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Cultura

O holandês manipulador

por Orlando Margarido — publicado 20/05/2013 10h11, última modificação 20/05/2013 10h47
Alberto Pizzoli / AFP
Hadewych Minis e Alex van Warmerdam

A atriz Hadewych Minis e o diretor de "Borgman", Alex van Warmerdam, chegam para a exibição do filme, em Cannes

Cannes – Borgman, do holandês Alex van Warmerdam, é filme para passar por uma segunda apreciação fora do esquema massacrante de um festival, especialmente este. Fiquei pensando se embarquei na proposta do diretor por ver algo mais na sua fábula contemporânea ou se apenas me senti estimulado por uma narrativa menos convencional do que vi até agora, na maior parte, dos filmes da competição. Um mendigo, o Borgman do título, chega a casa de uma família rica e impõe sua presença. Antes, na abertura, vemos que ele e alguns amigos moram  escondidos em buracos na floresta e são perseguidos. Borgman não diz a que vem, mas a dona da casa o acolhe a revelia do marido.

Aos poucos estranhas relações se instalam e o que parece levar a uma eclosão de violência também não se conclui ali de imediato. Primeiro ocorre com personagens secundários, fora da casa, e depois retorna a ela. Há as crianças, os filhos do casal, que são, digamos, convertidas pelos estranhos. É um truque, reconheça-se, barato no cinema, o de fazer o espectador ficar em suspense pela revelação que tudo explica. Bem, ela não vem, ao menos como esperado. Do que nos fala Warmerdam? Uma seita, ou uma nova sociedade querendo se instalar, ou já instalada? São algumas interpretações. Mas há um vazio ao final, no que aproxima o filme de trabalhos como o de Sofia Coppola, que também não deixa de se referir a uma seita, a dos jovens consumistas de grifes. É inevitável aproximar Borgman do Funny Games, os jogos violentos de Haneke. Mas lá era o mal pelo mal de jovens amorais, e aqui a tentativa é de uma crítica aos valores vigentes da socieadade atual, facilitador para incluir aí questões como o preconceito e racismo.

A platéia de jornalistas saiu dividida, num conceito radical de ame-o ou deixe-o, e isto está representado nas grades de votação que revistas como a Screen e a Les Filmes Français mantêm diariamente em suas edições locais. A representação é internacional  e as opiniões variam. Por enquanto, a melhor colocação é do filme dos irmãos Coen, Inside Llewyn, o que de certa forma prova uma guinada para narrativas mais quadradas, ainda que o longa tenha suas qualidades. Na sequência está Jia Zhang-ke. Mas temos muito pela frente, nem chegamos a metade da competição ainda. Daqui a pouco, o filme da atriz Valerie Bruni-Tedeschi, que já nos deu como diretora seu bonito Atrizes. Vamos ver o que fez a mme. Louis Garrel.