Cultura

Festival de Cannes

Duas decepções

por Orlando Margarido — publicado 22/05/2013 13h08, última modificação 22/05/2013 15h01
Passamos da metade do Festival de Cannes, mas ainda não assisti a nenhum filme que some os atributos de bom cinema a impacto, surpresa, polêmica ou desafio
Divulgação
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Cena de Grigris, de Mahamat-Saleh Haroun

Cannes – Já passamos do meio do festival e faltam apenas seis filmes para finalizar a competição. De verdade, até agora, não assisti a nenhum que tenha somado os atributos de bom cinema a impacto, surpresa, polêmica ou desafio. Sim, há bom cinema, especialmente em Jia Zhang-ke e Sorrentino, mas nada que proponha superação. Gostaria de ver ainda a Palma concedida a um trabalho que perturbe, me tire do eixo. Posso lembrar a ocorrência de Entre os Muros, no último dia de concurso há alguns anos. E mesmo Amor, de Haneke, teve sua aura de surpresa. A questão é que temos um conjunto mediano e é a neste, quando não numa escala pior, que ficarão Grigris, de Mahamat-Saleh Haroun, e Only God Forgives, de Nicolas Winding Refn. E digo pior porque eram dois diretores que criaram muita expectativa aqui mesmo em Cannes, o primeiro com O Homem que Grita, e Refn com Drive. E agora deixam decepção ao menos, ou uma péssima  aula de cinema no caso de Refn.

Haroun, em parte, explora um universo similar ao filme anterior no que há de relação de miséria da sociedade chadiana e entre pai e filho. Por causa da doença do pai, Grigis, apelido do protagonista, tem de arrumar dinheiro para o hospital e entra para uma gangue de contrabando de gasolina. Ele é um dançarino com a particularidade de ter uma das pernas defeituosa, o que a torna mais flexível no entanto para os passos da dança. Grigris tem fama na boite onde trabalha, e ali conhece uma bela prostituta, por quem se apaixona. Quando apela a uma traição, acaba por ser perseguido. Embora com a intenção clara de refletir sobre as saídas possíveis a seus conterrâneos num país depauperado, o diretor nada renova neste filme e cria um contexto por demais banalizado no cinema. O simples retrato, digamos, inusual de uma sociedade que pouco conhecemos não sustenta o filme e se tanto temos uma aproximação de empatia com o protagonista.

Nem isso pode-se dizer, no entanto, do personagem central de Only God Forgives, uma reedição muito piorada do motorista-dublê de Ryan Gosling em Drive. Neste, ao menos, seu tipo cool que apelava a violência de uma maneira, digamos, justiceira, agora compõe um exercício de estilo do cineasta, vazio e apelativo. A violência pela violência. A elaborada técnica de tortura e vingança de um chefe de polícia da Tailândia tornou fichinha os recursos dos narcotraficante mexicanos de Heli. É em Bangcock que Gosling e um irmão dividem um negócio de luta de box, fachada na verdade para o tráfico de drogas. O irmão avisa que descerá ao inferno. Na verdade, quis dizer inferninho. Vai a uma daquelas casas de diversão masculina, escolhe uma garota de 16 anos, a estupra e mata. O pai dela vem fazer vingança protegido pelo tal policial. Destroça o rapaz. Chega a mãe americana (Kristin Scott Thomas, loira e pouco crível) para velar o filho preferido, o que deixa bem claro para Gosling, além de incitá-lo a se vingar. Quando Gosling lhe diz o que o irmão cometeu, ela justifica que ele deve ter tido seus motivo. Passa-se então ao banho de sangue e sequências previsíveis e tediosas. Refn é fã de Alejandro Jodorowsky, a quem dedica ofilme. O original chileno, com seu cinema delirante e satírico, não merece. Espero daqui a pouco ver coisa melhor de Abdellatif Kechiche, que ao menos já se sabe, o filme é longo (três horas!) e polêmico, com lésbicas e direito a cunillingus. Enfim, haverá por certo o que discutir!

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