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Política

O ataque ao Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro e os riscos à liberdade de expressão

por — publicado 07/08/2014 11h15, última modificação 07/08/2014 16h35
A diretoria do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro é alvo de ataques. A polêmica vai muito além de uma disputa sindical e envolve riscos para a própria atividade jornalística.

Por Jonas Valente

Desde a semana passada, a diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro (SJPMRJ) é alvo de uma série de ataques. A polêmica vai muito além de uma disputa sindical e envolve riscos para a própria atividade jornalística pela criação de um discurso de ódio que prega a divisão da categoria e tenta desqualificar não apenas os diretores, mas parte dos jornalistas.

O movimento que pede a destituição da direção nasceu a partir de uma coletiva de imprensa realizada no dia 25/7, com parentes de manifestantes presos, organizada pelas organizações Justiça Global e Grupo Tortura Nunca Mais, no auditório do sindicato. Houve clima tenso e ativistas presentes criticaram de forma dura os jornalistas que compareceram. A presidente do SJPMRJ, Paula Máiran, interveio e defendeu os profissionais de imprensa.

No entanto, relatos do episódio pelas redes sociais e até mesmo em matérias de veículos de grande circulação, como o jornal O Globo, distorceram o ocorrido, inclusive chegando ao ponto de trazer informações mentirosas, como a fábula de que repórteres teriam sido expulsos da coletiva pelos manifestantes. Âncoras de telejornais utilizaram o espaço de seus programas para atacar de forma virulenta a direção, em especial a presidente da entidade, Paula Máiran. Entre as críticas, o fato de a direção ter mantido a coletiva, sendo que na véspera dois jornalistas haviam sido agredidos por manifestantes em Bangu. Dias depois, um grupo de jornalistas, comandado por integrantes de chapas derrotadas na última eleição e por figuras proeminentes de grandes redações comerciais, criou o movimento que pede a saída da diretoria.

Parte dos jornalistas também apresentou críticas, o que é legítimo. Mas a ofensiva do grupo golpista, com ataques e acusações mentirosas, é um indício muito preocupante para uma categoria que é responsável por ter a serenidade de traduzir os acontecimentos de forma equilibrada para garantir o direito à informação da sociedade.

O alerta é maior porque a atuação do grupo traz não apenas uma tentativa de golpe, o que por si só seria grave. O grupo visa desqualificar toda e qualquer visão que não seja a de condenação irrestrita e automática de qualquer tipo de manifestante. O foco é a divisão da própria categoria. Quem não segue a cartilha, acusam, estaria tergiversando na defesa dos colegas ou, mais grave, seria “cúmplice da violência contra jornalistas”, como diz o manifesto elaborado por alguns profissionais.

A estratégia tenta distorcer o debate, tirando o foco dos atos de violência, que devem ser sim condenados, e passando para a demonização dos manifestantes (independentemente de toda a diversidade envolvida nesta massa). De tabela, coloca no grupo dos “hereges” todos os jornalistas e comunicadores populares que atuam com midiativismo e com movimentos sociais. Filiados ao PSOL também são criticados pelo simples fato de serem associados ao partido, em um claro constrangimento público contra o direito de livre filiação partidária.

A diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio divulgou comunicado afirmando que é contrária a qualquer tipo de violência contra jornalistas, venha de onde vier. A entidade promoveu diversas ações neste sentido, condenando agressões e cobrando a garantia da segurança dos profissionais nas coberturas, inclusive com acompanhamento jurídico e conquistas junto ao Ministério Público. Para discutir o tema, a direção convocou uma plenária inicialmente agendada para o dia 4 de agosto e depois remarcada para o dia 7 de agosto, em razão da morte de uma colunista do jornal Extra.

No dia 6 de agosto, a direção do SJPMRJ divulgou nota na qual “pede desculpas e reconhece que deveria, naquelas circunstâncias, ter solicitado aos organizadores do evento a não realização da atividade dentro do sindicato”. Mas é clara na defesa contra o golpe ao afirmar que “os fatos, no entanto, não justificam a renúncia nem a destituição da diretoria”. Na plenária, a direção vai convidar os jornalistas do Rio ao debate sobre como as pautas e as lutas já iniciadas pela garantia da segurança podem ser impulsionadas.

Se o movimento golpista for bem sucedido, a consequência será mais do que a saída da atual diretoria. Para além do fortalecimento de um grupo formado por diversos chefes, será a vitória, em uma importante cidade e na qual há veículos de alcance nacional, de uma concepção perigosa. Ao tratar todo e qualquer manifestante como um criminoso e uma ameaça, ela afasta o jornalista da sociedade, quebrando o laço de uma categoria e de suas entidades representativas com a sociedade e indo de encontro a alianças históricas com as lutas de movimentos sociais de reivindicação de direitos.

A violência contra a categoria deve ser condenada, seja de onde vier, e com medidas de segurança objetivas. Curiosamente, entre os críticos do sindicato, agora há quem inclusive reclame da entidade ter cobrado das empresas o óbvio, que é a garantia a seus empregados de equipamentos de proteção individual (EPIs) e de outras medidas. Para alguns críticos, se os manifestantes forem todos criminalizados, parece que a violência vai desaparecer. Esquecem ou omitem intencionalmente que os agentes do Estado são responsáveis por mais de 80% dos casos de agressão contra profissionais de imprensa, como mostram dados da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Isso não exime os outros 20%, mas deixa claro que a condenação dos manifestantes também não resolve os 80%. Ao atacar uma entidade que exemplarmente acionou autoridades e empresas para garantir a segurança da categoria (sem deixar de cobrar dos movimentos sociais o respeito ao trabalho da imprensa), o movimento golpista corre o risco de, inclusive, debelar uma frente fundamental de defesa do que traz como bandeira: a segurança do jornalista.

Jonas Valente é jornalista, intergrante do Intervozes e da coordenação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal