Política

Começa a esquentar

por Orlando Margarido — publicado 19/05/2013 11h13, última modificação 20/05/2013 10h12
Anne-Christine Poujoulat / AFP
Hirokazu Kore-Eda

O diretor Hirokazu Kore-Eda durante a exibição de seu filme, "Like Father, Like Son", em Cannes

Cannes – Não foi só a chuva que deu trégua depois  de dois dias de ensopar. Com o sol, subiu a temperatura da competição. Verdade que isso já havia acontecido na terça-feira com o filme de Jia Zhang-ke que comentei aqui. Acabei de entrevista-lo naquelas mesas com alguns jornalistas que as vezes pouco rendem, mas desta vez houve uma boa conversa. Volto a entrevista mais tarde. Depois do “toque de pecado” de Jia, os filmes tomaram uma direção mais convencional, sem muitas surpresas, com o cineastas se repetindo e apresentando novas propostas em seu cinema, mas sem resultado consistente. No primeiro bloco, me refiro a Kore-Eda, que volta a filmar crianças. Desplechin faz algo diferente da sua filmografia, mas não creio que encante. E tem os Coen, que não é mais do mesmo, mas igualmente não surpreendem. A seguir, separo os filmes por comentários:

Tal Pai, Tal Filho – Pode-se traduzir assim o título internacional do filme de Kore-Eda. Cada vez mais o diretor japonês parece ocidentalizar suas histórias, seus interesses, com tramas que partem de um fait divers, como dizem os franceses, um acontecimento de impacto que vem consumar algo trágico. Era assim em Ninguém Sabe, com as crianças que permaneciam sozinhas enquanto a mãe saía para ganhar a vida. Agora a  troca de bebês na maternidade une na difícil decisão de desfazer o equívoco os dois casais em questão, seis anos depois. Um deles traz o pai  de filho único e de boa situação financeira que o educa com rigor, mas distante pela pressão do trabalho. A outra família, de um comerciante modesto, cuida dos três filhos com dedicação, inclusive o que está no centro do drama. Daí já se pode conceber certa facilidade na composição dos adultos, um pai ausente e orgulhoso de seu dinheiro e a lição de ética e moral do clã pobre. Mesmo o fato de tocar na questão de classe e o contraste entre modernidade e tradição no Japão actual é visto na superficialidade. Melhor que em alguns momentos o diretor consegue dar vazão e explorar os sentimentos conflituosos dos adultos. Não sei sai do filme completamente decepcionado.

Jimmy P. – O novo Desplechin tem um estranho subtítulo que antecipa o geral da trama, Psicanálise de um Índio da Planície. Jimmy P., ou Picard, é esse índio americano interpretado por Benício Del Toro, que ao lutar na Segunda Guerra pelos Estados Unidos sofreu um trauma no cérebro em acidente e passa a ter delírios e pesadelos. Será tratado por um psiquiatra francês, papel de Mathieu Amalric, que o libera da suspeita de esquizofrenia. O filme é o encontro desses dois homens, ou melhor, dessas duas civilizações, com Devereux, o médico,  mostrado como um conhecedor da cultura indígena. O filme é o processo de análise mas também de conhecimento da vida dos dois personagens, com segredos no passado de Jimmy, e um presente complicado para o psiquiatra, que inclui uma amante francesa recém-chegada. Por aqui houve muitas ressalvas quanto a longa conversa, como literatura mesmo, em que se estrutura o filme, e a ausência de uma reviravolta, um fato que viesse mexer com a situação. Creio que este seria a própria condição dada do protagonista em meio social e de diferenças culturais no qual é obrigado a conviver. Acompanhei com interesse essa oposição até o final e gostei justamente de Desplechin não ter lançado mão de nenhum recurso de efeito. Del Toro está ótimo e é um dos primeiros concorrentes sérios ao prêmio de interpretação.

Inside Llewyn Davis – Mais do que nunca os Coen exploram seu tino para o humor judaico, o que muitos por aqui alegaram ser uma via fácil de empatia. Mas seu outro cinema também está aqui, aquele que ressalta personagens excêntricos, à margem, os loosers como dizem os americanos. Vem daí certa repetição também ao acompanhar a história de um músico que busca o sucesso sem sorte, o Llewin do título (Oscar Isaac), dependente de favores de amigos e da ex-mulher (Carrey Mulligan). Há ainda um tanto de road-movie, quando Llewin pega a estrada até Chicago para uma última cartada. Ele se dá mal todo o tempo, um recurso que busca os sentimentos mais genuínos da plateia. É difícil não gostar de Llewyn. Com um trato por vezes documental, como na cena inicial da apresentação dele num bar pequeno, essa aproximação fica mais evidente. Joel e Ethan são cineastas que apostam nos  tipos, e nesse sentido tem sua força renovada aqui. Apenas que por enquanto ainda se igualam a filmes de tratamento convencional, sem nada muito surpreendente.