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Cultura

Festival de Cannes

Sexualidade e vocação, por Kechiche

por Orlando Margarido — publicado 23/05/2013 12h44, última modificação 23/05/2013 14h14
La Vie d'Adèle é o rito de conhecimento de uma adolescente, na cama e nas palavras
Divulgação
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La Vie d'Adèle, de Abdellatif Kechiche

Cannes -- Havia a expectativa que o filme de Abdellatif Kechiche se fizesse apenas na polêmica desde que se soube ser protagonizado por lésbicas e ter cenas de sexo quentes. Bem, La Vie d'Adèle tem esses quesitos, mas não só eles, e nem pode ser taxado de polemico  logo de cara, como ficou claro na coletiva de imprensa, em que a conversa pouco ressaltou a performance das meninas, Isso porque Kechiche faz um filme bonito, elegante e carinhoso com suas personagens. Como em filmes anteriores, Venus Noire e O Segredo do Grão, há longos diálogos e discussões, além de uma camera que se comporta como voyeur, perseguindo cada centímetro do rosto e corpo dos atores.

Em Venus, o diretor ia ao limite para incomodar o espectador com o sofrimento da protagonista. Agora, ao contrário, é o prazer e a beleza que o interessam, duas qualidades a que se prestam as personagens de Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos. Esta traz seu próprio nome como a estudante que seguirá sua vocação para professora de crianças enquanto experimenta seus primeiros passos na sexualidade. Fica com o rapaz mais bonito da escola mas a transa nao a completa. Quando conhece a liberal Emma, se dá conta que se interessa mais por meninas, e é iniciada numa experiência sexual mais intensa.

A cena das duas na cama é explícita e sofisticada, mas não importa saber o quanto é real. Kechiche se preocupa em colocar no mesmo plano de importância essa descoberta mas também a de um aprendizado intellectual. Enfim, a formação completa que requer a idade para se chegar a vida adulta plena.Adèle começa o filme lendo Marivaux, La Vie de Marianne, um romance inacabado. A relação com Emma dura, as duas vivem juntas, mas se separam. Voltam por vezes aos garotos, mas não é a saída. Também não há um fim para esse caminho de Adèle. No filme se discute tudo, literature, pintura, sexo e amor. É uma obra sobretudo a respeito de vocação, seja ela a de uma prática na vida, mas também da identidade, sexual inclusive. Kechiche nos dá tempo para refletir sobre tudo isso nas tres horas de filme, um recurso raro no cinema atual. Difícil talvez seja encontrar paciência no publico, mas ao menos aqui em Cannes a proposta foi entendida e aplaudida. Se o júri não encontrar sintonia com o belo filme de Kechiche, não pode esquecer das protagonistas, ambas maravilhosas, e quem sabe daí venha um prêmio duplo.

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