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Cultura

CineOP

Quarteto de Ouro (Preto)

por Orlando Margarido — publicado 15/06/2013 13h06, última modificação 15/06/2013 14h37
Capô, Nelson Pereira, Francisco Ramalho Jr e Walter Lima Jr debatem a censura de filmes no CineOP
Leo Lara/Universo Produção
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Maurice Capovilla, Nelson Pereira dos Santos, Francisco Ramalho Jr e Walter Lima Jr. Foto: Leo Lara/Universo Produção

De Ouro Preto -- Cá estou desde quinta-feira na cidade histórica mineira para acompanhar o CineOP. É a oitava edição do evento, mas minha primeira vez por aqui. As organizadoras, as irmãs Hallak, Raquel e Fernanda, são as mesmas da Mostra Tiradentes e CineBH. Se em Tiradentes temos a novíssima produção brasileira, coube a Ouro Preto refletir sobre a memória e a preservação do cinema nacional. É a tônica das mesas de debates e seminários. Mas vê-se filmes também e aí está um dos maiores interesses da agenda. Muitas vezes são cópias restauradas. Este ano o tema da ditadura e seus efeitos deletérios no nosso cinema marca presença.

E o que vimos no primeiro dia de encontros? Uma mesa de convidados que talvez seja difícil repetir em outra ocasião. Espécie de anfitrião, por ser o homenageado da vez, o cineasta Walter Lima Jr. contou no palco e depois no debate com os colegas Maurice Capovilla, Nelson Pereira dos Santos e Francisco Ramalho Jr. Ou seja, um quinhão razoável e importante do Cinema Novo sincronizados no mesmo interesse de relembrar seus filmes censurados.

Nelson, com sua disposição invejável para os 80 anos e grande conversador, lembrou especialmente de El Justiceiro, que sera exibido hoje. Mas arrancou risadas da platéia ao contar piada já recorrente sobre a atuação dos censores em Rio 40 Graus. Ficou famosa a passagem em que um desses burocratas atentava que jamais até então se alcançou a marca dos 40 graus no Rio de Janeiro, "no máximo 39,6 graus", e que portanto o filme era mentiroso já no título. Sendo o cineasta comunista, não haveria outra saída senão interditar o filme, que ficou na gaveta realmente por dois anos.

Ouvir essas histórias é tão bom quanto conhecer ou rever filmes como Brasil Ano 2000, uma alegoria audaciosa de Walter Lima em pleno 68, devedora em grande parte do cinema de Glauber, de quem o diretor era parceiro e amigo. É a irmã de Glauber, Anecy Rocha, que protagoniza a história sobre família, ela, o irmão e a mãe, rumo ao norte do País, num percurso que inclui um general delirante disposto a lançar um foguete, hábil metáfora da loucura reinante naquele momento.

É o cinema oposto o que propõe o filme de Ramalho, Anuska, Manequim e Mulher, de mesmo ano e objetivo e contexto crítico semelhante do período. Se em Lima era o universo simbólico do campo e das cidades decadentes, agora temos a metrópole consumada do progresso e das ofertas de sobrevivência, o que faz por reunir o jornalista da Última Hora de Francisco Cuoco, no dilema de migrar para a publicidade e ganhar dinheiro, e seu amor por uma candidata a modelo, papel da bela Marilia Branco.

É o tipico homem partido em dois, que pouco ou nada se dá conta da situação política a sua volta, exceto pelo que nos informam manchetes de jornais, entre a paixão pela nova mulher, independente e desinteressada em ser sustentada por um marido, e a vocação frustrada de escritor. O retrato de uma época tambem se dá nos créditos.

O filme é baseado em livro de Ignácio de Loyola Brandão e tem participação no elenco de Luis Sergio Person, que pouco antes havia feito o seu retrato do homem asfixiado pela metrópole e tocada pela paixão em São Paulo S/A. Enfim, exibidos em sintonia, esses filmes se prestam a uma revisao também de um interesse coletivo, no mais muito característico de grupos como o Cinema Novo. Volto para falar da velhas e boas novidades daqui. Até!