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Google filtra notícias "ruins" e minimiza eliminação do Brasil na Copa

por Clarice Cardoso — publicado 11/07/2014 17h54, última modificação 16/07/2014 16h36
Em busca de manchetes mais "felizes", site diminui a importância de textos como os que abordavam a derrota histórica contra a Alemanha
TORSTEN SILZ/DDP/AFP
Google altera importância de notícias

Google altera importância de notícias para torná-las mais "virais"

Se palavras como "vergonha", "vexame" e "tragédia" estamparam as capas dos jornais nacionais e estrangeiros após a goleada de 7 a 1 sofrida pelo Brasil no jogo contra a Alemanha na Copa do Mundo, especialistas do Google fizeram um esforço consciente para evitar que esses termos se tornassem virais após a partida. Ou seja, quem navegasse pelas notícias usando o site de buscas não veria a história da goleada entre aquelas de maior destaque nas tendências.

A estratégia é parte de um experimento que tem acontecido em toda a Copa do Mundo e tem lugar em uma redação criada em São Francisco, na Califórnia, especialmente para tentar tornar virais os conteúdos mais buscados. A lógica ditaria que, dada a imensa quantidade de dados e de informações sobre os usuários que detém, o Google usasse as palavras-chave das buscas para fornecer conteúdos sob demanda. Contudo, o que esses cientistas fazem é usar esses dados para minimizar a importância de palavras tidas como negativas dentro de seus gigantescos bancos de dados. O conflito acontece quando se avalia que boa parte das manchetes produzidas contém palavras negativas.

De acordo com informações da National Public Radio, organização sem fins lucrativos norte-americana, se no começo do jogo contra a Alemanha a busca por músicas de incentivo correspondia a 18% das relacionadas ao Brasil, após o quinto gol alemão a palavra mais frequentemente associada ao País era "vergonha".

Foi neste momento que entrou em ação a tradutora do Google Luciana Meinking Guimarães, que listou termos considerados negativos nas 50 principais buscas que eram feitas no Brasil para priorizar aquelas que não mencionavam o termo. O objetivo era, segundo o Google, não "esfregar sal" sobre as feridas dos torcedores.

Em vez disso, a equipe do Google resolveu colocar como a pergunta mais importante do dia a busca "qual o maior placar vencedor na história das Copas do Mundo?", que ganhava força entre os internautas alemães. A estratégia foi a mesma utilizada depois de todos os jogos desta Copa do Mundo: ao fim da partida, os analistas elencavam as palavras mais importantes do dia, o que influencia o Google+, o Twitter e o Facebook, por exemplo.

O raciocínio por trás desse tipo de iniciativa parte do comportamento dos usuários na redes sociais (e dialoga com um estudo recentemente descoberto feito pelo Facebook): as pessoas tendem a compartilhar mais as postagens com conteúdos "felizes". Assim sendo, raciocinam os cientistas, um conteúdo noticioso terá mais chance de ser mais compartilhado se for considerado igualmente "feliz".

Para além do fato de o Google deter hoje o maior banco de dados de conteúdos indexados da internet, servir como base para boa parte do que se publica e elencar a informação por ordem de importância, há uma questão essencial a ser levada em conta no que diz respeito ao comportamento do brasileiro na internet: os mecanismos de busca são especialmente fortes para os leitores daqui encontrarem conteúdo jornalístico. De acordo com o Digital News Report 2014 do Reuters Institute for the Study of Journalism, um relatório anual publicado pela agência de notícias, 59% dos brasileiros consomem notícias a partir de buscas em mecanismos como o Google.

Ou seja, mais da metade dos leitores nacionais pode não estar recebendo esta e outras notícias de tom "negativo" em suas buscas. A questão, aqui, é que o jornalismo pautado pela lógica das redes sociais não segue, de forma alguma, o critério usado nas redações de todo o mundo para decidir o que deve ou não ser noticiado. E isso, por si só, representa um grande desafio para o jornalismo praticado no mundo digital.

Outro Lado

A assessoria de imprensa do Google no Brasil procurou a redação de CartaCapital para enviar o seguinte comunicado: "Durante a Copa do Mundo, compartilhamos mais de 150 cartões informativos em 13 línguas com tendências de buscas que julgamos interessantes e relevantes. Nosso objetivo principal é, acima de tudo, compartilhar aquilo que importa para a maior parte das pessoas num determinado momento. Se desejarem, os usuários sempre podem consultar o google.com/trends para ver os tópicos que estão em alta nas buscas do Google."