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Que grande bellezza!

por Orlando Margarido — publicado 21/05/2013 12h38, última modificação 21/05/2013 13h07
Novo filme de Paolo Sorrentino mantém narrativa entre o humor patético e cínico. Por Orlando Margarido, de Cannes, França
Divulgação
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A doce vida contemporânea de Paolo Sorrentino

Cannes – Gostei muito, e posso dizer por muitos colegas brasileiros que gostamos muito, do novo Paolo Sorrentino, La Grande Bellezza. Sorrentino faz sua Dolce Vita contemporânea com tudo o que a Roma, a Itália, atual tem de cafona, decadente, superficial e devedora de uma alta cultura do passado. Sendo assim, poderia se chamar L’Amara Vita, ainda que não seja um filme de tom amargo, apenas desiludido, melancólico. Claro, há Roma de Fellini também, assim como o Ettore Scola de La Terrazza, O Terraço, filiações que o próprio diretor assume na entrevista para o material de imprensa. E por que Scola? O protagonista Jep Gamberdella, assim como o Marcello de Fellini, é um jornalista bon vivant e mundano, que circula pelas altas rodas e dá festas de arromba em seu apartamento de frente ao Coliseu. Ali também, num grande terraço, acontecem as reuniões com amigos em que se trata com superficialidade os temas do momento. Jep acaba de fazer 65 anos, portanto mais velho que seu colega de A Doce Vida. Tem mais motivos para se desiludir, com a crise pessoal e profissional. Escreveu um livro de sucesso décadas atrás e não consegue concentrar-se para outro. É interpretado pelo grande Toni Servillo, o ator constante de Sorrentino, seu Il Divo no filme sobre Andreotti, o controverso político italiano que morreu faz pouco. Mais um bela interpretação masculina no festival.


Sorrentino mantém sua narrativa entre o humor patético e cínico, entre rápidos cortes e cenas alongadas propositadamente para dar conta da solidão do protagonista, seu envolvimento rápido com belas e jovens mulheres, suas lembrança da adolescência e o primeiro amor a beira mar. Numa Roma quase sempre noturna e vazia, Jep caminha a esmo e encontra uma Fanny Ardant, ela mesma, loira. Seria sua Anita Ekberg? É uma homenagem do diretor as suas preferências no cinema, a essa cidade eterna, mas também painel para suas críticas, a gastronomia e a vacuidade das artes plásticas sem valor que tomaram conta das atenções. A epígrafe que Sorrentino escolheu é a abertura de Céline para seu Viagem ao Fim da Noite, que dá conta da fragilidade humana, da solidão, da falta de perspectiva. Uma santa, freira que se tornou adorada, apontará um caminho a Jep. O desencanto ao final se preenche com algum encanto. Espero que o júri tenha a sensibilidade que o filme merece.

O castelo de meu pai

Talvez pelo tema do passado, da memória, da dissipação, ou só por ter sua trama em parte no mesmo país, a seleção tenha programado no mesmo dia Un Château en Italie. O filme de direção da atriz Valeria Bruni Tedeschi tem alguma relação com sua própria história. Valeria é irmã por parte de mãe da ex-primeira dama francesa Carla Bruni, a senhora Sarkozy. São filhas de um rico industrial turinese e quando se vai a um museu em Turim seu nome é constantemente citado entre os patronos. Cresceram longe do pai, mais próximo da mãe, uma pianista. As aproximações terminam aí. A própria Valeria faz a ex-atriz, no sentido de ter feito apenas um trabalho e largado a profissão. Enquanto debate com a mãe e o irmão soropositivo o que vender do castelo da família, se não mesmo o castelo, para pagar dívidas, encontra Nathan, o personagem de Louis Garrel, com quem Valeria é casada na vida real. Nathan também é um ator que quer abandonar o meio. O romance é atribulado. O estado do irmão piora e é necessário vender um quadro valioso de Brueghel. Nessa toada entre a leveza e um auto sarcasmo, o filme segue apenas encantando, uma simpatia que Valeria criou em seu longa anterior, Atrizes. Não surpreende mas também não decepciona. Para a competição, é preciso mais que isso.

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