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Cultura

Cinema e memória

Falando de Tiradentes...

por Orlando Margarido — publicado 28/03/2014 21h24
O que perdi de bom, ou nem tão bom, e a perda de Ricardo Miranda

Estava para escrever meu primeiro balanço da Mostra Tiradentes, em sua extensão a São Paulo,quando soube da morte de Ricardo Miranda. Um choque pela perda em si, mas também porque quando temos uma situação de convívio próxima no tempo, como foi o caso em Tiradentes, no final de janeiro, vem a ideia da fragilidade de nossa permanência por aqui. Sem pieguismo ou apelos religiosos, já que não professo nenhuma religião. Apenas que Ricardo era tão afável e aberto a uma boa conversa que tange o absurdo não poder mais esperá-lo no próximo domingo, quando viria ao CineSesc exibir seu (agora) último filme, Paixão e Virtude, e debater a criação cinematográfica. Não havia visto o filme na mostra mineira porque cheguei com alguns dias de atraso, e Ricardo gentilmente me conseguiu um dvd. Minha intenção era juntar a discussão ao filme e soltar algo por aqui. Tarde demais. Mas a essa altura vocês já devem estar se perguntando quem foi esse Miranda? Quem acompanha o cinema, digamos, mais ao alternativo, para usar dessas expressões cada vez mais insuficientes, sabe da marca que este diretor e montador deixou em filmes de Glauber Rocha, Saraceni e Walter Carvalho. Nos últimos tempos, seu múltiplo talento serviu aos filmes na direção de Helena Ignez, se não me engano no som. E esses realizadores recorriam a ele não propriamente pela habilidade técnica, ou apenas ela, mas porque também Ricardo era um pensador, um cultor do cinema mais radical e autoral, que se fazia muitas vezes de imagens que dispensavam, ou desestabilizavam, as palavras. Paixão e Virtude confronta justamente essas duas vertentes ao expor que a primeira pode e deve prescindir da segunda, mas lançando mão dela quando necessário para dar noção de sua fugacidade. É o segundo filme de Miranda baseado na obra de Flaubert. O primeiro, Djalioh, também foi exibido em Tiradentes, e em ambos há a questão do amor, do desejo, no limite. Não é a história que se conta o essencial, e ela existe na atração de uma mulher por outro que não o marido e a morte como possível saída, mas o poder dessa mulher pela imagem, me pareceu. A primeira cena é do órgão sexual feminino, num plano longo. Não sei porquê, ao conhecer esse cinema de Miranda, depois de alguns documentários dele distantes na minha memória, tive a lembrança do cinema do casal Straub e Danielle Huillet, no modo como as imagens são escolhidas, representadas, e numa pesquisa rápida vejo que o realizador os tinha em grande conta, para ver e rever. Hoje também Carlos Alberto Mattos posta essa preferência de Miranda. Enfim, se quiserem tirar a prova, Paixão e Virtude será exibido, às 17h do domingo, no CineSesc.

E o que a seleção paulista de Tiradentes trouxe de bom? Talvez o melhor do que se viu por lá em janeiro, mas não necessariamente o que gostei. Começou, na abertura, com o vencedor A Vizinhança do Tigre, este sim visto na "sede", e um bom exercício de tudo que se prega naquela vitrine de um cinema mais ousado, que busca borrar as fronteiras de ficção e realidade, ao trazer o cotidiano de dois amigos num bairro periférico de Belo Horizonte. Queria, no entanto, correr atrás do que perdi, devido a minha partida também antes do encerramento. Da seleção aqui, apenas Amador me chegou antes da exibição por conta do perfil que preparei a Carta Capital da última edição de Cristiano Burlan. O filme é uma espécie de rito de passagem do diretor que não gosta de se ver assim, que sabe de onde vem, mas não para onde vai depois do seu ótimo documentário Mataram Meu Irmão. Neste, vocês se lembram, ele procura retomar e dar um rosto a tragédia do assassinato do irmão no bairro do Capão Redondo, onde sua família morou. Agora, ele continua a perseguir um rosto, uma imagem de um rosto que lhe seja representativo, na pele de um alter ego, o diretor em crise Henrique. É possível amar com a existência da dor? É o que conjuga a idéia do título, Ama e dor. Me pareceu um projeto de proposição também ao espectador, que este, nós, faça parte dessa procura por um caminho de realização. Nem sempre Burlan consegue expor isso com efetividade, algumas vezes se perde, tergiversa, mas com o erro, claro, busca.

Uma das propostas de Tiradentes é apontar essas buscas pela nova criação e representação cinematográfica por variados estilos. O de Aly Muritiba não propõe a pesquisa na tela, ou seja, no filme como objeto de pesquisa de si mesmo, mas parte dela com um universo definido. E este é o da prisão, do sistema onde ele trabalhou como agente penitenciário e ao qual volta com um olhar de novo ângulo daquele de quem acompanhou a rotina desesperadora da cadeia. Seu dispositivo é o de abrir a câmera sem intervir, como no curta O Pátio, onde como num quadro acompanhamos os sons e as conversas dos detentos. Há muito mais mobilidade, por uma questão de exigência da proposta, em A Gente, outro duplo sentido entre títulos da mostra, longa-metragem documental do cotidiano de um funcionário modelo na atividade de assegurar a paz na cadeia. E já se pode imaginar que paz é quase uma utopia ali, uma casa de detenção no Paraná, terra de Muritiba. O filme abre com a escalação no posto de chefia de um desses agentes. Ele substitui um colega, que se pode imaginar, enfrentou alguma crise interna e não deu conta do pepino segundo seus superiores. O mesmo se dará com o atual protagonista. Entre um ponto e outro, o diretor nos revela os meandros e trâmites da rotina carcerária, os acordos e equilíbrios a se fazer não só com os presos, mas também com os colegas de vigilância. Mas talvez o mais revelador esteja fora dos muros, na vida familiar deste homem que procura o diálogo e a correção ética como armas, em casa carinhoso e atento a mulher e aos filhos, também um exemplo na comunidade como pastor na igreja evangélica, que toca buscando novos adeptos. Outra prisão? parece nos questionar a câmera. O filme é forte, mais pelo que sugere de aproximação entre dentro e fora da cadeia, do que de exposição desta, no tanto de informação que já recebemos pelo noticiário. Mas Muritiba fez questão de lembrar antes da exibição na última terça-feira que naquele momento uma greve de agentes, seus ex-colegas, mal era noticiada pela mídia. A mesma que registrou, nem sempre imparcial, as recentes manifestações nas ruas, tema do curta Brasil que Muritiba também exibiu em Tiradentes. Dois irmãos, um policial e outro mais jovem participante dos protestos, se apoiam em casa mas se contrapõem na rua. O diretor é dos que preferem a imagem forte, mesmo que seja o óbvio que outros não querem ouvir.

Por fim, quem sabe pela exigência de seu painel, Tiradentes propôs também o humor com Aliança, o filme mineiro de Gabriel Martins, João Toledo e Leonardo Amaral, eles mesmos no elenco de frente. Não só um filme de amigos, que chamam os amigos dos amigos para uma participaçãoi, críticos de cinema ou colegas do fazer cinematográfico, mas uma homenagem as referências pop e, claro, do cinema que mais gostam. Simpático, em sua representação de estereótipos de três amigos, o tipo grunge, metaleiro, outro o judeu com sua visão disciplinada e composta do mundo, e por fim o arrumadinho, recém-promovido e determinado a se casar com a mulher que o trai. As vocações todas convergem, por fim, a uma boa bebedeira para esquecer as frustrações. Boas sacadas aqui e ali, outros exageros acolá, para um projeto sem grandes ambições, que poderia ter sido um pouquinho mais burilado.

Amanhã a programação traz um filme que estou curiosissimo para ver, Pingo d´Água, o fecho do paraibano Taciano Valério para sua trilogia em preto-e-branco, depois de Onde Borges Tudo Vê e Ferrolho. Ambos com meu querido ator Everaldo Pontes. Não sei ao certo se ele está no novo filme (no início da tarde ele debate com colegas de profissão), mas sabemos que Jean-Claude Bernardet sim. O crítico, que agora prefere se ver e ser visto como ator. Depois volto com as impressões.

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