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Blog do Orlando Margarido

por CartaCapital — publicado 15/06/2013 12h11, última modificação 24/05/2015 13h03

Cannes

Os últimos como primeiros

Da Hungria e do México vem os concorrentes mais potentes de uma competição mediana
por Orlando Margarido — publicado 24/05/2015 13h06
Divulgação
Saul Fia

Cena de Saul Fia: primeiro filme exigido no festival desponta como favorito

Saul Fia, ou o filho de Saul, foi o segundo filme exibido na competição e de pronto ganhou o boca a boca no festival. Se não unânime, o concorrente húngaro saiu disparado na preferência de boa parte da imprensa especializada. As sessões lotaram e somente hoje, com a reprise de todos os competidores a Palma de Ouro, foi possível recuperar o drama impactante do estreante László Nemes. Não é raro encontrar certa aversão  atual dos espectadores ao tema do holocausto, compreensível em termos, tamanha a constância de sua evocação pelo cinema. Mas há algo tão pulsante e incômodo em Saul Fia, no partido estético opressivo e na abordagem, que se pode dizer tratar-se de uma exceção obrigatória.

A Fipresci, a federação internacional dos críticos de cinema, já reconheceu a contundência da produção e ontem concedeu a ela seu prêmio. Costuma ser um indicador precioso para a decisão do júri oficial, resultado que saberemos logo mais, a partir de 19h no horário local, cinco horas a mais do que no Brasil. Além do mérito próprio, Saul Fia pode se beneficiar de um status em geral mediano de seus concorrentes, muitos realizadores estabelecidos que em maior ou menor grau desapontaram. Curioso, contudo, que os três últimos títulos exibidos ressoam uma temática que lhe são comuns. Se há a óbvia relação com a morte num filme sobre o genocídio dos judeus, nem tanto se poderia esperar em Valley of Love Chronic um olhar do trauma de quem desaparece e deixa marcas, sendo sobretudo este ente querido um filho.

A princípio o título húngaro parece desvendar de cara a situação filial. De certo modo, apenas. Saul (o ótimo Géza Röhrig, em interpretação contida) é o prisioneiro húngaro de um campo de concentração. Integra o chamado "sonderkommando", as unidades formadas por judeus obrigados pelos nazistas a lidar com o preparo e o descarte dos corpos das vítimas exterminadas nas câmeras de gás. É o horror maior entre os horrores, como qualificou Claude Lanzmann a partir das entrevistas em Shoah, o extenso documentário sobre a matança aos judeus. Com uma grande marca em "X" nas costas, estes homens colaboram para matar portanto sua própria gente, enquanto esperam a determinação para sua morte.

Entre um grupo recém-chegado, Saul se dá conta de um menino que agoniza e em seguida assiste sua morte final por injeção. Decide enterrá-lo na tradição judaica e para tanto precisa de um rabino. O obstáculo não são apenas os alemães, mas os próprios colegas, imanados em torno de um plano de revolta. Na tela em formato quadrado, o cenário escuro dos subterrâneos onde se dá a dizimação se torna ainda mais angustiante e claustrofóbico, com a câmera todo o tempo no rosto imutável do protagonista, buscando sobreviver para conseguir seu intento. Instala-se outra dúvida, talvez a maior em termos de narrativa, mas insignificante sobre a paternidade ou não. O filme atenta, afinal, há algo bem mais complexo sobre a que ponto pode ser rebaixada a dignidade humana.

Se a ética e outros valores parecem desaparecer por completo numa situação de limite como o holocausto, Chronic coloca em questão os mesmos preceitos na atualidade e em condição bem mais próxima e cotidiana. Tim Roth é o cuidador de doentes terminais que concilia uma tragédia do passado recente com a tentativa de superá-la pelos casos em tratamento. A perda do filho lhe deixa dedicado ao trabalho, e mais, ele assume as histórias dos pacientes como parte integrante da sua vida. Surgem percalços, como a acusação de uma família de assédio sexual. Quando ajuda uma doente de câncer a viabilizar uma atitude drástica, as realidades por fim se unem. Como em Depois de Lúcia, vencedor da seção Un Certain Regard há dois anos, o diretor mexicano  Michel Franco constrói de modo sofisticado e discreto sua crônica de uma morte anunciada, primeiro nos lugares fechados e fotografia clean que a tudo esmorece, como aquelas vidas que se esvaem, e em seguida no espaço exterior onde se dá o desfecho perturbador. O que não significa necessariamente inesperado, mas isso tem a ver com o desdobramento da competição, pois em registro bem menos original e algo constrangedor Gus Van Sant faz o mesmo em Sea of Trees. O epílogo de Chroniccontraria muitas opiniões por aqui. Isto não invalida a qualidade de um dos filmes mais bem delineados de uma competição morna.

É o que tenta também Guillaume Nicloux em Valley of Love, outro dos realizadores incensados em produção menor e agora mais ambicioso ao filmar nos Estados Unidos com Isabelle Huppert e Gerard Depardieu. As estrelas do cinema francês talvez sejam o melhor a acompanhar no drama do casal separado que viaja ao Vale da Morte americano impelido por um pedido em carta deixada pelo filho suicida. Ele promete surgir a eles, o que a espiritualizada personagem de Huppert acredita mais do que o ex-marido. Há a mesma construção em toada de suspense e pequenas alterações, mas tanto o percurso do roteiro quanto seu fecho não são a confirmação de um conflito familiar que poderia ser bem mais potente.     

65 Festival de Berlim

E Panahi triunfou...

O Urso de Ouro para o iraniano, saída política e digna mas também fácil, coroou uma premiação com alguns desajustes e acertos no geral
por Orlando Margarido — publicado 14/02/2015 18h23

Na medida em que a cerimônia de premiação avançava, ficava claro que os melhores filmes desta Berlinale não receberiam os prêmios principais. E não estou falando apenas por serem meus preferidos, e sim de uma noção geral entre os colegas. A primeira decepção veio com o Urso de Prata de contribuição artística, que não bastava ser ex~aequo, ou seja dividido entre dois escolhidos, parecia sugerir tirar o russo Under Electric Clouds da parada. A fotografia do filme de Aleksey German Jr empatou com a câmera do alemão Victoria, no único quesito realmente interessante deste filme. Mas quem sabe, em vã ilusão, viria algo mais para o russo, que gosto muito. Bem, mais nada... Em seguida, veio o roteiro para Patricio Guzman, e o desencanto meu, nosso, de alguns colegas brasileiros que acompanhavamos juntos a premiação, estava estampado na cara do grande diretor, documentarista, chileno. Seu El Botón de Nácar merecia mais. Tanto mais porque a direção, em outro ex.aequo, e não me lembro disto acontecer nesse grau em edições passadas, foram ambas escolhas equivocadas, fracas, descartáveis mesmo. Nem o romeno Aferim, e muito menos o polonês Body, apresentaram cacife para tanto, e o segundo se deve justificar pela estranheza que costuma ser bem recebida por esse festival, como aconteceu há dois anos com o canadense Vic e Flo.

A partir daí, pode se argumentar por esta ou outra opção, mas os prêmios de interprete para o casal central Charlotte Rampling e Tom Courtney por 45 Anos são defensáveis, tocantes mesmo, mas também com algo de apelo facilitador. Por que não quebrar a ótima afinidade dos atores e oferecer a Alba Rohrwacher um merecido reconhecimento por sua Vergine Giurata? O filme italiano, afinal, saiu de mãos vazias. Menos mal, e põe menos nisso, que o incontornável se deu e o Urso de Prata dedicado a trabalhos que abrem perspectivas, e leva o nome de Alfred Bauer, foi para Jayro Bustamante e seu Ixcamul. Depois do bonito discurso da charmosa Rampling, foi o primeiro momento emocionante da festa, com o diretor guatemalteco estreante subindo ao palco com as duas representantes do povo maia, estrelas do filme. Fiquei mais feliz ainda que Pablo Larraín com seu duro trato sobre a Igreja no país em El Club tenha levado o Grande Prêmio do Júri. Fechava se com chave de ouro a ótima representação latino americana da edição. Quem sabe não valeria lembrar com um viva o México no filme de Greenaway, para completar. Mas vá lá que se compreende o gosto menos afeito a extravagãncia que é o filme sobre Eisenstein se liberando sexualmente em Guanajuato. Luis Carlos Merten me contou hoje no nosso tradicional almoço de confraternização num ótimo restaurante russo que Dieter Koslick, o chefão da Berlinale, lembrou em pronunciamento que foi uma edição em que os novos realizadores apresentaram um cinema melhor que os veteranos. É isso aí.

Vocês já notaram até aqui a minha pouca disposição para comemorar a vitória de Táxi. Nem de longe pensem numa reprovação ao filme de Panahi, tanto mais porque é uma belissima homenagem ao cinema. Mas a ida ao palco da garotinha, pois claro que Panahi não pode vir a Berlim, que dialoga com seu tio, e sim ela é sobrinha do diretor, no táxi, diz muito do que consiste esse prêmio. Some se aí o discurso do presidente do júri, Darren Aronofsky, reafirmando o tom engajado de lembrar a situação política do realizador, proibido de filmar em seu país, e por isso obrigado a lançar mão de expedientes variados e originais. É o que ele faz neste filme mais uma vez. Creio que o júri, assim como a direção da Berlinale, não quis perder esse bonde da história num momento trágico também por recordar as diferenças do islamismo, aquele radical dos ataques como em Paris, e o outro da paz, que prega a boa convivência e o respeito entre os credos. Panahi, claro, é vítima do primeiro não pela violência mais apelativa da força, mas daquela também autoritária que ceifa seu direito de se expressar. Koslick foi buscar pessoalmente a pequena atriz para levá la ao palco, que muito emocionada, chorou e mal conseguiu balbuciar alguma coisa. A imagem, queira se ou não, já está rodando o mundo neste momento e oferece uma visão forte e politizada mais uma vez a Berlinale, que cultiva esse aspecto como se sabe. O Urso de Ouro, portanto, é uma solução apreciável, honesta, mas sobretudo conveniente. Preferia que fosse o cinema aqui a falar mais alto.

65 Festival de Berlim

Filme de Anna Muylaert é preferido do público

Na seção paralela Panorama, Que Horas Ela Volta? ganha prêmio na votação dos espectadores
por Orlando Margarido — publicado 14/02/2015 10h19

Deu para sentir ontem na última exibição do filme que o filme de Anna Muylaert tinha grandes chances na disputa da preferência do público. E não deu outra. Acaba de sair o resultado e Que Horas Ela Volta? encantou mesmo. Será que o início da repetição do ano passado, quando Eu Não Quero Voltar Sozinho foi eleito pelo júri oficial do Panorama? Vocação para tanto ele tem. Saberemos as 19h30 no horáriio local, quando começa a cerimonia dos Ursos. O filme também venceu o prêmio independente da Cicae, a confederação internacional do cinema de arte. Este me parece um tanto peculiar, porque a pegada do trabalho de Anna é justamente se afastar dessa ideia de um ensaio artístico. É francamente expansivo e conquista pela comicidade, a situação tão cara a classe média brasileira e suas domésticas, e Regina Casé não é menos que maravilhosa como a nordestina que recebe a filha depois de tantos anos sem vê-la na casa dos patrões. Muylaert fez seu Casa Grande paulista, mas o filme carioca ainda também não estreou para vocês saberem do que falo. Em pauta, as relações socias dissonantes, tão presentes também em filmes pernambucanos. Aguardemos a decisão do júri.

65 Festival de Berlim

O Vietnã agora

Concorrente do país encerra competitiva com retrato de geração e sexualidade em abordagem jovem
por — publicado 13/02/2015 16h41

A primeira hora de Big Father, Small Father and Other Stories, o título em inglês do filme do vietnamita Phan Dang Di, me pareceu muito irregular. O filme começa bem, com o retrato de uma família urbana pobre, mas com aquele ânimo e felicidade baseados na boa convivência, embora de estrutura um tanto disfuncional. Num casebre na beira de um rio, e não seria muito distante do nosso conceito de favela, vemos os jovens irmãos que recebem a visita do pai, que do seu barco vindo do interior desembarca com uma máquina fotográfica de presente ao filho mais novo, amador neste ofício e protagonista como veremos. De um rapaz atrelado a família, que servirá como antagonista, temos o lance dramático que levará o caçula a um interesse e paixão homossexual. É apenas uma das vertentes da história, que inclui ainda uma irmã que trabalha como dançarina num clube noturno, de propriedade daquele mesmo jovem atraente, a turma que enfrenta brigas com uma gangue etc. Dito assim, o painel se assemelha a um retrato geracional, da juventude atual do país, o que é real. Apenas que o diretor deseja trabalhar aspectos mais sutis e complexos dos personagens e suas angústias, e se vale para tanto dos elementos fundamentias da gênese humana, a terra, a água e o fogo, principalmente, e os aproxima de uma transformação da própria sociedade, que de agrária, dependente da floresta, tornou-se eminentemente urbana com a guerra. A proposta me pareceu me pareceu interessante muitas vezes, mas um tanto alongada, com vazios e soluções repetitivas. Perto do que vimos aqui, um filme para fruir em outra circunstância, e sem filmes tão provocativos ao lado.

65 Festival de Berlim

Fipresci foi de Panahi

Táxi, com o diretor ao volante de um precioso retrato do Irã e de sua condição de censura, é uma escolha defensável dos críticos, mas também decepcionante
por Orlando Margarido — publicado 13/02/2015 16h20, última modificação 15/05/2015 17h22

Acabei de chegar da cerimônia oficial da Fipresci, a federação internacional dos críticos de cinema, que em diferentes festivais do mundo organiza um comitê de jurados. No caso de Berlim, o grupo escolhe os preferidos da competição oficial e da paralelas Panorama e Forum. Sem brasileiros desta vez entre os vencedores, ao contrário do ano passado em que Eu Quero Voltar Sozinho ganhou seu primeiro reconhecimento entre a crítica, para depois ser o preferido do júri e merecer um honroso segundo lugar entre o público do Panorama. E o longa de Panahi foi o escolhido na oficial, um voto decente, sem dúvida. E não bastasse, o Irã ainda levou também no Panorama, com A Minor Leap Down, de Hamed Rajabi. Mas o prêmio para Panahi tem cara de conciliação entre outros concorrentes com muito mais apelo, apesar de deter alguma controvérsia, e de levar em conta a situação de degredo de Panahi.

Esta é uma questão, diga-se. O filme é bom por si só, muito bom diria, mas me parece que estamos diante de uma seleção oficial com ótimas opções, e eu não saberia de pronto quem apontar entre os meus preferidos. Guzmán? Larrain? e são dois chilenos... ou Aleksey German Jr. com seu retrato poderoso e distópico de uma Rússia em ruínas? Cada vez cresce mais para mim Vergine Giurata, o italiano, e a boa conversa hoje com a diretora Laura Bispuri só fez crescer a situação dramática do filme já tão complexa. Mas seria uma discussão muito mais profunda, creio, se estivesse entre colegas na votação, do que embarcar no táxi de Panahi. O prêmio Fipresci nos grandes festivais que acompanho, aqui, Cannes e Veneza, costuma antecipar um pouco do caminho que deverá seguir o júri oficial. Nâo creio que o colegiado de Darren Aronofsky, com o manda chuva da Berlinale Dieter Koslick por perto, faça uma desfeita a Panahi, considerando a tradição política e engajada do festival.Mas espero sinceramente que não seja dele um dos premios mais importantes, nem pensar o Urso de Ouro, ou de Prata, como diretor.

Para complementar a Fipresci: no Forum, o escolhido foi Il Gesto delle Mani, de Francesco Clerici, documentário italiano que dá conta da feitura e importância da escultura na história do país. Parece ambicioso, e uma amiga mexicana me assegurou que é belissimo. Vou tentar recuperar para contar mais, ou será o caso de Amir Labaki tentar levar o filme ao É Tudo Verdade.

65 Festival de Berlim

Que viva México para Eisenstein

A libertação não política, mas sexual, do cineasta russo, filmada com extravagância gráfica por Peter Greenaway
por Orlando Margarido — publicado 12/02/2015 16h18

Havia muita expectativa, e a essa altura vocês já devem ter lido a respeito, mas Eisenstein em Guanajuato é a sensação, no bom e mau sentido, desta rota final da Berlinale. Isto porque se amou e se odiou na mesma medida a revisão com todo o barroquismo ao que o britânico Peter Greenaway costuma ter direito da passagem do pioneiro russo pelo México para tentar realizar um filme. Como se sabe, Que Viva México!, nunca foi concluído por ele,e há versões duvidosas e mal contadas que circulam. Acontece que Eisenstein aprontou muito aos produtores durante a estadia, filmou quilômetros de negativos, e é muito indicativo que se fale disso em quilômetros, como se antecipasse a noção futura de números, somas, bilheterias do mercado de cinema. Se Eisenstein já era uma figura extravagante em si, indomável em suas idiossincrasias, não se pode culpa apenas a esses caprichos de personalidade. É isso que Greenaway tenta nos apresentar, e que não é novidade. Muitos biógrafos se referem a homossexualidade reprimida do russo, que como tantos outros homens de culturas fechadas, opressoras, frias em todo os sentidos da palavra, não se seguravam no calor e erotismo dos trópicos, e acediam...

Heteros ou gays. O fato é que Eisenstein encontrou nos braços de um funcionário escalado para acompanhá-lo por Guanajuato o prazer desconhecido, ou ao menos mantido no armário. Talvez por aí, bem na metade do filme para demonstrar a virada em sua vida, como se debateu na coletiva de imprensa, comece a indisposição da platéia de jornalistas. A cena em que Cañeda, o acompanhante, avança para Eisenstein, ambos já nus, e o leva a cama para a penetração é tão detalhada e coreografada como Greenaway faz com seus portraits, os tableaux vivants das biografias de pintores como Rembrandt e o famoso quadro deste Nightwatching. Quando o jovem mexicano, aliás marido e pai de família zeloso, católico, rouba o vidro de azeite da mesa de jantar ja´sabemos que o líquido fará as vezes da manteiga em O Último Tango em Paris. Eisenstein é representado como um tipo egoísta, caprichoso, tão nervoso e falante quase a beira da histeria. Parece temer algo que não sabe bem o que é. O amante, se não modifica sua personalidade totalmente, contribui para uma tranquilidade e uma nova maneira de encarara a vida. Não se sabe se a transformação teria impacto maior em seu cinema, mas Greenaway nos desnuda o mito, e nos traz mais perto o homem, mais do que o realizador. E isto com diversão, humor, o que talvez explique também a pouca aceitação. Afinal não se pode tocar alguns ícones.

E dos Balcãs...

Falta apenas o competidor vietnamita, que será exibido amanhã de manhã, para encerrar a competição. Mais dois títulos exibidos entre ontem e hoje reforçaram a impressão de um descompasso meticuloso da seleção, um filme bom, um filme mediano. Comecemos por esse. O romeno Aferim! desvia os pungentes dramas urbanos e atuais que o país tem apresentado, a exemplo de Instinto Materno, ótimo filme que venceu o Urso de Ouro há dois anos, para ir ao passado do século XIX e dar conta das raízes da miséria, opressão e violência ao povo cigano. Um caçador de fugitivos pago por um rico proprietário para resgatar um escravo que roubou segue junto com seu filho levando o terror por comunidades ciganas do interior do país. É um tipo bufão, duro no trato e irônico em suas observações, ao filho inclusive, que procurar formar, e este acaba tomando todo o registro fo filme. Rodado em preto-e-branco, tem seu interesse como painel de um periodo que parece ser medieval nas relações, mas é apenas de dois séculos antes. Me parece cada vez mais que há na Berlinale uma obrigação de fazer representar determinadas cinematografias, que se valorizam por certo, como a romena, mas nem por todos os seus filmes. Assim também se dá com um chinês, e que por favor não se pense em premia-lo, Gone with the Bullets, pastiche de um cinemão americano, com musicais, noir etc, apenas divertido até a metade, e desnecessário depois.

Não entra nesse critério, me pareceu, o italiano da estreante Laura Bispuri. Vergine Giurata, ou Virgem Jurada, faz a ponte entre Itália e Albânia, quando se evoca o antigo código de honra deste último país, que já rendeu tantos filmes, inclusive Abril Despedaçado de Walter Salles, baseado em Ismail Kadaré. Mas a diretora adiciona um ponto muito interessante e incômodo, da jovem que para escapar a sina da mulher de casamento forçado e a uma quase escravidão num vilarejo de montanha, passa a se masculinizar. Mas não se pense em hormônios ou coisa assim. Basta pegar num rifle, caçar, tocar um rebanho, cortar o cabelo e se vestir como homem para ser considerada e respeitada como tal. Há uma cerimônia entre homens que a jovem Hana promete se manter intacta. Vai quebrar o juramento, mais para frente, já na Itália, onde foi em busca da irmã e sua família. Tenso e sombrio, por falar inclusive na atualidade. Mais uma vez, o primitivo, como no romeno, parece estar mais próximo do que se supõe. Gostei e amanhã entrevisto a diretora, para lembra com ela de filmes em que a questão de gênero e identidade está presente, caso de Tomboy.

Artes Plásticas

Um sorriso para Tomie

É o que merece a artista plástica, morta hoje aos 101 anos, que sempre nos recebia sorrindo
por Orlando Margarido — publicado 12/02/2015 15h26, última modificação 12/02/2015 15h28

Já me preparava para dar meu resumo dos últimos dois dias da Berlinale, quando me deparo com a noticia da morte de Tomie Ohtake. Sei que o mais comum é expressar uma lágrima para alguém querido e significativo que nos deixa, mas nesse caso não consigo imaginar ela querer ser lembrada com tristeza.

Em todas as vezes que a entrevistei ou estive em algum compromisso em que ela estava presente, Tomie recebia a todos com um sorriso. Nada de uma obrigação apenas social, como se dá em eventos públicos muitas vezes, mas sincero. Ela parecia não acreditar que fosse reconhecida, querida, tomada além da figura talentosa, mas também  especial e dotada de uma humildade que nos igualava.

Num recente velório, e espero não estar cometendo uma indiscrição, familiares dela diziam que Tomie nos últimos tempos passou a falar da morte, a se dizer cansada, e que preferia ir. Sabemos que a noção oriental da morte é outra, mais prática, menos emocional, enxergando também o lado de quem está por perto, ao lado, responsável pelos cuidados.

Apenas que é difícil aceitar quando ela, a morte, vem, especialmente quando envolve um artista de quem não mais teremos novas demonstrações da sensibilidade. Para refletir sobre esse difícil periodo, o grande Kurosawa fez Madadayo, que significa ainda não. Ele mesmo pareceu se esquivar do fim até quando pode. O trabalho, claro, é o motor para tanto. Tomie, diziam, continuava trabalhando. Deixa muito para nos lembrarmos dela. Isso dá um certo consolo. Então um sorriso para ela e abraços a filhos e netos.

65 Festival de Berlim

Um retrato nada "carinhoso" da Rússia

Pode não ser o melhor nem o unânime, mas o filme de Alexey German Jr. é o mais exigente até agora. E com um chamego aos brasileiros
por Orlando Margarido — publicado 11/02/2015 14h45

Logo vocês vão entender por que as aspas do título do post, que escrevo rapidamente para daqui a pouco correr ao filme de Ermanno Olmi. Olmi está com 83 anos, um tanto doente, diz sua assessora, e não veio a Berlinale. Há uns dois anos em Veneza apresentou Il Villaggio dei Cartone, e já dava sinais de cansaço, mal se compreendia suas respostas aos jornalistas na coletiva. Depois comento o filme. Agora quero falar do novo longa do russo Aleksey German Jr, o filho do grande cineasta veterano morto há alguns anos. Under Electric Clouds, em inglês, antecipa já o estranhamento no título, apenas uma metáfora qeu o diretor escolheu para abarcar toda a complexidade do tema. E este não é menos ambicioso do que dar conta de um país devastado, ele acredita, que representa não num futuro longínquo, mas próximo, em 2017, portanto logo ali. Divide-se em episódios. Há um andarilho estrangeiro que não se encaixa na sociedade local. E sociedade é modo de dizer, pois a paisagem gelada é desolada, não há mais propriamente cidades, mas ruínas, destruição por todo lado. Seguem história de brigas entre máfias, traficantes de drogas, um intelecutal com PhD que precisa trabalhar como guia de museu vestido de hussardo contando as glórias do passado. Ao falar das sua mazelas a um amigo, entoa rapidamente um trecho de Carinhoso.

Nosso Pixinguinha na Rússia de Putin, sem oportundiades aos que não pertencem a classe alta. A arte, a grande arte russa que tanto inspirou Tarkovsky, e para mim o filme paga seu tributo ao grande cineasta, ainda que German não concorde de todo, está soterrada pelo capitalismo predatório, que só pensa em construir sobre os escombros uma arquitetura moderna de gosto duvidoso. Tudo isso German reflete com um tempo todo seu, lento alguns vão achar, e muitos jornalistas abandonaram a sessão, mas necessário a reflexão proposta pelo diretor. Um belo filme, como toda uma geração mais jovem tem perseguido, sem medo de trazer a cena as ferias de uma nação mutilada.

65 Festival de Berlim

Larraín e a visão deletéria da Igreja

Mais um chileno que não poupa seu país de uma inquirição dura e sombria
por Orlando Margarido — publicado 09/02/2015 16h47, última modificação 15/05/2015 17h22
Conteúdo
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Larraín e a exumação da Igreja
El Club
65 Festival de Berlim
El Club
65 Festival de Berlim

Chegamos na metade da competição e a expectativa aumentou no primeiro filme da manhã. Ontem foi Patricio Guzmán e seu retrato de dois momentos funestos da história chilena que se interligam por um capricho do destino, irônico e triste. O genocídio dos indígenas por europeus eco na matança de militantes políticos pelos militares de Pinochet. Hoje foi a vez da Igreja, que se é do Chile por algumas circunstâncias locais, representa na verdade toda a decadência pela qual passa a instituição no mundo. Pablo Larraín vem da ótima trilogia que repassa os anos políticos de repressão em diferentes vertentes. Não que ele tenha deixado o tema, e ele perpassa o drama de El Club, apresentado hoje na competição. Mas como disse o ator fetiche do diretor, Alfredo Castro, durante a coletiva, é inacreditável que a Igreja que teve papel preponderante na salvaguarda dos direitos humanos naquele período tenha se tornado isso que se testemunha hoje. Fala do Chile, mas sabemos como vale por aí. Num vilarejo litorâneo, padres e uma freira vivem cerceados numa casa disponibilizada pela Igreja. São mantidos ali por crimes que o afastaram dos serviços eclesiásticos. Pedofilia, corrupção, roubo...

Pecado é pouco para enquadrar o que já fizeram. Ou fazem, Um dos curas, justamente o papel de Castro, mantém um galgo, um cachorro de corrida que treina para participar de competições e com isso o grupo faz algum dinheiro. Certo dia um jovem da comunidade vem gritar impropérios a porta contra um dos religiosos que o seviciou e molestou sexualmente na infância. O culpado não suporta e se mata. Chega um padre psicólogo para apurar o que se passa nessa estranha casa. Monta-se então um huis clos, um jogo dramático sombrio que expõe a personalidade doentia dos envolvidos. O filme é sombrio, até na fotografia, e não menos que provocador e incômodo. Estranhamente, também, há passagens que detonou um riso um tanto nervoso nos jornalistas durante a sessão. Larraín não imagina com o que pudessem rir, disse na entrevista, e lembrou as reações diversas que Post Mortem, um dos títulos da trilogia, teve nos países onde foi exibido. Se tanto há um humor negro gerado na condição absurda, no sentido do surreal, a que estão presos os religiosos. A impertinência de Larraín pode lhe custar um descrédito do júri, mas ninguém consegue ficar alheio ao que se discute ali. Em especial os países católicos, e o filme deve falar alto no Brasil. Um trabalho desde já marcante dessa Berlinale.

Nem tanto, ou bem menos, é o segundo e último competidor da casa. Já comentei que não gosto nada de Victoria, com sua única tomada a fazer valer a técnica mais do que a história, ou melhor roteiro, do qual esqueceram. Andreas Dresen é realizador respeitado por aqui e parecia instigar mais os jornalistas locais. As We Were Dreaming é apenas uma bem contada narrativa de jovens amigos, mais novos que os protagonistas de Victoria, que crescem juntos e na Alemanha oriental quando esta já se uniu a outro e buscam uma vida de provocações, com pequenos delitos, drogas e brigas entre gangues. O epicentro são Rico e Daniel, o primeiro boxeador e o mais desajustado da turma, em oposição ao outro, um pouco mais centrado mas também perdido em seus objetivos. Seguem as tentativas do bando em se impor com poder onde vivem, um tanto no caminho de Godfellas de Scorsese, como lembrou hoje Luis Carlos Merten depois do filme. Me parece que pode dizer mais aos alemães como uma revisão de um periodo de renovação, readaptação. A nós surge mais como retrato de uma geração, sem muitas cores.   CartaCapital

65 Festival de Berlim

A gota d água que faz a diferença

Patricio Guzmán apresenta o melhor filme até agora da competição, o que era esperado tanto quanto Terrence Malick apenas reeditar uma ideia com chances de se esgotar
por Orlando Margarido — publicado 08/02/2015 17h18

Acabei de chegar da sessão de El Botón de Nácar, o botão de pérola, o novo documentário do chileno Patricio Guzmán, seguida da conferência de imprensa. O mundo, e os jornalistas, estão malucos mesmo. Espremem-se para ver Nicole Kidman e deixam esse grande realizador a mingua. Não havia ninguém na sala, nadie! Por sorte alguns latinos de diferentes países seguraram um debate de alto nível e eu só não fiz minhas perguntas porque na terça-feira tenho marcada entrevista com Guzmán. Nem precisava ver o filme antes para agendar uma conversa. Basta o que ele já nos mostrou, A Batalha do Chile, Nostalgia da Luz, e tantos mais. Mas este novo não é menos que impactante, um fenômeno, de pesquisa, costura e proposta de reflexão, histórica, política... tudo cabe nesse pequeno botão cheio de significados, ao menos todo o Chile que o diretor busca examinar com obsessão. E a que se refere a peça? Quando os europeus chegaram ao país impondo a colonização, um militar inglês decidiu levar um índio para a Inglaterra e civilizá-lo. Vestiram-no com roupas européias e lá estava o botão que lhe valeu o apelido de Jimmy Bottom. Guzmán então nos leva a outro sentido do mesmo acessório, atravessando a história chilena até chegar a ditadura de Pinochet. Como se sabe, os militares jogavam os corpos dos militantes ao mar, de aviões. Por um incidente que o filme recria para explicar, um dos cadáveres, de uma mulher, foi parar na costa muitos anos depois, e intacto, para surpresa de especialistas. Com ela, vinha outro botão de pérola, grudado na barra de ferro que deveria ter feito o corpo afundar. Impressionante o relato, mas não se chega a ele de pronto.

Guzmán fala primeiro da água, de como o planeta e nós precisa dela. As imagens belissimas e um certo tom de especial da National Geographic é apenas uma introdução, que se sabe, não está ali por acaso num filme de chileno. Ele avançará as culturas indígenas que foram dizimadas por doenças trazidas pelos europeus de Fitzroy. Quem viu o maravilhoso espetáculo de Ariane Minouchkine em São Paulo, inclusive filmado e exibido na Mostra SP, assistiu a outra encenação da violência e do estrago feito. O diretor contempla três etnias para ilustrar o genocídio. Busca alguns de seus sobreviventes e registros antigos dos índios que pintavam seu próprio corpo com referências ao céu, a estrelas, ao universo, para se conectar com seus mortos. Tudo é circular e faz sentido num documentário do diretor. Antes foi o deserto, o Atacama, para falar da beleza e do mistério da luz, no mesmo local onde também foram enterrados os jovens considerados terroristas e hoje suas mães vasculham palmo a palmo para tentar encontrar os restos dos filhos. Um corpo não entregue é duas vezes uma morte, diz um entrevistado em El Botón. Do local mais seco do mundo, Guzmán parte agora para o mar. Tudo, a pesquisa, as fotos encontradas num museu alemão feitas por um missionário, são como que átomos que formam um documentário, explicou na coletiva Guzmán, dono de um fino humor e ironia inesperados para quem lida com tema tão sombrio e difícil. Há que se esperar que o júri tenha a sensibilidade de dar conta na premiação de um feito destes, e renovar uma tradição política que a Berlinale tem perdido, e a comprovação mais feia aconteceu no ano passado com um despropositado Urso de Ouro a um dos piores filmes da competição, e o pior entre os chineses concorrentes. O presidente Darren Aronofsky fez um belo trabalho em Veneza ao premiar Sokurov por seu Fausto. Mas talvez caiba mais a Claudia Llosa, que ganhou aqui com A Teta Assustada, o juízo mais claro e ponderado afinal de uma cultura próxima, inclusive de arroubos políticos.

 

E Malick soçobra...

Os filmes, claro, não se enfileiram ao acaso na ordem da competição. Do mar profundo de Guzmán se vai a superfície de Terrence Malick. Antes, no entanto, conto aqui um incidente que me levou a ter um domingo mais agitado do que previa. Pretendia ver El Botón... na sessão noturna que antecede aquela oficial de imprensa. Ajuda a manter o calendário razoável numa maratona como é a Berlinale. Deram com a porta na minha cara porque cheguei três minutos atrasado. Isto no meu relógio. No da organização que ali fica a barrar os incautos, eram cinco. Tanto faz. Neste corre corre, não é razoável complicar a vida dos profissionais, e sim facilitar. Mas isso é outra história. Acontece que para assistir a Guzmán esta tarde tive que reagendar minha entrevista com Jayro Bustamente, o diretor guatemalteco de Ixcanul, que não queria perder, e abrir mão da meia hora final do filme de Malick. Bem,por todos os motivos, inclusive a opinião dos colegas brasileiros, tudo se mantém no mesmo estado de coisas em Knight of Cups, o que não quer dizer que não darei nova chance ao filme em melhor condição. Acontece que temos aqui um repeteco mais da fórmula testada, e com bom resultado, em Árvore da Vida, do que no mais recente The Wonders.

Na verdade é uma mescla dos dois, pois há o homem aqui jogado em uma vida vazia e sem objetivo, um produtor de cinema interpretado por Christian Bale, as voltas com conquistas femininas, uma paixão melhor conduzida e flertes descartáveis. O homem como centro de um eterno questionamento e reflexão, a realidade supérfula em volta. Prossegue o tom metafísico e a água, no caso mais uma vez o mar, onde termina tudo, ou o cosmos, dando conta da finitude e pequenez, são o cenário para um jogo de oposição entre o humano e a natureza. A câmera deambula, preceito artístico dos filmes anteriores mais recentes, mas pouco se avança em relação a esses.  Muito mais sou o mar dos Açores do ótimo documentário de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, Rabo de Peixe. Vocês conhecem a dupla, melhor dizer o casal, do documentário anterior E Agora? Lembra-Me, que dá conta da condição de soropositivo de Joaquim e de como a doença o enfraquece. Neste agora eles voltam a trabalhar com um projeto iniciado em 2001 nas ilhas vulcânicas portuguesas para registrar a pesca tradicional, a lida dos pescadores em alto mar, perigos e cotidiano. Há belas cenas, e não pude deixar de lembrar em La Terra Trema, de Visconti, ao ver os barcos em círculo para puxar a rede com peixes. Mais uma vez, Nuno narra a viagem na toada de um João César Monteiro, com quem trabalharam e a quem dedicam o filme. Foi graças ao incidente, afinal, que corri para ver Rabo de Peixe, nome de uma comunidade açoriana, desta vez com entrada simpática garantida, e não me arrependi. Mais um belo filme para Amir Labaki, assim como El Botón, levar ao É Tudo Verdade.