Cultura

Festival Olhar de Cinema

Olhares sombrios

por Orlando Margarido — publicado 04/06/2014 17h02
A seleção curitibana está chegando ao fim com uma visão de mundo nada animadora

Daqui a pouco assisto ao último filme da competição deste ótimo festival que é o Olhar de Cinema. Me refiro a uma curadoria apurada, que vai buscar nos festivais internacionais como Roterdã, Berlim, Locarno e Veneza títulos que talvez nos passassem despercebidos. Falo de qualidade, porque a temática nos deixou por aqui surpresos. O cinema, claro, não é apenas vitrine de boas emoções e sentimentos, e também deve fazer refletir. Mas a julgar pela escolha dos curadores o mundo segue ladeira abaixo! Para sintetizar, foi uma paulada só o que vimos nesses sete dias. Nem um veio de sol, de esperança, coube nos retratos de guerra, miséria, perversões, violência da qual nem adolescentes escapam. Enfim, não é dificil nos informarmos de que tudo segue assim, e o cinema apenas é um veículo de representação. Há muitos exemplos, mas não me sai da cabeça o ucraniano The Green Jacket, o casaco verde, e sua incômoda cena final, que vi ontem.

Uma garota sai com o irmão caçula para um passeio como desculpa para flertar. O menino, vestido com a tal peça de roupa, desaparece. A polícia é chamada mas surge tão improvável como a família da menina. Os pais, separados, brigam pela responsabilidade do acontecido. Enquanto isso, com sentimento de culpa que só se reafirma, a irmã julga ter reconhecido um homem que os olhava no parque. Passa a persegui-lo, e a sua filha colega de escola. Vai ao limite, as últimas consequências. A Ucrânia, como se sabe, vive o conflito atual de identidade, do pertencimento ou nao a Russia, e isto está no filme, no bullying perpetrado por uma gangue do colégio, como se a juventude emulasse o ódio dos adultos, torna-se intrínseco. Mas é também país destroçado pela guerra,e atitudes de corrupção surgem dúbias, mas explicadas. O diretor Volodymyr Tykhy, em sua estréia na ficção,me parece fazer bom par, em termos de análise social, com Sergei Loznitsa, mas em contexto urbano. Vai mais ou menos nesta toada os demais filmes, que depois relato aqui. agora sigo a sessão de O Sequestro de Michel Houellebecq, um título irônico para um documentário com humor, me asseguram. Ufa, enfim um respiro. Até.

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