Cultura

Festival Olhar de Cinema

Um breve balanço

por Orlando Margarido — publicado 08/06/2014 17h11
Uma programação estimulante com uma premiação coerente

Uma premiação não é o ângulo maior pelo qual de deva analisar todo um festival. Mas deve ser levada em conta, e muito, como o ponto final de uma proposta que começa lá na decisão de um conceito, uma direção temática, evolui para a curadoria e por fim uma programação que exponha tudo isso ao público. Nesse sentido o Olhar de Cinema me pareceu uma das iniciativas mais bem estruturadas e azeitadas no calendário nacional. E a cereja do bolo, enfim, os prêmios da terceira edição, esses me deixaram bastante satisfeito, embora não possa opinar sobre todos eles, como o da seleção Novos Olhares, pois pouco acompanhei dos filmes das paralelas. Mas da competitiva de longas-metragens concordo com as escolhas, e na verdade também não ficaria desapontado entre algumas das opções que permaneceram de fora.

Achei o júri coerente em pinçar dois concorrentes que trabalham na fonte documental para expandi-la em diferentes camadas, a memorialistica, de diário em tom natural mas também cínico de E Agora? Lembra-me, e de gênero, no caso ficção científica, em Branco Sai Preto Fica, o bem-humorado e bem sacado filme do brasiliense radicado (já que não deve haver Ceilandês!) Adirley Queiróz. Um dos novos talentos a se consolidar com um cinema de idéias e irreverente, Adirley desenvolve seus filmes a partir da Ceilândia para refletir sobre esse desastrado projeto do governo local (a Campanha de Erradicação das Invasões, CEI, daí a denominação) na virada dos anos 60 para os 70, que visava remover morades de barracos do entorno de Brasilia.

Sobre o projeto e seus efeitos danosos a esses marginalizados, mais de 70 mil pessoas na época, o diretor fez o documentário com viés ficcional A Cidade É uma Só, título irônico a tudo que a periferia e a capital não são. Agora ele brinca para falar a sério com um futuro distópico onde os moradores da cidade-satélite enfrentam  uma espécie de grande irmão do plano piloto e precisam de um passaporte para adentrar a Brasília. Criativo e inteligente, como deverá ser o novo projeto de Adirley, desta vez um faroeste na empoeirada Ceilândia. Em sintonia com esse novo cinema fora do eixo mais tradicional de Rio e São Paulo está A Vizinhança do Tigre, de Afonso Uchôa, outro trabalho estimulante que já comentei quando exibido no Festival de Tiradentes, e lembrado pelos meus colegas da Abraccine. Por fim, um comentário ao interessante Sheep, ou Mouton no francês que é a origem do filme, que havia visto na Mostra de São Paulo. Um filme estranho, na acepção mais positiva, com um protagonista desarticulado numa vila litorânea também de personagens desajustados, para dizer o mínimo. São títulos que nem sempre tem espaço no circuito e que o Olhar de Cinema vem tornando mais acessível ao público local, mas igualmente mostrando ao País ser possível abrir caminho para novas linguagens cinematográficas.