Cultura

O fim melancólico

por — publicado 06/09/2013 14h23
Fellini, por Scola, salva um último dia da competição desanimador

Não foi apenas o cansaço que levou a mim e aos outros colegas brasileiros aqui em Veneza a lona. Estamos, sim, derrubados com a maratona do festival, no mais comum a esses eventos exigentes, mas pouco ajudou o último título da competiçâo visto hoje de manhã. O filme argelino Es-stouh, ou Les Terrasses em francês, pode ser definido pelo mesmo sentido que usa a capital Algers, cidade linda de longe, mas desencantada por dentro. Melhor seria dizer destroçada, moral e socialmente. O diretor Merzak Allouache centra seu drama em terraços dos prèdios residenciais de vários bairros, alguns inclusive habitados por moradores sem recursos. Há a família que definha pela droga e falta de dinheiro, outra muçulmana aparentemente radical que mantém o patriarca rebelde preso numa casinha improvisada, os amigos que ensaiam numa banda de rock independente, o mafioso que tortura sua vítima, e por aí vai. É um retrato duro no conceito, mas que se revela um tanto maniqueísta, irregular na apreensão de uma cidade, que como tantas outras, perdeu seus valores humanos, sua ética, enfim, tornou se um inferno para se viver. A situação lembra algo não? Mas não é o bastante para valer um bom filme. Não chega a ser ruim, mas cansamos um pouco aqui do nível mediano para baixo desta seleção. Veneza começou noir, violenta, perversa, e assim termina. Não se pode acusar uma falta de conceito da curadoria. O problema é que conceito foi esse.

Assim seria uma injustiça contrapor toda a programação desanimadora a jóia que veio depois do argelino. Me refiro ao documentário de Ettore Scola sobre Fellini, Che Strano Chiarmarsi Federico, Scola racconta Fellini. Que Estranho Chamar se Fellini diz respeito a uma crônica do homenageado sobre si próprio. Depois, é Scola que determina esse álbum de imagens, frases, piadas, situações nunca vistas, como ele mesmo definiu na coletiva de imprensa. Os dois foram amigos desde que Scola chegou no semanário satirico Marc'Aurelio, no final dos anos 40, onde Fellini já trabalha desde 1939. Dali, onde desenhavam e escreviam as tiras de humor, foram para o cinema, como roteiristas de colegas e diretores que transformaram a cinematografia mundial. Nunca abandonaram a amizade. O filme é emocionante, apesar de Scola ter dito, entre a ironia e a verdade, de que não tinha a intençao de fazer ninguém chorar. Mas foi o que aconteceu ao pequeno publico que foi assistir a sessão neste momento final do festival quando muitos já abandonaram o Lido, pois também as estrelas se foram... Perderam o gran finale, como se diz, com situações autoreferentes de humor, nunca antes vista, como a de Fellini fazendo testes com os grandes atores da Itália, como Sordi, Tognazzi e Gassman para seu Casanova, mas já sabendo que este caberia a Mastroianni, único a quem não exigiu um teste, que depois foi ser o Casanova de Scola. Este recria hábitos de Fellini, como andar de carro por Roma, tomado de insônia, junto com o amigo para conhecer e fazer amizade com figuras que, claro, viriam a ser representadas nos seus filmes. E as gafes. No intervalo da cena mais famosa de La Dolce Vita, com Anita Ekberg se banhando na Fontana di Trevi, alguém traz até Fellini o militar que deu autorização para a filmagem no local. Ao estender a mão ao convidado, o diretor ouve deste: "estou muito honrado em apertar a mão do famoso Roberto Rossellini". Precisa dizer algo mais das similaridades que temos entre Brasil e Itália? Certo, Fellini foi muito italiano, mas tambem muito universal. É por isso também que o documentário toca e tocará a todos. Esperemos que a Mostra de São Paulo nos brinde, a mim de novo, com essa preciosidade.