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Um dia de morte

por Orlando Margarido — publicado 02/02/2014 18h41, última modificação 02/02/2014 20h14
Eduardo Coutinho e Philip Seymour Hoffman: Perdas lamentáveis para o cinema, aqui e lá

A essa altura vocês já devem saber: morreu nosso maior documentarista, Eduardo Coutinho. A perda não é menos dolorosa, mas também se foi o ator Philip Seymour Hoffman. As notícias dão conta de possível overdose no caso deste. Mas vamos esperar pelas averiguações. No caso de Coutinho, a tragédia já parece estar esclarecida. Foi morto a facadas e o suspeito é seu filho, ao que tudo indica com problemas mentais, e que está internado depois de ser operado. Teria tentado se matar a facadas. A mulher de Coutinho também foi atacada e está em estado grave.

Lamentável para um realizador que aos 80 anos vivia uma fase muito produtiva. Ele que redefiniu nossa veia documental com Cabra Marcado para Morrer e ainda era original o suficiente para produzir um longa como Um Dia na Vida, o último trabalho dele a que assisti, em sessão lotada na última Mostra de Cinema de São Paulo. No ano anterior ele fez a estréia do filme, que de tão procurado não consegui lugar. Coutinho filmou durante um dia inteiro a programação dos canais abertos de TV. Postos numa montagem com seu olhar tão atento os programas se tornam absurdos, quase surreais. Parece simples, e assim era o seu cinema.

Somente ele sabia arrancar depoimentos impactantes e emocionantes de seus entrevistados. Lembram do aposentado que dizia ter conhecido Frank Sinatra e cantava My Way para a câmera? Inesquecível. Em todo projeto, Coutinho se renovava e nos impressionava, como em Jogo de Cena, uma nova virada.Ainda sob o impacto de sua morte, fica difícil fazer a homenagem que merece. Amanhã sigo a Berlim e vou rabiscar algo no caminho que faça jus ao talento.

Quanto a Hoffman, não vou esconder que tinha pouca simpatia por seus trabalhos, algo um tanto gratuito, mas o loiro gordinho, de jeito boa praça, estava amadurecendo na carreira e fez bons trabalhos recentes, como em The Master. Também se mostrou talentoso diretor e pelo que sei preparava novo filme. Hollywood por vezes me parece uma máquina angustiante e enlouquecedora, e nem sempre todos aguentam. Teria sido esta a situação de Hoffman? Ou um mero vacilo? Domingo de cão este.