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Isso é com você, sim

por Nádia Lapa — publicado 13/09/2013 18h06, última modificação 13/09/2013 18h11
Homens costumam dizer que o estuprador e o agressor é sempre o outro. Quem é "o outro"?

 

Em qualquer texto que qualquer feminista escreva sobre o comportamento dos homens, vai vir alguém (homem) dizendo "eu não faço isso".

Pode ser sobre um assunto menos importante, como só abrir a porta do carro para mulheres bonitas*. "Eu, não, eu faço isso com todo mundo, sou gentil!"

A revolta fica ainda mais óbvia quando falamos sobre assuntos difíceis de lidar, como estupro, assédio sexual, violência doméstica.

"Esses homens têm que ser castrados/mortos/trucidados/nãosãohomens/sãoanimais", exclamam, furiosamente.

Fica impossível não imaginar, afinal, onde estão esses caras que agridem, que estupram, que assediam. Se todos dizem que não o são, quem são?

São seus amigos, seus parceiros de boteco, seus pais, seus irmãos, seus chefes, seus padrinhos de casamento. Ou você.

Sim, agressores de mulheres não têm uma cara, uma classe, um jeito específico. É mais fácil imaginar o maníaco do parque, serial killer (e estuprador) de mulheres, com aquele olhar bizarro e amedrontador. Eu não sou esse cara! Eu não sou esse cara!, bradam os comentaristas em qualquer post.

Quem é?

Alguém é. E não são poucos. Segundo estatísticas da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR), uma mulher é estuprada a cada 12 segundos no Brasil. No Rio de Janeiro, são registrados 17 casos ao dia (lembrando que crimes sexuais têm subnotificação absurda). Para quem está chocado com o caso da garota de oito anos que morreu na "lua de mel" com o "marido" de 40 anos, a ONU aponta que até 2020 teremos 120 milhões (é, milhões) de child brides, garotas que são vendidas para o casamento.

Quem são esses homens?

É impossível que seja um só cara. Imaginem um estuprador que todos os dias ataca as 15 vítimas de violência sexual que procuram atendimento no Hospital Pérola Byington, na zona central de São Paulo. Só um cara. Irreal, não? Eles são muitos, e estão por aí, misturados com a gente, em todos os lugares. Por isso também o assédio na rua é tão agressivo; uma mulher não sabe quando aquela "cantada" vai virar coisa pior. Torna-se duplamente agressivo quando comentaristas dizem que estamos inventando, que é frescura, que somos puritanas.

Escrevo sobre sexo, sexualidade e feminismo há dois anos no blog Cem Homens. Todos os dias recebo e-mails de mulheres que foram violentadas física, sexual e emocionalmente. Todos os dias, mesmo. Não é jeito de falar. Todos os dias. O último post publicado é um relato de uma vítima (e nos comentários há várias outras mulheres narrando coisas semelhantes). Posso contar numa mão quantas dessas histórias têm como criminoso um cara desconhecido. Um "maníaco do parque".

As narrativas envolvem quase sempre amigos, namorados, maridos, pais, padrastos, primos. A violência nem sempre é óbvia; os agressores dificilmente colocam uma arma na cabeça dessas mulheres. Grande parte das vezes, a ação começa consensual, e em determinado momento, a mulher não quer mais se engajar naquilo. Seja porque perdeu o tesão, seja porque é uma prática que não curte, seja porque ela simplesmente não quis mais. E o cara insiste, insiste, insiste e a mulher se sente obrigada a ir em frente.

Há muitos relatos, também, de homens que tiram a camisinha durante o coito, sem avisar a parceira. Outros, "aproveitaram" que a mulher dormia para passar a mão no corpo dela - alguns chegam ao absurdo de penetrá-la. Se formos falar de bebida, então, os relatos se multiplicam em progressão geométrica. "Dar um vinhozinho para amolecer a garota" é prática constante, até estimulada. Pois bem: isso é estupro.

Portanto, minha intenção no post de hoje é fazer com que algum homem, pelo menos uns dois ou três, percebam que o problema não é "o outro". Talvez seja você, se você pratica algum dos atos acima (insiste, assedia, passa a mão em desconhecidas ou mulheres adormecidas, embebeda garotas ou se aproveita do estado alcoolico dela). Possivelmente "o outro" é algum cara que você conhece. Pode ser o homem sentado na baia ao lado. E que você precisa, sim, fazer algo.

Tenha certeza de uma coisa: você conhece não uma, nem duas mulheres que foram estupradas. Uma a cada cinco mulheres já sofreu violência. Faça as contas. São muitas mulheres, e o problema está, também, sinto dizer (sinto mesmo), em você.

 

*a questão cavalheirismo versus gentileza é um assunto muito desimportante, ao contrário do que pregam os antifeministas. Feministas reconhecemos que gentileza é ótimo, agradecemos, mas cavalheirismo nos trata como imbecis e incapazes. Portanto, passamos. Pelo menos as autoras deste blog.