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Política

Ex-integrantes do Fora do Eixo denunciam machismo

por Nádia Lapa — publicado 26/08/2013 23h36

Eu não sei qual parte foi mais assustadora no manifesto assinado por 15 ex-integrantes do Fora do Eixo que veio à tona na noite desta segunda-feira (26), cuja íntegra você encontra ao final deste post. Algumas das práticas sexistas do grupo não foram surpresa. Em reportagem publicada por Carta Capital, Lino Bocchini e Piero Locatelli já haviam revelado o chamado "catar e cooptar". Segundo palavras do manifesto:

"Uma das práticas políticas do Fora do Eixo refere-se a “catar ou “cooptar” (também se usa as terminologias “entrega” e “missão”), deliberada em reunião da cúpula com o objetivo de cooptar parceiros através da sedução e do sexo. É debatido o perfil do futuro integrante ou colaborador e quais membros teriam afinidade de atraí-lo e iniciar com ele ou ela um relacionamento amoroso e/ou sexual com a finalidade de cooptá-lo(a). Homens e mulheres fazem parte desses artifícios".

Logo depois de explicar o conceito, os signatários acusam o Fora do Eixo de uma norma que consegue piorar a anterior. Faço questão de dar ênfase a ela, colocando-a em negrito (se pudesse, colocaria em luzes neon): “Quem pega mulher feia ganha mais lastro”.

Isto é: nessa prática de catar e cooptar, se a pessoa se relacionar com uma mulher considerada feia, a pessoa ganha respeito entre seus pares dentro do FdE. O famoso "guerreiro" do homem médio e babaca, que dá a "alma" em nome da "masculinidade". No caso de agora, porém, a intenção é dar a "alma" por uma instituição... que sequer te paga um salário.

Não que isso justifique qualquer coisa, mas é ainda mais surreal alguém compactuar com prática tão desumanizante. Em nome do quê? Caso as alegações dos signatários sejam reais, fica difícil - ou, na verdade, impossível - acreditar que o Fora do Eixo trate seus colaboradores como gente.

A tática de cooptação com base em atração sexual não é novidade nenhuma. Nós vemos isso acontecendo o tempo todo. A mulher é uma coisa, um objeto no sistema capitalista, que sustenta o patriarcado. Mas como justificar tamanha coisificação num movimento que se diz diferente, inovador, revolucionário, horizontal e de esquerda? É só mais do mesmo?

Uma das frases clássicas do movimento feminista é "o feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente". Bom, em se tratando do Fora do Eixo, parece que não somos.

 

Veja a íntegra do manifesto:

MANIFESTO | Fora do Eixo e uma reflexão das mulheres contra o patriarcalismo

Publicado originalmente em 26/08/2013 no blog Feministas pela Cultura

Até o momento as críticas que têm sido feitas ao Fora do Eixo são, em sua maioria, ao sistema de funcionamento que só reproduzem as práticas já conhecidas por outras empresas dentro do sistema capitalista de exploração do trabalho. Nós, mulheres que fizemos parte das casas Fora do Eixo Anápolis, Minas, Nordeste, São Carlos e São Paulo e outros coletivos e homens que reconhecem a veracidade desses fatos, temos que pontuar e fazer a crítica radical a reprodução patriarcal nas relações de poder dentro do Fora do Eixo. Sendo assim, gostaríamos de levantar algumas questões:

1. Como o sexismo se apresenta nas relações de trabalho e tarefas

Os projetos e atividades dentro da rede geralmente são divididos por áreas, que preservam em si uma crença sobre afinidades de gênero. Alimentada por uma lógica preconceituosa que afirma que as mulheres são mais eficientes na sistematização, são elas que organizam os arranjos, a contabilidade e as tecnologias enquanto os homens, considerados mais eficientes na argumentação e no discurso,  são direcionados para atividades externas, articulações políticas e arranjos com outros atores sociais, ampliando suas experiências para além das casas/coletivos, o que o leva a ter mais leituras políticas pelo contato com os ambientes e no próprio aumento de bagagem vinda destas experiências sociais. Desta forma, neste modus operandi,  as mulheres tendem a estar em núcleos de “enraizamento” (fixos) cujas relações se dão dentro do seu ambiente/moradia e entorno, enquanto os homens estão em núcleos de “transcendência” (móvel), possuem uma dinâmica ativa e articulam as ações e projetos que vão sustentar o coletivo, numa relação que acontece fora daquela comunidade.

2. Arranjos sexistas: clube das luluzinhas e clube dos bolinhas

Quando um(a) integrante da casa/coletivo apresenta dificuldades ou questionamentos pessoais ou sobre o processo e precisa de esclarecimentos, este(a) integrante geralmente é levado a procurar o “seu gestor” ou “gestora”, direcionado para aquele de mesmo sexo. Acredita-se que esta política interna fortalece as relações entre os semelhantes. Entretanto, esta crença fortalece um modelo sexista, com a formação do clube dos bolinhas X o das luluzinhas.

3. “Catar e Cooptar”: o uso político do sexo no Fora do Eixo

Uma das práticas políticas do Fora do Eixo refere-se a “catar ou “cooptar” (também se usa as terminologias “entrega” e “missão”), deliberada em reunião da cúpula com o objetivo de cooptar parceiros através da sedução e do sexo. É debatido o perfil do futuro integrante ou colaborador e quais membros teriam afinidade de atraí-lo e iniciar com ele ou ela um relacionamento amoroso e/ou sexual com a finalidade de cooptá-lo(a). Homens e mulheres fazem parte desses artifícios.

4. “Quem pega mulher feia ganha mais lastro”

Dentro do escopo de cooptação da rede, está o de se relacionar com mulher “feia”. Aquele que mantiver relacionamento amoroso ou sexual com mulher considerada feia, com o fim de cooptá-la, é mais respeitado pelos demais (tem mais “lastro”). É comum ouvir o jargão entre os que estão mais próximos da cúpula de  “quem pega mulher ‘feia’ ganha mais lastro”.

5. Como é tratada a autonomia da mulher: “ela está na sua conta agora”

Quando um agente “cooptador” traz uma agente “cooptada” para a rede, ela passa estar na sua “conta”, além de estar sob a responsabilidade do gestor(a) com quem vai trabalhar. O agente “cooptador”, responsável por controlar o ritmo da “cooptada”, analisa a  dinâmica de trabalho dela e vigia os seus relacionamentos, amizades e conversas, relatorizando suas leituras à cúpula.  O “cooptador” também é constantemente vigiado e controlado para que não haja a “contaminação por casal”, de modo que seu relacionamento afetivo não interfira nas dinâmicas coletivas.

6. Como são vistos e tratados os relacionamentos entre casais na rede: “formação de bancadas”

Casais são vistos como “caretas” e os conflitos de relacionamento amoroso são taxados de “picaretas”, já que diante da proposta macro de um coletivo, tais conflitos estão centrados em razões muito particulares do casal e, portanto, irrelevantes ao processo coletivo. Há também um velado cerceamento das relações afetivas espontâneas. A relação entre casais é continuamente analisada e quando não se considera mais estratégico ao grupo a permanência daquele arranjo afetivo, a sua dissolução também é argumentada e debatida pelo grupo.

7. Assedio moral, opressão, culpabilização e pedagogia do medo

Quando um(a) agente está em conflito sobre as dinâmicas e ideologias dentro do grupo, pode vir a passar pelo o que a rede chama de choque-pesadelo, prática preventiva sobre a mediação de conflitos e não “contaminação” do grupo. Por outra leitura, o choque pesadelo é um tipo de assedio moral onde o agente “conflitador” é exposto a uma situação constrangedora e humilhante em que é confrontado por seus gestores e demais integrantes, sob uma forte conduta de opressão que o leva a mudar de opinião diante do seu constrangimento e a agir conforme as premissas do grupo. Há, com isso, o estabelecimento de um forte sentimento de culpa por aquilo que acreditava ou pelos “conflitos” por ela ou ele processados. Assim, é estabelecida uma politica de coerção, de forte cunho moralizador onde se aprende a respeitar pelo “lastro” de quem está acima e que se perpetua através do medo de contra argumentar e ser duramente rebatido.

Essas práticas, vistas por nós como repudiáveis, eram tidas por todos e todas, inclusive por nós, como naturais. Dentro da dinâmica da rede, da empolgação com a participação num projeto coletivo em que nós acreditávamos, essas situações eram aceitas como um desconforto necessário em prol de um projeto maior. Hoje, entretanto, livres dos laços que nos ligavam à rede, podemos criticar abertamente o machismo em que se pautam a divisão do trabalho e as relações internas das Casas e alguns coletivos.

Esperamos que esse manifesto seja recebido não apenas pelo Fora do Eixo, mas por todos os movimentos que pretendem construir um projeto verdadeiramente alternativo e contra-hegêmonico, como uma colaboração para construção de uma outra cultura fundada no respeito às diferenças e na igualdade de gênero.

Anápolis, Belo Horizonte, Campinas, Recife, São Carlos, São Paulo, 26 de agosto de 2013

  1. Alejandro Vargas • Casa Fora do Eixo Nordeste (CE)

  2. Bruno Kayapy • Espaço Cubo, Festival Calango|Grito Rock e Fora do Eixo

  3. Camila Cortielha • Casa Fora do Eixo São Paulo (SP)

  4. Eliza Mancuso • Fora do Eixo Campinas (SP)

  5. Flávio Charchar • Casa Fora do Eixo Minas (MG)

  6. Gabriel Fedel • Casa Fora do Eixo São Paulo (SP)

  7. Gabriel Zambon • Casa Fora do Eixo Minas (MG)

  8. Hiro Ishikawa • Casa Fora do Eixo São Carlos (SP)

  9. Jessica Miranda • Casa Fora do Eixo Nordeste (CE)

  10. Laís Bellini • Casa Fora do Eixo São Paulo (SP)

  11. Leo Carneiro • Casa Fora do Eixo Anápolis (GO)

  12. Marcos Cestari

  13. Michelle Parron • Casa Fora do Eixo São Paulo (SP) | Casa Fora do Eixo Minas (MG)

  14. Nowhah Luiza Freitas • Casa Fora do Eixo Anápolis (GO)

  15. Rafa Rolim • Casa Fora do Eixo São Paulo (SP)