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Cultura

Os primeiros da competição

por Orlando Margarido — publicado 17/05/2013 14h03
Divulgação
Filme 02

Le Passé: o novo e bom drama do diretor de A Separação

Cannes – Antes de dar o saldo dos primeiros dias de competição, vou direto ao ponto. Acabo de ver o novo filme de Asghar Farhadi, Le Passé, ou o passado. Havia expectativa, claro, ao que se seguiria a A Separação, embora o iraniano já tivesse dado provas anteriores de sua habilidade, como em Procurando Elly. Ainda mais que Farhadi faz agora uma produção mais ambiciosa com a França e volta a circundar uma separação, já dado como fato no início da história. Há o ex-marido, um iraniano (Ali Mosaffa) que retorna a Paris para consumar o divórcio de Marie. Ela é interpretada por ninguém menos que Bérénice Bejo, a estrela de O Artista. Marie já tem um novo companheiro (Tahar Rahim) e vive com ele, o filho deste, e com suas duas filhas de um casamento anterior. A mais velha, uma adolescente, não aceita os constantes relacionamentos da mãe e cria problemas com o novo padrasto. Deste parte o drama que será o pivô de toda a narrativa. Sua mulher está em coma depois de tentar o suicídio. A dúvida e o conflito que se segue diz respeito ao motivo, talvez por estar depressiva, ou uma discussão com uma cliente, ou ainda por saber da traição. A chegada do ex também parece ocultar outras intenções. Farhadi encena esse embate quase todo o tempo numa casa da periferia parisiense. Procura apontar por aí também tratar-se de uma situação das diferença sociais e de nacionalidade implicadas no caso. Será importante o papel de uma imigrante ilegal que trabalha na lavanderia do personagem de Rahim. Vocês vão lembrar do ator de O Profeta. É um elenco poderoso e que faz igualmente o valor do filme, assim como as crianças. Mas me parece que a força do filme está em desdobrar revelações sem mergulhar num acerto de contas apelativo. Sim, é um melodrama no fundo, mas com bem elaborada argumentação. Filme adulto, ou ao menos, no que apresenta como adultos personagens que são a todo momento confrontados pelos mais jovens.

Gostei, embora para quem prefira esse tipo de comparação, é um trabalho inferior a Separação no que concerne ao impacto dramático. Por outro lado, me parece um filme até mais maduro. É o tom geral até agora. Pode-se dizer que a competição começou bem, ao menos com uma proposta nada facilitadora por parte da seleção. Talvez tenha sido esta a razão de abrir com Heli, o concorrente mexicano.

O diretor Amat Escalante já havia mostrado anteriormente que busca tudo menos uma noção idílica de seu país, em filmes como Bastardos. Heli oferece logo de cara seu cartão de visitas. Um homem é levado inconsciente e amarrado numa caminhonete até uma passarela que atravessa uma rodovia. Seus algozes sobem com o corpo e ali o enforcam, deixando-o exposto o resultado. A história então corre em flashback para o personagem do título, jovem que mora com a família num casebre de uma região erma do México. Trabalha numa fábrica montadora de carros e tem um filho recém-nascido. Sua irmã adolescente namora um cabo do exército. Quando Heli descobre pacotes de cocaína escondida por ela em casa, o cartel das drogas vem cobrar-lhe com todo o empenho imaginado.

Escalante é seco e econômico, tão árido como o deserto onde filma, nessa amostragem da dureza da vida naquele pedaço esquecido do país. Mas não economiza na potência das cenas violentas de tortura, com lances como o uso muito inspirado do fogo. Retrato que não pretende apenas apelar aos sentimentos de repulsa do espectador, mas crítico também de um comportamento social, de um contexto muito católico que condena o aborto e manda para prisão adolescentes que engravidam fora do casamento. Lembrei muito do cinema de outro mexicano sempre impactante, Carlos Reygadas, mas pelos filmes deste de representação violenta e social, como se dá aqui. E eis que ao final vem o nome de Reygadas como produtor associado. Não deve
ser casual.

O vazio?

Também não é casual o tema que François Ozon explora em seu Jeune & Jolie, jovem e bonita, e que eu adicionaria sexy na acepção de jolie. Ozon é gay assumido, e talvez por isso trabalhe como poucos o retrato da mulher no cinema, com sofisticação e um interesse quase carnal. Não as inveja, as admira isso sim. Mas seu ponto de vista nunca é ameno sobre elas, a ver os personagens femininos de Dentro da Casa, ainda em cartaz no Brasil, embora o protagonista seja um rapaz adolescente. É uma idade que o diretor já filmou anteriormente. Sua jovem e bela do título, cuja matriz é eternamente A Bela da Tarde de Buñuel e com Catherine Deneuve, agora é Isabelle. Aos 17 anos, ela tem sua primeira relação sexual naquele verão, não lá muito romântica, e na volta a Paris passa a se prostituir. Temos a impressão de que antes cumpriu apenas uma etapa para então chegar ao desejo
de se entregar por dinheiro, ou ainda que este apenas faz parte do negócio.

Ozon deixa os motivos de Léa, seu nome profissional, em suspenso. Dá ao espectador um universo ainda mais intrigante, a vida de estudante de classe média da garota, a mãe e o padrasto que lhe cobrem com a habitual atenção, o relacionamento próximo do irmão mais novo, que não deixa de ter suas fantasias com ela. Nada desse estranho encanto seria possível sem a ótima atuação e bela presença de Marine Vacth, atriz em seu terceiro longa e provável futura estrela. Colegas me falaram de Scarlett Johansson e Julia Roberts como referência, mas eu prefiro aproxima-la da compatriota Emmanuelle Béart em sua primeira juventude.

Abro parênteses para incluir um comentário do novo filme de Sofia Coppola, The Bling Ring, que abriu ontem a paralela Certain Regard (Um Certo Olhar). Ela também filma a adolescência, mas a que está preocupada com outro tipo de infracção social. Os adolescentes de Sofia roubam casas de celebridades em Los Angeles para ter acesso ao luxo das grifes que gente como Paris Hilton e Lindsay Lohan adquire a granel. Sim, as vítimas são reveladas porque a história é real. A diretora partiu de uma reportagem da Vanity Fair. Três ou quatro garotas e um rapaz ainda menores de idade expunham tudo o que amealhavam nas redes sociais, e com a colaboração de denúncias anônimas, acabaram sendo detidos. O fato vem bem a calhar para esse momento de discussão da maioridade penal no Brasil. Mas claro que aqui o universo é outro. A turma de LA é da classe média, mas não tem o dinheiro suficiente para tudo que querem. Muito mais fácil entender o porquê do seu ato, se comparado com a Isabelle-Léa de Ozon. São criados num vazio de valores. Saí me perguntando se também o filme, com a repetição dos fatos apenas, não se deixa ficar um tanto no vazio, embora seja esse o tema preferido da filha de Francis Ford Coppola, o vazio na vida contemporânea em Encontros e Desencontros, na monarquia francesa em Maria Antonieta e da fama de Hollywood em Em Algum Lugar.

Jia, o candidato

E já faria meu primeiro prognóstico para uma disputa considerável, se não pela Palma, ao menos para um prêmio relevante. Surgiu com o filme de Jia Zhang-ke, o cultuado chinês que todo cinéfilo acompanha sempre com atenção. Pois Jia se remodela. Esqueça a poderosa mas por vezes sutil critica a China e os estragos do capitalismo por lá visto nos trabalhos anteriores, porque em *A Touch of Sin *o retrato é cresce na ferocidade e violência. Resultado de sua associação a produtora de Takeshi Kitano? Jia disse na coletiva há pouco que nem precisava disso para mostrar o grau de violência a que chegaram as relações em seu país. Bastava atentar ao noticiário. As histórias que mostra em episódios partem dos jornais. Na primeira, um trabalhador tenta denunciar a corrupção de um líder local e ao ser duramente reprimido pega seu fuzil e vai fazer justiça pelas próprias mãos.

Há uma cena simbólica para tudo que se seguirá. Um cavalo de trabalho é punido pelo dono por se recusar a seguir. Acaba morto, o dono, e o animal segue livre. Os animais são os homens, reflete o justiceiro. Em outras histórias, um chinês migrante que vai ao limite para sobreviver, uma amante confrontada pela mulher de seu parceiro e um garoto que não suporta a pressão social e de trabalho. Jia explica que utilizou a noção dos filmes de arte marcial para compor este quadro da China que perdeu o senso de
humanidade. E isto por vezes ganha dimensões um tanto surreais, fantásticas mesmo, que talvez perturbem seu espectador mais habitual. Mas por isso mesmo, igualmente, o filme renova de forma original um cinema que já era bom. Tenho entrevista confirmada com ele e trago mais novidade. Até!

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