Cultura

2ª Mostra de Gostoso

Cinema pé na areia

por Orlando Margarido — publicado 14/11/2014 18h11, última modificação 25/11/2014 16h18
Na abertura, festival apresenta o cangaço operístico de Alceu Valença e um marco histórico polêmico
Reprodução
A enorme tela na areia da praia recebe a população do vilarejo

A enorme tela na areia da praia recebe a população do vilarejo

Cá estou novamente no paraíso potiguar que, além de ser ponto internacional de esportes náuticos, se torna uma semana por ano o cenário mais bonito entre os festivais para ver cinema. É a segunda edição da Mostra de Gostoso, ou São Miguel do Gostoso, próximo de Natal, onde Eugênio Puppo instala uma enorme tela na areia da praia para a produção brasileira.

E dá para se concentrar no filme sob um céu de estrelas e de fundo o ruído do mar? Ontem comentávamos com alguns jornalistas que também estão por aqui o inusitado da situação e como se pode eventualmente perder o foco, escapar, por assim dizer, do filme. Mas faz parte do programa, assim como o vento forte que nunca cessa e costuma balançar a tela, um pouco só, mas o suficiente para um efeito curioso. E há a participação popular, um público quase todo formado por moradores do vilarejo, acomodado em cadeiras improvisadas, e que ao final dá seu voto para o filme preferido. Este é, aliás, a única premiação do evento.

Há outra iniciativa que mobiliza a comunidade, também idealizada por Puppo e sua equipe. Durante todo o ano, jovens da região são treinados em uma oficina para ao final apresentarem um curta-metragem. Como no ano passado, o filme abriu a primeira noite da mostra. O documentário trata do marco histórico localizado em Gostoso. Uma tendência de historiadores reconhece o monumento como a descoberta do Brasil. Além disso, o marco alimenta crenças religiosas.

Em seguida, o primeiro longa. Já havia visto A Luneta do Tempo em Gramado e acabei por rever para confirmar a interessante investida de Alceu Valença, sim, o músico, no tema do cangaço. O universo desses bandidos, para lembrar a expressão de Eric Hobsbawn para os fora-da-lei, tornou-se um gênero do cinema brasileiro e parecia não ter muito mais a apresentar de novo. Valença, com um ótimo time de atores liderado por Irandhir Santos como Lampião e Hermila Guedes sua Maria Bonita, vai ao registro operístico e da fantasia para cravar sua ação por vezes realista, por vezes onírica.

Existe a violência mas também o lirismo, uma nostalgia tanto do mundo ordenado e libertário dos cangaceiros, como da arte popular representada pelo circo e pelo cordel. E, claro, há muita música. São dois os tempos da história, os anos 30 do próprio cangaço, e numa geração seguinte, uma trama de vingança vinda de uma morte do passado. Alceu, como se sabe pela sua carreira, é um artista que admira o Brasil e sua cultura e fez um filme repleto de brasilidade. Essa noção ressurge no bom documentário sobre Dominguinhos que dá seqüência hoje ao festival, assim como no mundo de lendas de Rio Cigano, outra das atrações. Já no final da noite, o ótimo documentário do anfitrião, Sem Pena, sobre a injustiça carcerária no Brasil.

Assista aos trailers a seguir: