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Cultura

71° Festival de Veneza

Veneza e a vingança de início

por Orlando Margarido — publicado 27/08/2014 12h54
Com o Brasil e toda América Latina de fora, mostra começa com violência gráfica, crise de ator e ditadura

Começou a nova edição do festival de cinema mais antigo do mundo. È a de número 71, e Veneza só parou durante a Segunda Guerra. De lá para cá fez história com grandes realizadores, da Itália claro, mas também de outros países, incluindo o Brasil. Muita coisa mudou desde então, e sabemos que não só no cinema. Mas é este que nos interessa aqui. Nos últimos anos, a mostra teve altos e baixos, mais baixos talvez. Houve uma troca de guarda, e Marco Muller substituiu Alberto Barbera quando Berlusconi assumiu o poder e preferiu pessoas de idéias mais próximas, o que por fim foi dar na direção de Veneza. Muller, um assumido entusiasta do cinema asiático, inundou o Lido com esta cinematografia de excessos e gosto pela violência gráfica, deixando do fora outras produções de origem importante. Isso sem falar na baixissima qualidade do cinema comercial italiano. Há dois anos Barbera reassumiu o cargo e não se pode dizer que não tenha melhorado o nível da curadoria. Foram-se os chineses e coreanos como maioria, por exemplo, e o equilíbrio foi retomado, com os bons diretores de nova geração da casa e um olhar mais amplo e democrático ao mundo. Há deslizes? Claro, e o mais grave deles é o total desprezo pelo cinema latino americano. Não há nenhum título em longa metragem do território na seções competitivas e paralelas oficiais. Do Brasil, que já foi mais contemplado na outra passagem de Barbera, a lembrar Abril Despedaçado, comparece apenas o curta Castillo y El Armado, de Pedro Harres. Vale entender disso que com Berlim mais aberto a cinematografia latina e com posição de vantagem no início do calendário anual, as melhores produções são escoadas para lá. Ou, como demonstrou Barbera em uma entrevista para mim antes de reassumir o posto, a qualidade de nosso cinema não seria apreciável por aqui. Bem, exemplos não faltam de uma avaliação equivocada para tantos outros cinemas nos dois últimos anos de competição.

O fato é que temos uma nova edição e se por enquanto não se pode apontar má vontade, pelo contrário, pode se aferir uma estimulante coincidência de ponto de partida entre filmes. Ontem, em dia que antecede a abertura oficial com pequena programação, abrimos os trabalhos com... Kim Ki-duk! Falei que os asiáticos diminuiram sua delegação, mas o sulcoreano é queridinho da casa. Saiu com o Leão de Ouro há dois anos com Pietá. No filme ele reafirmava a guinada de seu cinema em direçao a uma visão bem menos poética do mundo, marcada pela crueldade e violência. Lembram se do agiota que punia seus devedores com tortura e lhes arrancava um membro do corpo conforme a dívida? Fichinha perto das sessões a que um pai de uma jovem assassinada submete seus algozes para faze-los se arrepender. A vingança, portanto, como fonte de revolta e violência. O líder conduz uma espécie de falsa esquadra de policiais, que a certo momento se revoltam eles mesmos com tanto horror. Até onde se pode ir em nome de uma tragédia sofrida? Não é apenas de vingança e honra que quer falar Kim Ki duk. Ele também contextualiza a divisão de uma nação, quando contrapõe os seus compatriotas, os que vingam, aos norte coreanos, os acusados. Mas tanto quanto a violencia estampada de modo reiterado, esta noção política também se mostra a certo tempo inócua. Sobra um filme excesssivo, repetitivo, e que pode até levar aquele riso involuntário de certo cinema asiático ligado as máfias.

Não se trata tanto de uma vingança assumida, mas de uma tentativa de se fazer respeitar e ser valorizado, que comanda o personagem de Michael Keaton em Birdman, o primeiro filme da competição que vimos esta manhã. È do mexicano Alejandro Gonzalez Iñarritu, que quatro anos depois de Biutiful volta com uma produção americana ambiciosa. Tal ambição se nota principalmente no elenco de nomes ainda como Edward Norton, Naomi Watts e Emma Stone, numa produção de técnica complexa e filmagem em cenários como a Times Square e Broadway. Mas isto não faz do filme um produto comercial de cara. A opção do diretor é por um retrato mais intimista do ator em crise (Keaton) e dos colegas em torno dele para representar uma peça de Raymond Carver. Keaton, numa alusão divertida a sua própria carreira como Batman e comédias romântica, é uma estrela de um papel popular, o tal super herói Birdman do título, vestido em ridículo traje de um pássaro. Com o espetáculo ele busca ser reconhecido como intérprete sério, e não mera celebridade, como lhe joga na cara uma crítica teatral. Enquanto devaneia em solilóquios com o seu antigo personagem, tem que se haver com um ator mais jovem ególatra (Norton), a atual namorada e a filha a quem nunca deu atenção. O ponto de partida é notável, as consequências também, sempre vistas do ângulo de uma câmera com planos sequência surpreendentes, mas a horas tantas o drama patina, perde o encanto e não encontra seu final a altura. Não é um início ruim de festival, mas um pouco mais de poda faria bem ao filme.

Apesar de duração semelhante, de quase duras horas, não senti isso em The Presidente, o filme de Mohsen Makhmalbaf que abriu a seção Horizonte logo em seguida. Não sei o que virá ainda por aí, mas acho que filme poderia figurar na competição, e não deve estar porque o diretor iraniano assume um certo pendor ao primarismo, a noção mais básica de representação de um tema já muito tocado, mas sempre presente, o que é inegável. No início, a visão de um ditador em trajes militares “de um país qualquer”, expressão já por si temerária, sentado ao lado do neto pequeno na janela de seu palácio me provocou desalento. Que fiasco se um sensível cineasta como Makhmalbaf embarcar nesse cliche político! O The President, então, pega do telefone e ensina ao menino como ordenar que se apaguem as luzes da capital, e depois as faça acender de novo. Num desses blackouts a luz não volta mais. É o início da revolta da população, da luta armada. Outro tipo de vingança, afinal. A família do ditador foge, mas ele decide ficar e uma série de eventos se precipitam para que com o neto acabe por seguir para o interior disfarçado de músico. Testemunhará os horrores a que levou sua nação, e não faltará a turba que quer sua cabeça, mas sem saber se isso resolverá alguma coisa. Há passagens fortes, bonitas mesmo como a da bebida que passa de mão em mão juntando prisioneiros e o ditador, este que leva nas costas um ferido etc. O filme cresce nessa essência da representação, e por pouco não sucumbe a um pieguismo, a um melodrama político. Talento para evitar o mais prosaico o iraniano tem, e seu filme merece um olhar paciente para encontrar as qualidades.

Por último, um registro a bela cópia restaurada de Maciste Alpino que inaugurou a nova sala Darsena, na verdade uma revitalização que pôs tudo em ordem som, projeção, cadeiras, onde afinal passamos boa parte de nossas horas por aqui. Não passou despercebido ao presidente da Bienal, Paolo Baratta, que na última hierarquia comanda a mostra, e a Barbera, que tenha sido escolhido um filme mudo de 1916 para provar os ajustes da nova sala. Talvez por isso antes tenham feito ouvir um clipe musical com efeitos sonoros e em seguida uma banda de jazz atacou de acordes para acompanhar o filme produzido por Giovanni Pastrone, o mesmo de Cabíria. Um desafio e tanto para a época, na história de um personagem popular a época, o grandalhão Maciste, que se junta as forças austríacas para derrotar o nascente nazismo.