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Por que as mulheres são estupradas, segundo a polícia

Policial catarinense dá dicas para as mulheres evitarem estupro. Além de ineficientes, as dicas mostram o despreparo da segurança pública ao tratar de crime tão delicado
por Nádia Lapa — publicado 24/11/2013 15h59, última modificação 26/11/2013 06h06
Gabriel Bonis
Estupro

Policial catarinense dá dicas para as mulheres evitarem estupro. Além de ineficientes, as dicas mostram o despreparo da segurança pública ao tratar de crime tão delicado

 

Um estuprador atacou uma mulher em Blumenau, Santa Catarina, e a violência física foi tamanha que ela faleceu. Encontraram a vítima na manhã do último sábado (23). As informações são do G1, que traz uma fala de uma policial da cidade:

"A Polícia Militar disse ao G1 que o número de ocorrências envolvendo estupros na cidade aumentou nos últimos meses e por isso, orienta para que as mulheres busquem utilizar ruas e vias iluminadas e com movimentação de pessoas e evitem circular desacompanhada em horários com menos movimento, como à noite e início da manhã. "Se a pessoa mora sozinha, uma dica é também evitar chegar sempre no mesmo horário do trabalho. Além disso, tentar andar acompanhada. A presença de duas mulheres já inibe mais a ação. Se percorre o trajeto à pé, se possível, buscar caminhos diferentes, por que é a oportunidade que gera a ação", explica a Segundo a Sargento Cristina Moreira, da Central de Emergência da Polícia Militar".

Há dois anos, o policial canadense Michael Sanguinetti também deu uma super dica para as mulheres se protegerem de estupros: "parem de se vestir como vadias". As mulheres não se calaram; a partir desse comentário absurdo do policial, surgiu a Marcha das Vadias. De Toronto para o resto do mundo.

Diante de um crime bárbaro como o estupro, procura-se explicações para o acontecido. Deve ser muito difícil simplesmente assumir que entre nós há pessoas capazes de tamanha atrocidade; porém, os números não mentem. No Hospital Pérola Byington, em São Paulo, são atendidas 15 vítimas de violência sexual por dia. Com estatísticas assustadoras, natural buscar-se métodos para evitar novos crimes.

O problema é focar na potencial vítima, e não no agressor.

Toda mulher aprende desde novinha como se comportar para não ser assediada/violentada/abusada. Os conselhos, em geral, são:

- Não use roupa curta ou decotada;

- Não saia sozinha;

- Não ande em ruas desertas ou escuras;

- Não aceite bebida de desconhecidos;

- Não beba com desconhecidos;

- Não abra a porta da sua casa para desconhecidos;

- Não faça sexo casual;

- Não, não e não. Todos os "nãos" possíveis e imagináveis. Alguns inimagináveis também.

A policial catarinense ainda deu uma nova sugestão: "se morar sozinha, evite chegar do trabalho sempre no mesmo horário". O que a pessoa vai ficar fazendo? Depois de passar o dia trabalhando, vai ter que criar mecanismos para enganar um agressor? Passear no shopping? Ir ao bar beber umas cervejas - e, ops, isso não pode! O que fazer, então?

Claro que eu não tenho a resposta. Mas acho preocupante quando pessoas que deveriam ser especialistas em segurança pública têm o discurso de culpabilização da vítima. O que elas esperam? Que as mulheres fiquem trancafiadas em casa? O estupro é ao mesmo tempo um crime e uma ferramenta de controle social. Segundo Jill Filipovic, colunista do Guardian, "mostrar o estupro como algo que acontece fora de casa reforça a ideia de que as mulheres estão seguras em ambiente doméstico e em risco, se saírem" (tradução minha). O que não é verdade, uma vez que a maioria dos estupradores é conhecida da vítima.

As dicas para "evitar o estupro" podem até ser bem intencionadas, quando elas vêm de um amigo ou um familiar (de um profissional de segurança pública, nunca). Porém, elas dão a impressão de que há como escapar de um crime sexual. Se aconteceu com você, é porque "você não se cuidou o bastante", e isso gera culpa na vítima. Neste panorama, dificilmente ela irá registrar a ocorrência ou procurar ajuda.

O discurso de Michael Sanguinetti, lá no Canadá, e de Cristina Moreira, aqui em Blumenau, em vez de ajudar as vítimas, piora ainda mais a situação. Precisamos olhar o estupro como um crime de cunho social. Não é apenas a violência de um indivíduo contra outro; o contexto social precisa ser melhor avaliado. E os responsáveis pela nossa segurança precisam se preparar melhor para tratar de assunto tão delicado.


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