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Blog de Leandro Fortes

por CartaCapital — publicado , última modificação 13/08/2013 17h35

Depois da bolinha de papel de Serra, a farsa do processo de Alckmin contra a Siemens

Circo tucano

por Leandro Fortes — publicado 13/08/2013 17h36

Agora, falando sério.

Quem, pelas pedras pisadas do cais, deu essa ideia de jerico ao governador Geraldo Alckmin? Em que mundo vivem os tucanos de São Paulo, ainda crentes da possibilidade de enganar um país inteiro com uma maluquice dessas? Não aprenderam NADA com o episódio da bolinha de papel de José Serra? Nada, nada?

A meu ver, a única explicação para uma saída indecente e patética como essa – o suspeito de ser corrupto processar o corruptor que está colaborando com a Justiça – é a plena confiança que essas lideranças do PSDB têm na submissão e na cumplicidade dessa velha e carcomida mídia nacional. Não tem outra explicação.

Quando li essa informação na coluna de Mônica Bergamo, a quem admiro como ótima jornalista que é, juro que pensei que era mais uma sacanagem de José Simão. Mas não era. 

A notícia de que Alckmin, um dos principais suspeitos de ter montado e se beneficiado do esquema de propinas da Siemens, irá processar a empresa alemã foi dada de forma séria, como se isso fosse possível, como se fôssemos, todos nós, idiotas ligados aos tubos da Matrix.

Eu compreendo os conservadores, essas pessoas que têm uma visão individualista do mundo, das relações sociais, que imaginam ser o liberalismo econômico a única saída para o pleno desenvolvimento social. A vida seria insuportável se todos pensassem da mesma forma – e eu não teria com quem quebrar o pau no Facebook. A direita deve ter seu encanto, senão não teria tanta gente com ódio do Bolsa Família e com tanta saudade da ditadura militar.

Mas eu acho que, agora, essa discussão deve se sobrepor ao posicionamento político de cada um. 

O grupo político que arrota austeridade, choques de gestão e aponta o dedo na cara de mensaleiros e petralhas é este que, agora, está sob a mira da Justiça suíça e do Ministério Público de São Paulo, embora deste último não se deva esperar muita coisa contra os tucanos.

Este grupo político, há quase duas décadas no governo de São Paulo, inclui, além de Geraldo Alckmin, o falecido Mário Covas e o vivíssimo José Serra. 

A história de Covas, é uma pena, não merecia essa mácula, mas o fato é que o esquema da Siemens começou com ele. É pouco provável que ele não soubesse do que estava acontecendo, ainda mais porque o negócio, ao que tudo indica, era tocado por um assessor direto dele, Robson Marinho.

Alckmin, este que quer processar a Siemens, deu andamento e tamanho ao esquema. Serra foi o feliz herdeiro que, segundo e-mails trocados por executivos da empresa alemã, costurava os acordos para modernizar a formação do cartel.

Não tenho dúvidas de que jornalões e alguns jornalistas dessa triste mídia brasileira irão, apesar do ridículo, endossar essa estratégia de Alckmin para manter o mínimo de dignidade eleitoral dos tucanos, para manter viva a esperança de derrotar Dilma Rousseff, de qualquer maneira, em 2014. 

O Jornal Nacional fez esse serviço, em 2010, quando inventou que Serra, além da bolinha de papel, havia levado na careca um petardo de rolo de fita crepe de 100 quilos.

Mas e as pessoas decentes, de boa fé, estas que foram à rua bradar contra a corrupção quando o gigante acordou?

O que farão essas pessoas? 

Vão se deixar cair, novamente, no conto da bolinha de papel? 

Vão compactuar com mais essa palhaçada apenas para manter alimentado o bicho conservador e antipetista que têm na barriga?

Arapongagem de Goiás volta a atacar

Dessa vez, a vítima foi o empresário Júnior Friboi, pré-candidato do PMDB à sucessão do tucano Marconi Perillo, em 2014
por Leandro Fortes — publicado 15/07/2013 18h59, última modificação 18/07/2013 17h33
Wilson Dias / ABr
marcono perillo.jpg

O governador de Goiás, Marconi Perillo (à esq.), do PSDB

A central clandestina de grampos de Goiás montada pelo governador Marconi Perillo, do PSDB, revelada por reportagem da CartaCapital há três meses (leia aqui), continua impune e agindo à luz do dia.

Quatro notas postadas no site “Goiás 24 horas” no domingo, 14 de julho, dão conta de detalhes sobre o conteúdo da página eletrônica do empresário José Batista Júnior, dono da Friboi, a maior empresa de carne do mundo. Júnior Friboi, como é mais conhecido o empresário, é o virtual candidato do PMDB à sucessão de Perillo, em 2014. Ocorre que o site em questão não está no ar, nem sequer foi apresentado ao candidato.

O “Goiás 24 Horas” faz parte de uma mídia subalterna comandada por Perillo na internet. Trata-se de reduto da turma de bajuladores profissionais de Perillo da qual também faz parte o casal Luiz Gama e Eni Aquino, também radialistas e desastrados chefes da grampolândia especializada, exatamente, na invasão de sites e perfis de rede social a mando do governador tucano.

As informações roubadas pelos arapongas goianos fazem parte de um protótipo do site de Júnior Friboi ainda em construção, sob responsabilidade da agência de propaganda Casa Brasil, de Goiânia. Em um dos posts, inclusive com imagens tiradas do site nunca publicado do empresário, a turma de espiões trapalhões confessa o crime. “Está no forno o novo site do magnata”, avisa o Goiás 24 Horas, para em seguida avisar: “O site vai entrar no ar com o endereço www.josebatistajunior.com.br”, afirma ao se referir a um domínio de internet inativo. Tanto que, ao clicar no endereço, o internauta recebe o seguinte aviso: “Blog do José Batista Júnior – em manutenção”.

O empresário e pré-candidato do PMDB goiano ainda não decidiu se irá pedir uma investigação a respeito. Júnior Friboi sabe que, em Goiás, o aparato de segurança pública ainda é dominado pelo esquema do bicheiro Carlinhos Cachoeira, aliado de Perillo. De qualquer forma, mandou reforçar a segurança virtual do site até que seja apresentado o modelo definitivo.

A vez dos pobres

Decisão de obrigar estudantes de medicina a servir ao SUS não é só correta e necessária - é fundamental para o processo civilizatório brasileiro
por Leandro Fortes — publicado 12/07/2013 11h37, última modificação 12/07/2013 12h47

Em meio às atabalhoadas reações do governo às manifestações de rua, da constituinte exclusiva ao plebiscito natimortos, a presidenta Dilma Rousseff se saiu muito bem ao mexer na estrutura de dominação social brasileira com essa história de botar os formandos em medicina para trabalhar no Sistema Único de Saúde, a partir de 2015. Trata-se de uma discussão antiga e necessária, mas que, até agora, ninguém tinha tido coragem de levar adiante. Pela reação das corporações de médicos e da nação de coxinhas de jaleco que se manifesta nas redes sociais, sem falar nos suspeitos de sempre da mídia, tudo leva a crer que Dilma mandou muito bem nesse assunto.

Todo mundo sabe que, no Brasil, as universidades públicas sempre foram um privilégio da classe média e dos ricos, quadro que só foi levemente modificado na última década graças às políticas de cotas raciais e sociais implementadas, sobretudo, no governo Lula. Lembro que, durante os governos do professor, sociólogo, intelectual, PhD e, agora, imortal da Academia de Letras Fernando Henrique Cardoso, a criminosa expansão do ensino superior privado levou essa distorção ao paroxismo.

Na Era FHC, nenhuma universidade federal foi criada, mas, em contrapartida, milhares de fábricas de diplomas se espalharam pelo território nacional para, paradoxalmente, abrigar os estudantes pobres e trabalhadores. Pior, com um sistema de crédito estudantil bolado por uma tecnocracia cruel, neoliberal, que comprometia a renda do infeliz até pelo menos quatro anos depois da formatura. Nos anos 1990, chegou-se ao cúmulo de que, em certo momento, nas universidades federais, a grande discussão dos estudantes não era sobre a qualidade do ensino, mas a falta de vagas nos estacionamentos das faculdades!

Na contramão de muita gente, sou favorável ao serviço militar obrigatório, pois se todos usufruem da pátria, é também dever de todos defendê-la. Li e vivi o suficiente, em quase meio século de vida, para saber que a paz é um muro de cristal e o preço da liberdade, como diz o velho axioma, é a eterna vigilância. Acho, apenas, que a doutrina militar brasileira, encapsulada ainda na Guerra Fria, tem que ser revista e refeita para que o conceito de defesa nacional não esteja arraigado apenas ao uso da farda. No mais, não é justo que a massa de recrutas brasileiros continue formada quase que exclusivamente por meninos pobres e negros.

Também gosto de lembrar que o voto não é obrigatório no Brasil, mas, sim, o comparecimento às urnas. O cidadão pode ir lá, no local de votação, e não votar em ninguém, simples assim. As restrições a essa obrigatoriedade de deslocamento se parecem muito com a banalização da crítica aos parlamentos, baseada em palavras de ordem que escamoteiam o efeito manada embutido nesse tipo de manifestação. Isso porque não há um único parlamento brasileiro (municipal, estadual e federal) que não seja composto por políticos escolhidos em eleições livres. Se são todos corruptos e ladrões, o são, também, aqueles que os elegeram.

Não sei se a presidenta foi correta ao estender a obrigatoriedade de serviço ao SUS para os estudantes de medicina das faculdades privadas, embora não veja nisso nenhum bicho-de-sete-cabeças. Talvez fosse o caso de impor a regra somente àqueles que estudaram com bolsa do Estado, como os beneficiários do Prouni.

De qualquer maneira, o fato é que esse poderá ser o primeiro passo para a construção de uma nova e essencial cultura de solidariedade cidadã com resultados óbvios para o processo civilizatório nacional. Mais à frente, espero, será possível estabelecer regras para que todo formando de universidade pública seja obrigado, em algum momento de seu curso, ou mesmo depois de receber o diploma, a prestar algum serviço para a sociedade que financiou seus estudos.

Ah, e que venham, também, os seis mil médicos cubanos.

Acuadas pela blogosfera, embora protegidas pelas empresas de comunicação coirmãs, as Organizações Globo, quem diria, vivem dias de vidraça

O povo não é bobo

por Leandro Fortes — publicado 10/07/2013 15h45, última modificação 10/07/2013 16h02

Enquanto ainda alimenta a fantasia das “manifestações pacíficas” que cobriu, covardemente, do alto dos prédios das cidades, com repórteres postados como atiradores de(a) elite, a Rede Globo se vê, finalmente, diante de uma circunstância que não consegue dominar, manipular e, ao que parece, nem mesmo entender. Aliás, que jamais irá entender, porque se tornou uma instituição não apenas descolada da realidade, mas também do tempo em que vive. Ela e a maior parte dos profissionais que nela trabalham, estes que acreditam ter chegado ao topo da profissão de jornalista quando, na verdade, estão, desde muito tempo, vinculados ao que há de mais obsoleto, atrasado e cafona dentro do jornalismo nacional.

O poder da blogosfera progressista e de esquerda, que tanto incomoda, portanto, a conservadores e direitistas (partindo do pressuposto otimista de que há eventual separação entre eles), lançou-se numa organizada empreitada de apuração jornalística que fez a gigante platinada do Jardim Botânico tremer nas bases e, mais de uma vez, colocar pelo menos um dos joelhos no chão.

A partir de um superfuro do jornalista Miguel do Rosário, do site O Cafezinho, estabeleceu-se na blogosfera uma correia de transmissão informal, mas visceralmente interconectada, sobre o megaesquema de sonegação fiscal montado pelas Organizações Globo que resultou, em 2006, numa cobrança superior a 600 milhões de reais — 183 milhões de imposto devido, 157 milhões de juros e 274 milhões de multa. Foi resultado do Processo Administrativo Fiscal de número 18471.000858/2006-97, sob responsabilidade do auditor Alberto Sodré Zile. Como o auditor constatou crime contra a ordem tributária, abriu a Representação Fiscal para Fins Penais sob o número 18471.001126/2006-14.

Na sequência, outros três dos mais ativos blogueiros do País, os jornalistas Luiz Carlos Azenha, Rodrigo Vianna e Fernando Brito, respectivamente, do Viomundo, O Escrevinhador e do Tijolaço, estabeleceram uma sequência formidável de fatos que deram um corpo sólido à história levantada por O Cafezinho:

1)   A multa da Receita, de mais de 600 milhões de reais (1 bilhão de reais, em valores atualizados), de 2006, é referente a sonegação fiscal praticada na compra, pela TV Globo, dos direitos de transmissão da Copa de 2002. Envolve, ainda, ligações com dois criminosos internacionalmente conhecidos: João Havelange, ex-presidente da FIFA, e Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF.

2)   Em 2007, uma funcionária da Receita Federal, Cristina Maris Meinick Ribeiro, foi denunciada pelo Ministério Público Federal por ter dado sumiço no processo contra a Globopar, controladora das Organizações Globo, por sonegação fiscal.

3)   Como não poderia deixar de ser nesses casos, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, deu sua contribuição às trevas: foi ele que relatou o habeas corpus que soltou a funcionária da Receita, depois da ação de CINCO advogados junto ao STF.

Sempre tão poderosa e segura de seus privilégios, as Organizações Globo entraram nessa briga mais ou menos como Anderson Silva diante de Chris Weidman, no octógono de Las Vegas. Acharam que estavam diante de adversários menores e insignificantes, mas, como se sabe, a soberba é o sentimento imediatamente anterior à queda.

Em apenas três semanas de contínua e criteriosa apuração da blogosfera, a Globo se perdeu em versões sem sentido e recuos de informação, admitiu a culpa da sonegação e justificou-se com um pagamento alegado, mas nunca provado. Teve, pela primeira vez desde que foi criada no ventre da ditadura militar, que se pronunciar publicamente sobre uma denúncia contra si, desgostosa de que isso tenha acontecido fora de seu espectro de dominação, a velha e reacionária mídia nacional, da qual é líder e paradigma. A poderosa vênus platinada teve que responder, primeiro, ao O Cafezinho, de Miguel do Rosário, e depois às redes sociais, ao País, enfim.

Soubemos, assim, que as Organizações Globo, que vivem de concessões públicas e verbas oficiais, ao serem confrontadas com a informação sobre o roubo do processo pela funcionária da Receita Federal, divulgaram uma nota dizendo terem tido uma “grande surpresa” ao saberem da ação criminosa perpetrada por Cristina Maris Meinick Ribeiro.

Então, está combinado assim:

1)   Cristina, funcionária de carreira da Receita, enlouqueceu em uma manhã de 2006 e, do nada, apenas movida pela índole de anjo e pela vontade de ajudar a pobre Rede Globo, decidiu por conta própria roubar e desaparecer com o processo de sonegação fiscal de 600 milhões de reais da família Marinho. Depois, conseguiu pagar, sozinha, cinco advogados para arranjar um habeas corpus com o inefável Gilmar Mendes;

2)   Em seguida, o Ministério Público Federal, então comandado pelo procurador-geral da República Antonio Fernando Souza, denunciou Cristina Ribeiro pelo sumiço da papelada, que resultou na condenação da referida servidora a 4 anos e 11 meses de cadeia, segundo sentença da Justiça Federal do Rio de Janeiro. Isso em 2007, tudo na surdina, sem que um único procurador da República tenha se preocupado a vazar um fato grave desse para a imprensa ou, no limite, para jornalistas com atuação independente na blogosfera. Nada comparável à fúria e à disposição do mesmo Antonio Fernando ao dar publicidade à denúncia do “mensalão”, notícia, desde então, incorporada à grade de programação da Globo como um coringa usado tanto em época de eleição como nos espasmos de epilepsia antipetista, aliás, recorrentes na emissora.

Talvez, de tanto viver na dimensão onírica de suas telenovelas, ou na falsa percepção que alguns dos seus sorridentes jornalistas têm do mundo real, a Rede Globo ache, de fato, que é possível fazer o contribuinte acreditar de que ela nada tem a ver com o roubo do processo da Receita Federal. Afinal, somos todos uma nação de idiotas plugados no Caldeirão do Huck, certos de que, ao morrermos, teremos nossas almas levadas ao céu pela nave espacial da Xuxa.

Ou seja, os de lá não aprenderam nada com o debate Lula x Collor, em 1989, nem com a bolinha de papel de José Serra, em 2010, duas farsas desmascaradas, cada qual a seu tempo, pela História. Não perceberam que a internet acabou com a era das fraudes de comunicação no Brasil e no mundo.

Apostam as últimas fichas na manada que reuniram em cinco décadas de monopólio de um império movido a entretenimento e alienação. Mas esse gado que foi alegremente tangido por vinhetas e macacas de auditório ganhou, com o fenômeno da rede mundial de computadores, novas porteiras e, com elas, uma perspectiva real de liberdade.

O silêncio envergonhado e vergonhoso dos tristonhos oligopólios de mídia brasileiros sobre uma notícia tão grave é, antes de tudo, revelador das nossas necessidades.

Fico imaginando qual seria a capa dos jornalões e das revistas coirmãs se fosse Lula a dever mil réis de mel coado à Receita Federal. E se descobrissem, no curso da apuração, que um militante aloprado havia lhe feito o favor de roubar o processo judicial a respeito. As massas seriam, no mínimo, conclamadas a linchar o ex-presidente e pedir as Forças Armadas nas ruas.

Por essa razão, enquanto o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, se dispõe a ir às páginas amarelas da Veja se colocar – e ao governo do PT – de joelhos perante quadrilhas ligadas a bicheiros e a esquemas de sonegação fiscal, a ação periférica da blogosfera rouba o protagonismo que antes era dessa autointitulada “grande imprensa”.

E, para tal, faz apenas o que tem que ser feito: jornalismo.

Marcelo Neri, presidente do Ipea e ministro interino da SAE, disse o que nem o mais aguerrido dos petistas teve coragem de dizer: a periferia não está presente nas manifestações

Na ferida

por Leandro Fortes — publicado 01/07/2013 16h31, última modificação 01/07/2013 16h58

Marcelo Neri, presidente do Ipea e ministro interino da SAE, não poderia ter sido mais honesto - e corajoso - ao identificar com clareza o perfil das manifestações de junho. E as reações à fala dele, de que a periferia não está presente no piquenique cívico montado nas ruas, revelam muito do grau de manipulação envolvido no tema.

Claro, não há porque negar à classe média o direito de pedir por um Brasil melhor e demonstrar sua insatisfação "com tudo isso que está aí". É como uma miss clamando pela paz mundial: todo mundo sabe que é um nado de superfície, mas não há razão para recriminar a intenção da moça.

Mas o fato que "tudo isso que está aí" interessa a muita, muita gente mesmo. Antes de "tudo isso que está aí", os governos governavam para uma minoria exigente e centralizadora, herdeira direta dos maus modos da Casa-Grande. Na última década, as políticas de distribuição de renda calcadas em programas de assistência social modificaram a configuração da sociedade brasileira e conferiram ao País uma nova divisão interna, e não apenas baseada na cultura do consumo - embora isso tenha sido também muito importante.

Não se deve ignorar a força desse movimento que tomou as ruas, mas não deixa de ser óbvio que essas passeatas de reivindicações difusas dizem respeito quase que exclusivamente aos anseios e frustações da classe média, sobretudo essa mais triste e conservadora que sofre da doença infantil do antipetismo.

Basta dar uma olhada, no Facebook, no perfil de muitos dos manifestantes que gritam na tag #ogiganteacordou. Quase sempre uma multidão de bem nascidos em plena euforia de adolescência cívica, sequiosa de participar das manifestações para dizer, lá na frente, que, sim, eu fui, tenho até a camiseta.

O apoio tardio da velha mídia e a adesão histérica de seus colunistas de plantão nos dá essa dimensão exata. Não tem nada a ver com inflação (6% ao ano, oh!) nem muito menos com a corrupção, que é uma falsa bandeira montada no mastro do moralismo de ocasião. No caso, foi hasteada para ser cavalo-de-guerra nas eleições de 2014, contra o PT, naturalmente, apontado pelo subcolunismo nacional como inventor da corrupção pátria.

Só para lembrar: um levantamento feito, no ano passado, pelo Movimento de Combate a Corrupção Eleitoral (MCCE), revelou o Ranking da Corrupção no Brasil e o partido que ficou em primeiro lugar foi o DEM. Em seguida vieram o PMDB (segundo lugar) e PSDB (terceiro lugar). O PT ocupa a nona posição.

A questão que está intrínseca na declaração de Marcelo Neri é a de que essa maioria silenciosa assim continuará, pela simples razão de, apesar de ser maioria, viver na invisibilidade midiática desde sempre. Além disso, ela sabe que quando se manifesta as balas que lhe são dirigidas pela PM não são de borracha, mas de chumbo grosso.

Essa questão de visibilidade, na verdade, um privilégio de classe, dá às manifestações o poder de agendamento, o que de fato ocorreu no governo do PT e no Congresso Nacional, onde autoridades e políticos apavorados correram para reformar a República antes de perderem as cabeças. Porque os políticos vivem, em sua maioria, dos votos dos pobres, mas têm medo mesmo é da classe média e dos ricos. E dos oligopólios de mídia, aos quais se submetem de forma tão rastejante como apartidária.

No rastro desse desespero, transformaram a corrupção em crime hediondo, quando o fundamental - botar a mão nos corruptores - nunca aconteceu no Brasil. Basta lembrar que o banqueiro Daniel Dantas, condenado a 10 anos de prisão por subornar um delegado federal, simplesmente conseguiu anular a operação Satiagraha no Superior Tribunal de Justiça.

Dantas está livre, certamente apoiando as manifestações, como também Luciano Huck, Regina Duarte, Angélica e, agora, a blogueira cubana Yoani Sánchez, musa da extrema-direita latino-americana e especialista do Instituto Millenium, a maior confraria de coxinhas do País.

Neri está correto. Não há negros nas ruas, assim como não os há (e nunca haverá, com ingressos tão caros) nos estádios milionários sobre os quais paira todo tipo de suspeita de superfaturamento e desvios de conduta e verba. Mas que andam lotados de gente branca e feliz, as mesmas que, paradoxalmente, encheram as ruas para, vejam vocês, reclamar de "tudo isso que está aí".

A inacreditável saga do plebiscito que foi sem nunca ter sido

Dilma no labirinto

por — publicado 26/06/2013 09h49

Os últimos movimentos do Palácio do Planalto, erráticos e orientados por estratégias de marketing, produziram uma pequena tragédia de comunicação baseada nessa hipótese de assembleia constituinte específica que, menos de 24 horas depois, começou a se dissolver no ar entre desmentidos e versões até chegar a essa melancólica justificativa do não-foi-nada-disso-que-a-presidenta-falou. Foi, sim, o que ela disse, e se o caminho do governo do PT é achar que todos são idiotas, o melhor que o eleitorado de esquerda e progressista tem a fazer, daqui em diante, é buscar uma alternativa para 2014.

Dilma colocou claramente a possibilidade de se convocar uma assembleia constituinte para a reforma política por meio de um “plebiscito popular” (alô, assessoria do Planalto, ninguém aí estudou pleonasmo no colégio?). O plebiscito é uma boa ideia e uma boa resposta ao movimento das ruas. O fato de, após o anúncio, terem surgido resistências políticas e notícias de impedimentos legais não deveria ter sido razão para o governo voltar atrás de forma dissimulada. Qual o problema de, ao invés de nos acusar de mal entendedores, simplesmente reconhecer que, apesar da boa fé da proposta, ela é inexequível?  Malandragem, dá um tempo.

Não há dúvida de que a reforma política é uma necessidade premente da vida nacional, e não é de hoje. Não somente Dilma, mas qualquer um que acompanhe minimamente a dinâmica do Congresso Nacional, sabe que com esse quadro de parlamentares que aí está não será possível aprová-la a contento, simplesmente, por falta de interessados no assunto. Um dos pontos principais da propalada reforma, o financiamento público de campanhas eleitorais, tem o enorme potencial de encerrar o ciclo de formação de caixa dois no Brasil, origem e causa de todos os “mensalões” e, principalmente, fonte essencial de enriquecimento ilícito da canalha política tupiniquim. Isso significa que para boa parte das bancadas do Congresso o fim do financiamento privado será o colapso de uma relação corrupta e ancestral da política com o empresariado nacional, cuja base de entendimento mútuo ainda se faz a partir de acordos de cooperação clandestina, mandato a mandato.

O exército de colunistas da mídia, no entanto, já foi colocado de plantão em torno de uma tese irracional e mesquinha: o financiamento público, obviamente a ser definido a partir do tamanho das bancadas, irá beneficiar o PT. Trata-se do antigo método de se basear num pressuposto verdadeiro para sustentar uma mentira. Olhar uma medida dessa envergadura, de efeito claramente universal, apenas pela ótica da circunstância é típico dessa imprensa ruim e carcomida que sobrevive à sombra dos monopólios e, ironicamente, às custas de financiamento público. Quando tinham um preferido na Presidência, apoiaram a emenda da reeleição (com compra de votos no Congresso) e deram manchetes para a disposição de Fernando Henrique Cardoso em criar, vejam vocês, uma assembleia constituinte exclusiva para fazer... a reforma política!

O fato é que, já no tempo de FHC, essa era uma boa ideia. O Parlamento brasileiro está viciado em negociatas e a tradição republicana de conchavos em nome da governabilidade não ajuda em nada na desintoxicação do ambiente. Criou-se uma ciranda de acordos espúrios em troca da manutenção das políticas de governo onde as ideologias foram dissolvidas de forma desavergonhada, a ponto de 10 anos de governo petista terem agregado à história do partido gente do nível de José Sarney, Fernando Collor de Mello, Kátia Abreu e Paulo Maluf. Sem falar na recente contribuição de Dilma à essa bazófia ao contratar o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif, como ministro das micro e pequenas empresas – seja lá o que isso signifique.

Novamente acuado, o PT se põem, agora, a ouvir sermões aqui e alhures, inclusive de arrivistas políticos profissionais, sobre sua pertinente proposta de plebiscito. Por não ter coragem de, outra vez, encarar o conflito, voltou a passar a imagem de um governo perdido, teleguiado pela marquetagem, incapaz de fazer sua maioria no Congresso se movimentar, quanto mais ressuscitar a velha militância petista de outrora, envelhecida pelos anos de poder e embriagada pela perigosa sensação de que a reeleição de Dilma, no ano que vem, são favas contatadas.

As gigantescas manifestações País afora caminham para o precipício

Ressaca cívica

por Leandro Fortes — publicado 21/06/2013 11h23

A dignidade e o objetivo inicial do movimento, cujo foco era baixar o preço do transporte público em São Paulo, catalisou um certo desespero social que, em boa medida, só se transformou nessa catarse social depois que a PM de São Paulo barbarizou com manifestantes e jornalistas. Mas, agora, isso já era.

Um outro contingente, violento e ameaçador, descobriu nas manifestações populares dos últimos dias uma maneira de expurgar seus próprios demônios na base do grito, da pedrada e da destruição.

Assim, passamos a nos acostumar a ver pela televisão um evento em dois atos: a passeata pacífica, multicultural e de reivindicações difusas (ontem, em São Paulo, um grupo protestava contra a alta de preços das rações para cães); e a barbárie de manifestantes que, no fundo, não querem se manifestar sobre nada. Querem se vingar da sociedade, da polícia, do chefe, do vizinho, da vidinha de merda que levam, na base da porrada.

Essa circunstância diz respeito a todos nós, cidadãos e governos.

Parecia ser muito bonito ir para a rua e incentivar manifestações de massa sem nenhum objetivo real, um fenômeno novo e ainda difícil de ser dimensionado.  Mas, sabemos, agora, não é. Longe de ser uma manifestação popular, no sentido da presença do povo propriamente dito, essa corrida para as ruas tornou-se um movimento contra a política, sob a fachada de ser contrário ao partidarismo. Assim, criou-se a ideia de que se manifestar é fazer um piquenique cívico, quase uma opção de lazer para as famílias de classe média e pais separados levarem as crianças para brincarem de democracia.

Certa de que poderia se apropriar da alma das manifestações, a direita brasileira fez uma rápida correção de rumo, logo no início do processo, de modo a transformar em vigilantes da liberdade aqueles que, quando sob fogo cerrado da PM de São Paulo, eram tratados como vagabundos, desordeiros, vândalos, desocupados e terroristas a soldo do comunismo internacional. Pedir por 20 centavos não era só inaceitável, era o prenúncio do reino da baderna. Choveram, então, editoriais nos jornalões a pedir mais e maior repressão policial.

Calcada, como de costume, na doença infantil do antipetismo, coube à mídia fazer essa migração na maior cara de pau, mas de modo organizado e disciplinado, instrumentalizado por uma cobertura ostensiva de flashes e plantões ao vivo. Do alto de prédios, com repórteres postados como atiradores de elite, e de helicópteros prateados, a TV Globo assumiu a tarefa de comandante-em-chefe dessa missão. Era uma chance de ouro de inserir na pauta dos manifestantes a agenda da oposição, fomentar um “fora Dilma” e, é claro, usar o coringa do “mensalão”. Em pouco tempo, as emissoras coirmãs se adaptaram direitinho ao discurso global: as manifestações são shows de democracia prejudicados por minorias radicais.

Ocorre que, além dos arruaceiros e marginais que destroem prédios e botam fogo em lixeiras, também os partidos políticos – e a política em si – passaram a ser tratados como minorias radicais. Dessa forma, passou-se a achar normal, quando não recomendável, expulsar militantes partidários da democrática reunião cívica das ruas na base da pancada e da paulada na cabeça, se preciso for.

Agora, chegou-se ao ponto de que ninguém mais sabe o que fazer.

As pessoas de boa fé os patriotas de coração estão se vendo na contingência de servir de escada para sociopatas com pedras nas mãos.

A mídia, acostumada a se aliar ao tom suave das passeatas pela paz na Zona Sul do Rio, começa a perceber que talvez tenha virado a casaca cedo demais.

O dilema dos Williams

Apoio tardio a manifestações, inaugurado com mea culpa patético de Arnaldo Jabor, não convence sobre paixão repentina de Bonner e Waack pelas massas
por Leandro Fortes — publicado 19/06/2013 08h01, última modificação 19/06/2013 09h19
Mídia NINJA
manifestantes sp

Manifestantes reunidos em frente à prefeitura de São Paulo na noite da terça-feira 18

As Organizações Globo, como se sabe, agora apoiam as manifestações do Movimento Passe Livre e as outras que se seguiram para protestar contra a inflação, a corrupção, a carestia, o aborto, a Copa das Confederações, a Copa do Mundo, o amor entre iguais, o casamento gay, a caça as baleias, a minissaia, os médicos cubanos, o pastor Feliciano e o terrível hábito de certos elementos de peidar sob as cobertas.

Ocorre que como esse apoio foi tardio e, pior, inaugurado com um mea culpa patético de Arnaldo Jabor, o Bufão do Jardim Botânico, pouca gente se convenceu ainda da repentina paixão dos Willians (Bonner e Waack) pelas massas.

Assim, tornou-se praticamente impossível aos repórteres da Globo comparecer aos protestos sem serem hostilizados pelos manifestantes. Até a tentativa de tirar os cubos com a identificação da emissora dos microfones se mostrou inútil. Sempre aparece um estraga prazeres para gritar: "É da Globo!".

O jeito foi inaugurar uma ampla e ostensiva cobertura aérea, na qual apreensivos repórteres metidos em voos noturnos de helicóptero ficam, lá do céu, apontando o inferno na terra.

Engraçado é notar, ainda, que o apoio às manifestações acabou mudando o léxico das narrações. Antes, quando a linha editorial era, digamos, jaboriana, todos eram vândalos e desocupados. Agora que os protestos incluem as bandeiras do mensalão e da hiperinflação imaginária, quando localizam, lá do alto, os baderneiros quebrando vidraças e incendiando carros, os repórteres da Globo se referem a eles como "manifestantes mais violentos".

E a câmara volta para o rosto visivelmente contrafeito de William Bonner.

A própria imagem da nação ultrajada.

Ode à baderna

Nada mais assustador para um conservador do que a baderna
por Leandro Fortes — publicado 14/06/2013 12h31, última modificação 14/06/2013 18h53
Mídia NINJA
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A moçada parou São Paulo para reclamar do aumento da tarifa do transporte público? O promotor mentecapto, parado no trânsito, pede a PM para espancar e matar os manifestantes. Foto: Ninja

Um dos discursos mais comuns à direita brasileira é esse: peçam o que quiserem, digam o que quiserem, mas não façam baderna. E, sobretudo, não atrapalhem o trânsito. Não por outra razão, qualquer cobertura da mídia nacional sobre passeatas, manifestações e grandes movimentações de massa acabam, sempre, em manchetes de trânsito. Os camponeses foram a Brasília pedir reforma agrária? Atrapalharam o trânsito. As mulheres da Marcha das Margaridas invadiram as Esplanada dos Ministérios para pedir saúde e educação no campo? Provocaram engarrafamentos. A moçada parou São Paulo para reclamar do aumento da tarifa do transporte público? O promotor mentecapto, parado no trânsito, pede a PM para espancar e matar os manifestantes. Afinal, o filhinho dele está na escola. Mas como chegar para pegá-lo a tempo, se os bárbaros impedem o trânsito?

Quando, além de parar o trânsito, os manifestantes fazem baderna, aí não! Aí já é demais! Não pode ter baderna. Tem que ser como aquelas passeatas pela paz na Zona Sul do Rio de Janeiro, todos de branco na Avenida Atlântica, copos-de-leite às mãos, o trânsito compreensivelmente parado para a procissão de cidadãos contritos. A polícia, claro, à distância, com as sirenes reverencialmente desligadas. Tudo assim, sem baderna, dentro da lei e da ordem. A manifestação do mundo ideal.

Pena que para quem pega quatro conduções por dia e gasta em média quatro horas dentro delas (ou esperando por elas) a realidade seja outra. No mundo do transporte público não tem hakuna matata. O pau come no ponto, no ônibus lotado, nas estações de trem e metrô diariamente conflagradas. Para o usuário de transporte coletivo, todo dia tem confusão e baderna, mas é difícil explicar isso para o mundo da Avenida Paulista. Para a classe média bem motorizada, as demandas do transporte coletivo são subterrâneas, confinadas a um universo específico sobre o qual só se tem notícia quando motoristas e cobradores entram em greve. É o dia em que a patroa de Higienópolis se inquieta porque a empregada vai chegar mais tarde ou, horror dos horrores, nem vem trabalhar. Quem vai fazer almoço? E os petizes, sob a guarda de quem ficarão no playground?

E, de repente, vem a baderna.

Multidões de cidadãos, jovens, velhos, brancos, negros, empregadas, office-boys, desempregados, professores, trabalhadores, trabalhadoras, desocupados. Baderneiros. Quebram ônibus, depredam vidraças, picham paredes, revolvem a cidade e deixam marcas no asfalto.

O horror, o horror!

Então, todos se unem contra a baderna. Podem pedir o que quiserem, podem se manifestar, cruzar as ruas com bandeiras, mas, por favor, não atrapalhem o trânsito. Políticos de todos os matizes se unem para bradar: baderna, não! Antigos militantes de esquerda que ainda acham um lindo momento histórico as barricadas de Paris, em 1968, estão, ora vejam, revoltados com a baderna. Pedras, paus, coquetéis molotov, é preciso conter os bárbaros e acabar com a baderna. Não interessa se eles vivem em panelas de pressão, amontoados em latas automotivas superlotadas, se ganham uma miséria e, agora, terão que pagar mais 20 centavos pelo mesmo sofrimento diário. O que importa é que eles, baderneiros, estão atrapalhando o trânsito.

Então, a solução é descer a porrada. Passar a borracha no lombo desses baderneiros, enfiar-lhes o cassetete na cuca, tocar o gado revoltado para o corredor polonês.

Que a violência policial contra os manifestantes venha do governo de São Paulo, não causa espécie a ninguém. O PSDB é um partido de direita, o governador Geraldo Alckmin é um numerário da Opus Dei, organização católica de extrema-direita, e a PM de São Paulo é um substrato intocável do aparato policial-militar herdado da ditadura. Os policiais que tomaram o centro da cidade para espancar e prender manifestantes e jornalistas são os cães de guarda desse sistema. Não há disfunção alguma no que estão fazendo: eles existem, basicamente, para isso. Para tocar a negrada a pau, para dar paz a Higienópolis e garantir a brisa fresca de domingo nos Jardins. Dessa gente e de sua guarda pretoriana devem cuidar, nas próximas eleições, o povo de São Paulo.

Mas, onde está o PT? Onde está o prefeito Fernando Haddad, este que já avisou, de Paris, pelo Twitter, que não irá “tolerar vandalismo”? Onde estão os vereadores, deputados e senadores do partido que nasceu nas monumentais greves do ABC paulista, em plena ditadura militar, que os chamava, ora vejam, de baderneiros? Nada. Ninguém de braços dados para enfrentar a tropa de choque. Todos quietinhos, com seus militantes sempre tão subordinados, para saber o que vai sair no Jornal Nacional e na Veja de domingo. Até lá, melhor deixar as barbas de molho. Para os que ainda têm barba, claro.

Nessa vergonhosa escalada de violência tocada pelo governo tucano de São Paulo, não podia faltar, claro, o apoio da mídia. Não há manifestantes para a ela, mas só baderneiros. Manifestantes são franceses, suecos, turcos, chineses. No Brasil, são vândalos e desocupados interessados em depredar o patrimônio público, como se a imprensa brasileira, hoje povoada de engomadinhos formados em cursinhos de trainee, alguma vez tenha se preocupado, de fato, com a segurança física dos ônibus usados pelos pobres.

Perdão, gente indignada com os vândalos. Mas entre a hipocrisia e a baderna, eu fico, alegremente, com a segunda.

Guerra de dois fronts

por Leandro Fortes — publicado 13/06/2013 16h48, última modificação 13/06/2013 17h21

Será muito, mas muito melhor do que a Copa do Mundo com essa seleção de sacis, se as eleições de 2014 tiveram Lula como candidato ao governo de São Paulo. Não apenas pela perspectiva eleitoral em si, baseada na possibilidade da tomada do principal bunker tucano pelo presidente mais popular e bem sucedido que o Brasil já teve.

Será uma curiosa batalha na qual a mídia nacional, órfã das diabruras de José Serra, terá que batalhar em dois fronts duríssimos. Em um, nacional, bombardear Dilma Rousseff para tentar emplacar Aécio Neves, o profeta da inflação que acaba de colocar a carapuça do Velho do Restelo. No outro, paulista, temperar a personalidade insossa de Geraldo Alckmin e moldá-lo para a briga com Lula. Não vai ser fácil.

Primeiro, porque o estoque de munição está exaurido. A tentativa de envolver Lula no "mensalão" deu chabu depois que Marcos Valério percebeu que era tarde demais para se livrar da cadeia. O próprio "mensalão" já deu o que tinha que dar, e a biografia não-autorizada de José Dirceu preparada pela Veja não vai ser capaz de reviver os bons tempos em que grampos sem áudio provocavam crises institucionais reverberadas no Jornal Nacional.

A busca e fabricação de escândalos também será dificultada por falta de pessoal: os jornalões estão falindo e demitindo em grande escala. Na Abril, apesar do abraço gostoso dos funcionários ao prédio da editora, as perspectivas seguem o mesmo caminho. Resta Ali Kamel e o Jornal Nacional, mas estes, de tão previsíveis, quase não servem para mais nada.

Mais importante, porém, será o significado da candidatura de Lula para o PT. Talvez a coragem do ex-presidente de enfrentar uma campanha dura, na qual todos os seus adversários irão se unir para destruí-lo, revigore a alma do partido, hoje rendido e acovardado pelas circunstâncias do poder.

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