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Cultura

47º Festival de Brasília

Depois de Glauber, os novos

por Orlando Margarido — publicado 17/09/2014 13h50, última modificação 24/09/2014 20h23
O evento mais antigo e tradicional do País reverencia seu (e nosso) mestre antes de dar a largada com a turma jovem

Sem escala em São Paulo, depois de uma semana de breves férias na Itália, cá estou no Festival de Brasília. A 47ª edição abriu ontem a noite com a exibição de, adivinhem, Deus e o Diabo na Terra do Sol. Há muito Brasília tem uma ligação atávica com Glauber Rocha que se justifica pela relação histórica com o festival, o mais antigo e politizado do país. Eram para cá que as grandes obras de nosso cinema rumavam para se projetarem como renovadoras do cenário, e claro que com o Cinema Novo não foi diferente. É sempre importante rever Glauber, diga-se, mas há também o risco de se criar certo folclore entorno de seu nome e de seus seguidores, seja aqueles que bebem com constância de seu cinema seja dos descendentes que zelam por sua obra e memória e sempre marcam presença para que não se esqueça  sua contribuição. Não foram poucos os que notaram um parentesco de origem na forma e temática, enfim um vínculo forte com a obra glauberiana em Exilados do Vulcão, dirigido por Paula Gaitán, uma das viúvas de Glauber, e premiado por aqui no ano passado. Mesmo com uma obra pessoal sólida, não deixa de ser sintomático que a diretora retorne com naturalidade a uma inspiração. Glauber estará sempre rondando Brasília.

Abrir a nova edição com um de seus clássicos em cópia nova renova essa afirmação. Mas Brasília está mais jovem, ganhou frescor esse ano. Em parte se deve a nova direção que se instalou e as mudanças de modelo, como a de abolir a separação das seções de documentário e ficção, já há algum tempo superada por filmes híbridos em sua proposta. Por outro lado, Brasília sofre com maior competição de seus similares que o antecedem no calendário e filmes inéditos não surgem assim, a granel. O jeito foi aceitar títulos que já foram exibidos anteriormente e melhor fazer isso apostando na nova turma. É o que se vê na programação, com uma moçada que se não tem a mesma faixa etária chegou ao cinema com empenho juvenil e estimulada pelo digital. Não por acaso muitos foram lançados pelo Festival de Tiradentes, que cedo enxergou essa geração e seus filmes de tônus mais original, de pesquisa de linguagem e visual, e alguns prefeririam dize-los herméticos. Deus e o Diabo não teria sido quando lançado em 64¿, O tanto que pode nos dizer hoje de seu tempo, de um momento crítico do cenário político brasileiro já pode ter sido assimilado, mas a obra continua impactante e suas alegorias determinantes a diversas gerações, quando não simplesmente copiadas. A vantagem agora é que temos uma produção muito maior e diversificada para nos reconhecermos, ou não, na tela, talvez aí sim uma condição de obstáculo que Glauber enfrentou em sua época. Logo mais a noite começa a competição oficial com o documentário de Eugênio Puppo, Sem Pena, diretor que vem fazendo um trabalho interessante entre o resgate histórico de um lado, como no documentário sobre Ozualdo Candeias, e de linguagem de outro em curtas-metragens. Depois virão em dose dupla a geração de Pernambuco que faz um dos melhores cinemas atuais no país e nomes que já conhecemos como Taciano Valério e Adirley Queiróz, este o representante local. Acompanhem por aqui o saldo diário, até!