Cultura

Berlinale

Wagner e a sutileza

por Orlando Margarido — publicado 12/02/2014 17h46, última modificação 12/02/2014 22h40
O ator elabora temas como o abandono e a identidade no contrapé do apelo gay de Praia do Futuro
Wagner Moura

Wagner Moura em cena de "Praia do Futuro"

Berlim -- Um encontro com Wagner Moura sempre rende ótimo papo. Não faz tanto tempo escrevi um perfil dele para CartaCapital cobrindo sua carreira. Wagner é conhecido pela inteligência, pelas opiniões e posturas determinadas sobre muitos assuntos, mas claro que circunda mais o próprio universo artístico. Fiz questão de falar com ele mais uma vez por aqui, depois de um encontro na Berlinale ha´alguns anos quando veio para apresentar Tropa de Elite 2. Desta vez ele está mais relaxado e tranquilo para falar do seu personagem em Praia do Futuro. Com o Capitão Nascimento do primeiro Tropa foi só porrada, diz ele, se referindo ao questionamento da imprensa, que enxergou o filme como reacionário. Mas José Padilha levou o Urso de Ouro e Wagner saiu celebrado, no mesmo tanto que as novelas costumam tornar um ator estrela no Brasil. O papel era de um tipo durão e de postura moral questionável.

Agora ele volta a Berlinale como um salva-vidas que aposta num relacionamento com um alemão em férias no Brasil e vai viver com ele na Alemanha. Deixa o irmão caçula, uma mãe que não vemos, e tudo o mais para trás. Donato, o personagem, não é aquele homossexual que faz de sua orientação uma bandeira de conquista e nem reflete sobre a condição. Apenas segue o desejo de estar com o parceiro. Logo no início há o sexo mais violento, rude, depois se torna mais carinhoso, ainda que forte. Karim Ainouz quer falar disso, de desejo entre pessoas, não importa o gênero.

Wagner se incomoda com a perspectiva inicial que o filme tomou a partir da estréia mundial ontem. Um filme gay, com nu frontal masculino, mais raro ainda por envolver um grande nome do cinema. Ele abre a conversa dizendo esperar que a imprensa tenha a sensibilidade de não tornar o filme um evento em torno da homossexualidade, do sexo entre dois homens, banalizando-o. Não será fácil, e desde a coletiva de imprensa Karim já expôs a mesma intenção. Se o público não enxergar assim, estará se fechando as muitas outras condições, além da sexual, elaboradas no filme.

Wagner acha que seria a mesma pena se fossem um homem e uma mulher em cena. Primeiro, há a perda, e serão muitos os sentidos dela durante o filme. Donato tira do mar Konrad, mas não consegue salvar o amigo deste. O alemão, sensibilizado e sob o impacto da morte, cobra do homem cearense de intuição mais prática da vida um gesto de emoção, de raiva, e Wagner lembra que havia esta cena. Donato explodia em revolta pelo fracasso ao perder uma vida. Karim preferiu deixa-lo apenas no sofrimento interiorizado. Tudo, assim, será enxuto na trajetória de Donato, em oposição ao parceiro, que chora, se emociona.

Wagner acha curioso o contraponto. O homem nordestino, e Wagner é baiano, deveria reagir de forma emotiva, no sentido latino que conhecemos, ao contrário do que se espera da postura germânica, contida. Nem mesmo no conflito mais difícil que se seguirá Donato sai dos eixos. Anos depois, crescido, o irmão mais novo, e é um ótimo Jesuíta Barbosa que o interpreta, vem cobrar dele o abandono. Sua primeira atitude é partir para cima de Donato, socá-lo. Este mal se defende, espera a raiva se dissipar e lhe oferece um café. Será sempre assim, quase sem falar, com mínimos gestos, aponta Wagner, que seu personagem enfrentará as demandas e cobranças da vida.

A um certo momento são tantas as questões que se impõem, como a da identidade, de alguém que se sente melhor acolhido num país que não é o seu, que o contexto gay se dissipa. Pergunto o que me parece óbvio, mas relevante, se Wagner acredita ter o filme um partido pessoal de Karim, do filho de argelinos nascido em Fortaleza que há muito mora em Berlim. Ele sacode as mãos num gesto de 'claro'. O diretor lhe deu de certa maneira um papel de afinidades pessoais também.

Wagner é pai de tres garotos e costuma honrar os ensinamentos do seu pai em entrevistas, e a figura paterna no filme, embora de universo muito masculino, não existe. Também uma opção de Karim de não explicar outro abandono. Mas para não deixar seu protagonista sempre a deriva, voltado para si, dá a ele a palavra final, num belo texto que une as pontas desses destinos também marcados pela origem geográfica, a praia.

O ator quer que o espectador chegue até ali desnudado das convenções e rótulos. Aqui na Berlinale isso ainda não se deu. A receptividade foi moderada e as críticas dão conta de dificuldades com a narrativa, em especial entre os americanos, pouco afeitos a um registro lacunar, aberto. Nas cotações de revistas especializadas com rankings diários, o filme não está entre os primeiros lugares.

Por ironia, é o alemão Os Caminhos da Cruz que lidera o ranking, sobre o radicalismo religioso, no caso católico, que faz por liquidar uma garota. Isso não quer dizer muita coisa para um júri dos mais peculiares este ano, liderado por um produtor (de Ang Lee, inclusive, e seu Brokeback Mountain), e de uma das seleções mais fracas das edições que acompanhei até hoje. Praia não é apenas superior por isso. Tem qualidade, estatura, e principalmente, na definição direta de Wagner, tesão.