Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Feminismo pra quê? / Os fiscais de militância

Política

Os fiscais de militância

por Clara Averbuck publicado 04/07/2013 11h51, última modificação 04/07/2013 23h55
"Tanta mulher sendo estuprada e vocês se preocupando com o corpo da Barbie?"; "Por que as feministas não se importam com x em vez de y?". Por Clara Averbuck
Reprodução
barbieRealSize2.jpg

O artista americano Nickolay Lamm fez uma Barbie com as proporções de corpo de uma americana média de 19 anos

Em algum momento do seu dia, a feminista vai escutar:

"Tanta mulher apanhando do marido e vocês se preocupando com a cor do kinder ovo?"

"Tanta mulher sendo estuprada e vocês se preocupando com o corpo da Barbie?"

"Tanta criança se prostituindo e vocês se preocupando em achar machismo em propaganda?"

Pois é: não há limites para os fiscais de militância. Eles não só não militam por causa alguma, como não entendem nada de feminismo, não sabem o que está sendo dito e feito e, ainda assim, querem nos dizer o que deve ser importante para nós.

Há algumas causas mais urgentes, é claro, mas a desconstrução do patriarcado não vai se dar de um dia para o outro e nem "focando no macro", como um amigo muito querido, mas que não entende lhufas de feminismo, sugeriu.

Quando apontamos, por exemplo, os papéis pré-definidos de gênero difundidos diariamente na mídia, estamos mostrando onde está a sementinha do que se torna, mais tarde, uma causa urgente.

Ou alguém acha que não há relação alguma entre a imagem da mulher de pele branquinha, pernas e braços fininhos e cabelo lisinho martelada a todas as horas do dia e da noite em nossas cabeças e o problema seriíssimo de autoimagem de que boa parte das mulheres sofre e que abala algumas autoestimas até a obsessão, às vezes até a morte?

Acha que não há relação entre o arquétipo de princesa dócil e obediente e que precisa de um amor para ser completa e pessoas que entram em relações abusivas e não conseguem sair por estarem fragilizadas e terem medo de ficar "sozinhas pra sempre"?

Acha que não há relação entre a objetificação doentia da mulher e abusos de toda a sorte?

Acha que as feministas são umas chatas que vivem procurando problemas em tudo?

Olha, se você acha chato repensar conceitos caquéticos para que haja mudanças, é, então somos todas umas chatas.

Rever conceitos é "chato" porque envolve questionar o que fomos ensinados, o que estamos acostumados a digerir.

É chato ter que se policiar, é chato ter que assumir que fomos ensinados de maneira errada, é chato ter que se treinar pra pensar de maneira diferente, é chato tentar refrear o tempo todos os conceitos internalizados.

Chato, chato, chato.

Chato e necessário.

registrado em: ,