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Cultura

Berlinale

A segunda (ou última) chance

por Orlando Margarido — publicado 07/02/2014 16h26, última modificação 07/02/2014 17h37
Os três primeiros filmes da competição refletem, nas mais variadas circunstâncias, sobre a possibilidade da redenção
Jack

Jack e o irmão: busca e nova chance

Berlim -- Em todo festival é assim. Há um tema geral da programação, em geral mais voltado a seção competitiva, que se impõe. Nesta Berlinale parece que já há um prenúncio a julgar pelos três filmes em concurso que vimos entre ontem e hoje. A idéia de uma nova chance, de uma redenção aos personagens, norteiam de maneiras diferentes os destinos.

Acabo de chegar da conferência de imprensa de 71, sim, assim mesmo em numeral,referência ao ano que se passa o filme ingles, e o diretor estreante Yann Demange construiu um pensamento em torno da remissão de seu protagonista. Um jovem soldado britânico entra no exército e de cara é mandado com seu pelotão a uma patrulha num bairro católico de Belfast, reduto do IRA. É o auge da luta separatista do Exercito Republicano Irlandes. Tudo sai do controle e o rapaz é abandonado pelo pelotão, sozinho e ferido. Veste roupa de civil e assim acaba por ser ajudado por moradores enquanto integrantes do IRA o caçam. A ingenuidade e o credo em algum valor logo se perdem, mas não só em referência aos britânicos que o deixaram ali. Ele conhece os bastidores, como funcionam as guerras internas do IRA. Tentará se salvar, matando, para reencontrar o irmão pequeno caçula. Para recomeçar, só mesmo abandonando tudo em que um dia pensou acreditar. É um filme tenso, em boa medida calcado no cinema urgente que fazem realizadores irlandeses e ingleses buscando os pontos de vista do conflito.

Há outra fronteira, outras diferenças de credo, a marcar o filme de Rachid Bouchareb, Two Men in Town. Ele faz a refilmagem de Deux Hommes dans la Ville, que tem o mesmo título em inglês. Na versão francesa, Alain Delon é um ladrão de banco que sai da prisão depois de dez anos. Quer se redimir, mas é perseguido pelo policial que o capturou. Nos anos 70 parecia mais condizente centrar o ajuste de contas no plano pessoal, psicológico, como fez José Giovanni. Bouchareb, diretor de origem argelina que gosta de trabalhar no plano político e das diferenças étnicas, move a trama para o universo americano em tempos de guerra do Afeganistão e para a fronteira com o México. Ali Forest Whitaker sai da cadeia depois de assassinar um xerife. Ali converteu-se ao islamismo.

Quem vai cuidar da sua reabilitação é a agente interpretada por Brenda Blethtyn, que atuou para Bouchareb em London River. Aqui, se vocês lembram, ela conhece um negro ao procurar por sua filha depois dos atentados de Londres e passa a repensar seus valores de classe média inglesa. Ao ex-prisioneiro, agora, ela dedica a confiança. Quer ve-lo recomeçar, Seus inimigos serão o novo xerife (Harvey Keitel) e um traficante local (Luiz Gusman). Nesse plano, o filme revela certo maniqueísmo, com a América patriota que se levanta pós-11 de setembro contra um criminoso, negro e muçulmano. Mas Whitaker está ótimo, e ao centrar o drama em seu jeito grandalhão, um tanto desajeitado, e seu rosto, Bouchareb até que se redime, agora ele, de filmes anteriores menores. É um diretor problemático nesse sentido, nunca parece decolar com suas tramas.

E quem diria, falando em decolar, que a boa surpresa ficaria para o primeiro filme alemão em competição. A prata da casa muitas vezes entra na corrida ao Urso de Ouro por ser isto, afinal, um representante local. Não é o caso de Jack, de Edward Berger, realizador muito ligado a TV por aqui. Em boa parte, é verdade, a força de seu drama está na interpretação do garoto Ivo Pietzcker, Seu personagem tem dez anos mas responsabilidade de adulto. Ao menos é isso que sua mãe lhe incumbe, com uma indiferença que dói, ao deixar ele o irmão caçula, filho de outro casamento, abandonados. Ou quase isso, já que sem vestígio de figura paterna, ela não dá conta da educação. A mulher vive um cotidiano desregrado, traz os namorados para casa, não esconde a nudez do filho e certo dia, depois de um acidente doméstico, é obrigada a se afastar deles. Jack vai para uma instituição enquanto Manuel para a casa da tia. Vem a fuga e uma busca desenfreada de ambos pela mãe. A desilusão é árdua, e Jack fará sua escolha. Uma nova chance talvez. É um filme também sobre os modos de amar. A mãe, a sua maneira, desregulada. O filho que amadurece a força tem o seu sentimento duramente contestado. Na média, a Berlinale começa forte.

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