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O médico cubano, o Facebook e a massa

por Lino Bocchini — publicado 28/08/2013 14h57, última modificação 28/08/2013 18h29
A foto do profissional de saúde sendo vaiado foi vista nesta terça-feira por milhões de pessoas na rede social, de forma espontânea. Não há campanha de TV que tenha a mesma eficácia.
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Capa da Folha desta terça-feira, onde primeiro foi divulgada a foto, que depois tomou a internet

A foto de Jarbas Oliveira, da Folhapress, em que médicas de Fortaleza vaiam um médico cubano, circulou o Brasil ontem e sua repercussão fizeram pelo Mais Médicos e a vinda dos profissionais de saúde estrangeiros mais do que qualquer campanha em horário nobre da TV poderia fazer. Manifestar-se publicamente de forma contrária à vinda de médicos estrangeiros em geral –e de Cuba em particular-- ficou mais difícil depois daquele clique.

Explico o motivo.

Comprada por CartaCapital, a imagem foi postada em nossa página no Facebook e, até as 13h desta quarta-feira, já tinha sido compartilhada mais de 20 mil vezes, “curtida” outras 8 mil vezes e comentada por 4 mil pessoas. A cada vez que alguém interage com um conteúdo no Facebook, ele aparece em sua “time line”, e acaba sendo visto por parte de seus contatos. O Facebook fornece ao administrador de páginas corporativas --como a de CartaCapital— o total de pessoas “impactadas” pelo post. Ou seja, em quantas na time line de quantas pessoas aquela informação foi vista. Neste caso, foram 1,5 milhão de pessoas.

O fenômeno ocorreu em algumas páginas pessoais. Na minha mesmo, onde postei uma foto da capa do jornal que tirei com meu celular, os números são semelhantes aos da página da revista, então faz sentido supor que um número semelhante de pessoas foram impactadas. O paraense Marcus Pessoa postou  em sua página pessoal uma montagem simples, ladeando a foto da Folhapress e uma imagem PB de Little Rock (EUA), de 1957, que mostra uma estudante negra chegando para seu primeiro dia de aula sem separação racial –e sendo hostilizada por colegas brancas. Mais de 30 mil pessoas compartilharam. Na página do Brasil 247 a onda foi ainda mais forte. Ao ser o primeiro veículo a escrever sobre o assunto e postar rapidamente na rede no começo da manhã, mais de 200 mil compartilharam o post. Certamente alguns milhões de pessoas viram esse conteúdo ontem ao longo do dia em sua tela.

O que tudo isso quer dizer?

Além do enorme impacto positivo na opinião pública quanto a vinda dos médicos estrangeiros, fica claro o potencial do Facebook enquanto comunicação de massa, pelo menos no Brasil. Os números batem a audiência da maioria dos telejornais, e ainda vêm acompanhados de um juízo de valor, de opinião. E isso, como se diz, “agrega valor”, especialmente num ambiente de posições exacerbadas –e muitas vezes pouco equilibradas.

O poder da criação de Mark Zuckerberg é bastante útil para gerar contrapontos aos grandes veículos de comunicação e disputar o imaginário e a opinião da população. Segundo dados do próprio Facebook, há 76 milhões de contas ativas no Brasil. Ok, outras dezenas de milhões de pessoas estão fora, mas praticamente a totalidade dos profissionais de comunicação e da parcela mais jovem da nação está diariamente se informando e formando sua opinião pelo que veem em sua "time line". Isso não é pouca coisa. Falar que 10 milhões de pessoas debateram o assunto ontem na rede social é estimativa modesta, e o número real é praticamente impossível de ser aferido mesmo pela empresa.

O Facebook como ferramenta de comunicação, tornando cada um ao mesmo tempo emissor de informação e comentarista pode ser interessante, ainda mais levando-se em consideração que quase toda nossa mídia tradicional trabalha dentro de uma mesma linha ideológica. No caso do médico cubano, escancarou o viés racista da ação, o que é obviamente bom.

Esse protagonismo do Facebook enquanto pauteiro geral da nação, influenciando grandes veículos, blogs e até conversas de boteco ou no almoço da firma, contudo, é perigoso. Haja visto o caminho que os protestos de junho ameaçaram tomar em um determinado momento. Ainda mais porque muita gente enxerga Facebook como se fosse um serviço público. Pessoalmente tenho críticas a certas políticas da empresa, como o veto a qualquer tipo de nudez e a proteção tênue da privacidade dos usuários. Mas trata-se de uma empresa privada, com interesses comerciais claros e que dita as regras que bem entender, desde que não desrespeite a legislação dos países em que atua. A função primordial do Facebook é dar lucro, e não pra prestar um serviço livre e gratuito à população.

Convém curtir com moderação.