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Cultura

71 Festival de Veneza

A não ditadura da imagem

por Orlando Margarido — publicado 28/08/2014 13h59
Um poderoso retrato da Indonésia de Suharto nos lembra que não é preciso mostrar para refletir

Hoje começou para valer a programação por aqui, não só pelos primeiros filmes da competição mas também pelas entrevistas e coletivas que tornam o dia corrido. E minha primeira conversa foi com Mohsen Makhmalbaf sobre seu filme The President, que comentei em post anterior. Ele defende, claro, sua postura de representação ainda que um tanto primária de um ditador derrubado do poder e em fuga por achar que assim o filme fica representativo das varias ditaduras pelo mundo. Aproveitei e incluí no diálogo os 50 anos do golpe de 64 e como o cinema, documental especialmente, tem retomado o tema para reflexão. O iraniano não mostra os estragos na prisão de seu ditador a não ser pela miséria provocada nas vitimas, os prisioneiros que o presidente militar a horas tantas carrega nas costas para penitenciar se de suas atrocidades. È uma das cenas poderosas de seu filme, que valem essa postura um tanto esquemática e didatica mesmo do tema.

Tem havido uma discussão em parte da imprensa e entre os críticos que integram ou não a Abraccine, a nossa associação de criticos aí no Brasil, se o cinema, agora o ficcional, deve ou não recriar as cenas de tortura como expediente de força dramática. Já havia tocado nisto no filme de Kim Ki Duk, em que se tortura por vingança mas se ecoa a outra, a dos militares, na Coréia do Norte. Mas mal se poderia esperar o que viria no filme exibido ontem a noite na competição. The Look of Silence, documentario de Joshua Oppenheimer, è o trabalho mais contundente exibido até agora. O diretor volta a Indonésia onde filmou Act of Killing para tratar de mesmo tema, a pavorosa matança de civis pelo governo do ditador Suharto nos anos 60, vítimas porque supostamente comunistas. A cifra oficial è de 500 mil pessoas. No filme anterior, Oppenheimer buscou os muitos oficiais que se juntaram a força do governo para matar e os pediu para reencenar os modos de matança. Desta vez elege um personagem, um jovem cujo irmão que ele não chegou a conhecer, foi assassinado num ato de selvageria, com intestino e pênis arrancados. Mais uma vez, não há encenaçao ou, vá lá, material documental, como fotos. O que o jovem faz è procurar e cobrar dos algozes o horror de seus atos, e isso gera situações talvez até mais impactantes do que as torturas em si, que o diretor nos faz imaginar. Os encontros são difíceis, constrangedores muitas vezes. De um líder da Assembléia local, o jovem ouve que é melhor não relembrar o passado pois ele pode se repetir no preente, numa franca ameaça. Oppenheimer, pode se imaginar, è persona non grata no país, já que os  perpetradores do extermínio seguem no comando. Muitos dos créditos do filme surgem anônimos. Mas quem apoia o realizador americano são pesos pesados do documentário, Errol Morris e Werner Herzog, este que foi ao Texas e Oppenheimer para falar da pena de morte. Não será absurdo se o festival quiser reverberar a força do filme com algum prêmio, mesmo necessário.

Depois desta pedrada, por assim dizer, foi bom ter visto nesta manhã Le Rançon de la Gloire, de Xavier Beauvois. O diretor e ator francês tem mostrado um cinema de certo pendor ritualistico e operistico, como foi em Homens e Deuses. Agora isso se dá mais na encenação que busca dar grandiosidade aos pequenos, ou seja, aos destituídos ou forçados a se humilhar na sobrevivencia. E ele escolhe um fato real na Suíça envolvendo a morte em 1977 de Charles Chaplin, ou Charlot, como dizem os franceses, como mote da trama, e o homenageia, inclusive na música orquestral de Michel Legrand, que começa subindo o tom até demais para depois se mostrar justificada. O personagem de Benoit Poelvoorde sai da prisão e è acolhido pelo amigo Roschdy Zem, que vive mal instalado com a filha pequena enquanto a mulher esta no hospital necessitando de operação urgente e cara. O dinheiro, propõe o ex detento, pode vir de um sequestro inusitado. Basta roubar o caixão com o corpo do cômico e pedir resgate a família. O intento se transforma numa comédia de erros e tudo alude, claro, ao vagabundo, no caso dois, de Chaplin. Mas è um filme que nos conquista a simpatia, não mais que isso.

Ainda vimos na sequência Tales, do iraniano Rakhshan Banietemad, e confesso que fiquei um tanto indeciso na proposta do diretor de mostrar um submundo obscuro entre a afazia do serviço público, a crise do país e a rigidez no trato as mulheres. Os contos do título buscam se encontrar em pontos de convergência, nem sempre, desde um taxista que atende a uma jovem conhecida da família em situação de desespero e que  a ele se oferece, até o diálogo final entre outro motorista e uma jovem voluntária de casos de suicídio. Me pareceu um retrato já muito tomado do Irã, mas ainda sim com uma força ocasional.