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Abuso sexual

E se Woody Allen fosse um serial killer?

Blog Feminismo pra Quê?: Woody Allen é premiado pelo conjunto da obra no Golden Globe, apesar do histórico de acusações de abuso sexual da própria filha.
por Nádia Lapa — publicado 13/01/2014 19h00, última modificação 02/02/2014 16h05
HANDOUT / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP
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Diane Keaton discursa durante a premiação do Golden Globe, onde representou Woody Allen

Ontem (12) aconteceu a cerimônia de entrega do Globo de Ouro. Entre a escolha de melhores filmes, diretores e atores, um prêmio especial: o Cecil B. DeMille, de "conjunto da obra", em 2014 dedicado a Woody Allen. Para muitos, a homenagem é incontestável. Diretor, roteirista, ator e dramaturgo, Allen tem uma das mais carreiras mais profícuas de Hollywood. Não há prêmio que ele não tenha vencido nas quase seis décadas de carreira.

Enquanto Diane Keaton, uma das ex-namoradas do diretor, aceitava a honraria em seu lugar, Ronan Farrow, filho de Allen com Mia Farrow, tuitava: "Perdi o tributo ao Woody Allen - eles colocaram a parte em que uma mulher publicamente confirma ter sido molestada por ele aos sete anos de idade antes ou depois de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa?" (filme estrelado, aliás, por Keaton).

O ativista se referia às acusações de que Allen teria abusado sexualmente da própria filha adotiva, Dylan, irmã de Ronan, Dylan, quando ela tinha apenas sete anos. À época, Mia Farrow era casada com o diretor. Apesar de morarem em casas separadas, a presença de Woody Allen era constante na casa de Farrow, fazendo parte normalmente da educação das crianças.

Dylan foi bastante gráfica na descrição das ações do pai: ela contou que ele a tocava nas partes íntimas. "Tudo me deixava desconfortável, mas eu comecei a pensar que eu era uma criança ruim, pois não queria fazer o que o meu pai dizia. (...) Eu tinha sete anos. Eu estava fazendo aquilo tudo porque eu estava com medo. Eu queria que ele parasse. Mas eu achei que era assim que os pais tratavam suas filhas, que a interação era normal, e eu é quem era anormal por me sentir desconfortável", rememorou Dylan à Vanity Fair em entrevista realizada ano passado.

Quando o escândalo explodiu, há quase duas décadas, as histórias de uma verdadeira obsessão de Allen por Dylan foram à tona. Em uma grande reportagem assinada por Maureen Orth na edição de novembro de 1992 da Vanity Fair, testemunhas relatam que o diretor tinha ordens expressas para não ficar sozinho com Dylan; que ele sumiu com a garota em uma certa ocasião e que depois eles foram encontrados juntos - só que Dylan estava despida da cintura para baixo; e outras histórias sórdidas.

Dylan, que hoje tem outro nome, não fala com o pai. Seus irmãos, idem. Quem continua se relacionando com Woody Allen é Soon-Yi, de quem o diretor era padrasto e hoje é marido. Adotada por Mia Farrow no Vietnã, Soon-Yi tinha 19 anos quando a atriz descobriu na casa do então marido fotos da filha completamente nua. Allen alegou que foi tudo consensual; o fato de ele ter sido figura parental para a garota durante dez anos, aparentemente, não significava nada.

A situação levou ao divórcio de Mia Farrow e Woody Allen, sendo um escândalo à época. Há dois anos, Ronan Farrow expressou também no Twitter como as coisas ainda eram inacreditáveis: "Feliz Dia dos Pais - ou, como chamam na minha família, feliz dia do cunhado".

A relação incestuosa de Allen com Soon-Yi e as denúncias de Dylan não mancham o histórico de Woody Allen, ao que parece. A grande questão é: por qual razão? Por que se continua premiando e louvando e chamando de gênio um homem com histórico tão assustadoramente misógino?

E se, em vez de molestar a própria filha, como ela mesma alega, Woody Allen fosse um serial killer?

Teriam com ele a mesma condescendência? Apagariam os crimes porque como diretor ele é genial, segundo a maioria? Ou se a vítima for mulher, tudo bem? O mesmo aconteceu com Roman Polanski, acusado - e condenado - pelo estupro de uma garota de 13 anos, e que continua ganhando prêmios mundo afora, mesmo nos Estados Unidos, onde não pode pisar porque é fugitivo da polícia?

Se estes homens fossem desconhecidos, pobres e negros, todos pediriam o linchamento dos mesmos (e se a vítima fosse perfeita, também). Mas são brancos, ricos, poderosos e "geniais". Como separar o homem da obra? É possível fazer isso? Dá para sentar numa poltrona de cinema e se divertir sabendo que aquele filme é obra de um molestador de crianças?

A entrega do prêmio a Woody Allen e as repetidas homenagens ao diretor me incomodam porque passam a mensagem que está tudo bem em praticar um (ou mais) crime contra a mulher. Todo mundo vai passar por cima, esquecer, menosprezar. Para a vítima, no entanto, o que fica é o contrário: de nada adianta a sua luta, o seu testemunho, a sua dor - ninguém vai acreditar em você. E é com você, para sempre, que ficará essa dor e indignação. Mia Farrow também se posicionou a respeito no Twitter, resumindo em 140 caracteres este post inteiro:

"Uma mulher detalhou publicamente o abuso sofrido por ela aos sete anos e perpetrado por Woody Allen. O tributo do GoldenGlobe mostrou desprezo por ela e por todos os sobreviventes de abuso."

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