeus. Quem cuida deles é o conciérge interpretado por Ralph Fiennes, que ao herdar uma pintura valiosa de uma de suas amantes quando esta morre, precisa escapar da perseguição do filho da milionária (Adrien Brody) e seu capanga (Willem Dafoe). Escolhe para seu companheiro de avetura um bell boy (Tony Revolori). O visual surreal e colorido se mantém, mas o elenco soma agora mais estrelas do que aquelas já frequentes em sua trupe, como Tilda Swinton e Bill Murray. São rápidas aparições, até mesmo pontas, de Jude Law, Harvey Keitel, Edward Norton, Saoirse Ronan, além das estrelas francesas Léa Seydoux e Mathieu Amalric, o que dá a dimensão do poder de mobilização de Anderson. Já disse que não sou fã de seu cinema, mas aqui ao menos ele nos trouxe algo mais para pensar sobre a decadência de civilizações, vá lá, que ao final sabemos não ser uma reflexão dele.