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Cultura

65 Festival de Berlim

Larraín e a visão deletéria da Igreja

por Orlando Margarido — publicado 09/02/2015 16h47, última modificação 15/05/2015 17h22
Mais um chileno que não poupa seu país de uma inquirição dura e sombria
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Larraín e a exumação da Igreja
El Club
65 Festival de Berlim
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Chegamos na metade da competição e a expectativa aumentou no primeiro filme da manhã. Ontem foi Patricio Guzmán e seu retrato de dois momentos funestos da história chilena que se interligam por um capricho do destino, irônico e triste. O genocídio dos indígenas por europeus eco na matança de militantes políticos pelos militares de Pinochet. Hoje foi a vez da Igreja, que se é do Chile por algumas circunstâncias locais, representa na verdade toda a decadência pela qual passa a instituição no mundo. Pablo Larraín vem da ótima trilogia que repassa os anos políticos de repressão em diferentes vertentes. Não que ele tenha deixado o tema, e ele perpassa o drama de El Club, apresentado hoje na competição. Mas como disse o ator fetiche do diretor, Alfredo Castro, durante a coletiva, é inacreditável que a Igreja que teve papel preponderante na salvaguarda dos direitos humanos naquele período tenha se tornado isso que se testemunha hoje. Fala do Chile, mas sabemos como vale por aí. Num vilarejo litorâneo, padres e uma freira vivem cerceados numa casa disponibilizada pela Igreja. São mantidos ali por crimes que o afastaram dos serviços eclesiásticos. Pedofilia, corrupção, roubo...

Pecado é pouco para enquadrar o que já fizeram. Ou fazem, Um dos curas, justamente o papel de Castro, mantém um galgo, um cachorro de corrida que treina para participar de competições e com isso o grupo faz algum dinheiro. Certo dia um jovem da comunidade vem gritar impropérios a porta contra um dos religiosos que o seviciou e molestou sexualmente na infância. O culpado não suporta e se mata. Chega um padre psicólogo para apurar o que se passa nessa estranha casa. Monta-se então um huis clos, um jogo dramático sombrio que expõe a personalidade doentia dos envolvidos. O filme é sombrio, até na fotografia, e não menos que provocador e incômodo. Estranhamente, também, há passagens que detonou um riso um tanto nervoso nos jornalistas durante a sessão. Larraín não imagina com o que pudessem rir, disse na entrevista, e lembrou as reações diversas que Post Mortem, um dos títulos da trilogia, teve nos países onde foi exibido. Se tanto há um humor negro gerado na condição absurda, no sentido do surreal, a que estão presos os religiosos. A impertinência de Larraín pode lhe custar um descrédito do júri, mas ninguém consegue ficar alheio ao que se discute ali. Em especial os países católicos, e o filme deve falar alto no Brasil. Um trabalho desde já marcante dessa Berlinale.

Nem tanto, ou bem menos, é o segundo e último competidor da casa. Já comentei que não gosto nada de Victoria, com sua única tomada a fazer valer a técnica mais do que a história, ou melhor roteiro, do qual esqueceram. Andreas Dresen é realizador respeitado por aqui e parecia instigar mais os jornalistas locais. As We Were Dreaming é apenas uma bem contada narrativa de jovens amigos, mais novos que os protagonistas de Victoria, que crescem juntos e na Alemanha oriental quando esta já se uniu a outro e buscam uma vida de provocações, com pequenos delitos, drogas e brigas entre gangues. O epicentro são Rico e Daniel, o primeiro boxeador e o mais desajustado da turma, em oposição ao outro, um pouco mais centrado mas também perdido em seus objetivos. Seguem as tentativas do bando em se impor com poder onde vivem, um tanto no caminho de Godfellas de Scorsese, como lembrou hoje Luis Carlos Merten depois do filme. Me parece que pode dizer mais aos alemães como uma revisão de um periodo de renovação, readaptação. A nós surge mais como retrato de uma geração, sem muitas cores.   CartaCapital