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Cantada de rua: apenas parem

por Nádia Lapa — publicado 11/09/2013 18h27, última modificação 11/09/2013 19h38
Abordar mulheres desconhecidas em lugares públicos é agressivo. Pesquisa aponta que 83% das mulheres não gostam das cantadas de rua
Cantada

83% das mulheres não gostam de cantadas na rua

Durante vários anos, eu voltava de ônibus da faculdade e descia bem em frente a um quiosque de sorvete. Aqueles, de casquinha, que eu costumava pagar com um trocado qualquer encontrado no bolso. Morava no Rio de Janeiro, cidade calorenta, e a tal sorveteria fica em plena Avenida Nossa Senhora de Copacabana, a mais movimentada do bairro.

Eram dois quarteirões entre a lanchonete e a minha casa. Antes de chegar à portaria, já tinha tomado o sorvete todo. Não por gulodice, mas porque aquela experiência tinha que terminar logo. Logo. O mais rápido possível. Era sempre início da tarde, o céu muito azul, as pessoas indo-voltando de bancos, supermercados, trabalho, farmácia. E, no meio daquelas pessoas, gente como a gente, sem qualquer aparência monstruosa, alguns incontáveis homens faziam gestos e falavam palavras obscenas. Gente que eu nunca vi. Que eu nunca mais veria. Mas que transformavam o simples prazer de tomar sorvete num verdadeiro suplício.

A sensação era horrível. Os homens olhavam para mim e faziam gestos remetendo a sexo oral, das formas mais nojentas possíveis. Eu me sentia constrangida, mas nunca parei de tomar meu sorvete - só o fazia o mais rápido que podia, além de jamais manter contato visual com qualquer estranho.

Eu pensava que tal coisa só acontecia comigo. Mulheres não temos clubinhos ou encontros semanais, como os homens no futebol ou na antiga maçonaria, para compartilhar coisas do dia a dia. Depois que comecei a escrever sobre feminismo, perguntei algumas vezes no Twitter se a abordagem agressiva ao tomar sorvete também acontecia com outras mulheres. As respostas foram sempre positivas - e incluíam outros alimentos, como churros.

Portanto, para nós, feministas, não foi nenhuma novidade o resultado da pesquisa feita pelo site Olga, de Juliana de Faria. Quase oito mil mulheres responderam o questionário elaborado pela jornalista Karin Hueck, e todas (99,6%) relataram já terem sofrido assédio na rua. "Os números são revoltantes. Mais do que isso, são assustadores. Mas, infelizmente, não são uma surpresa alguma para as mulheres. É uma prova de que nós não sentimos segurança em fazer atos corriqueiros, como caminhar pela rua", diz Juliana.

Ao contrário do que supõem os homens, mesmo sem nunca terem parado para perguntar como se sentem suas amigas, namoradas ou irmãs, as mulheres não gostam da abordagem feita por estranhos.

Segundo a pesquisa, 83% das mulheres não gostam do assédio nas ruas. A pergunta que sempre surge, como se qualquer coisa na vida da mulher tivesse o fim de se relacionar com um homem, é "como vamos paquerar agora?". Paquerando, oras. Paquera e assédio são duas coisas completamente diferentes. A primeira pressupõe o engajamento de todos os envolvidos. Isto é, existe reciprocidade. O assédio é diferente: o homem se acha no direito de importunar uma mulher que está indo para o trabalho, para academia, ou apenas tomando um sorvete.

São locais e situações que não oferecem segurança e conforto às mulheres. Nem mesmo na balada, local onde, segundo o senso comum as pessoas estão na guerra, o assédio deve acontecer. Reciprocidade, sempre. É incrível ter de explicar isso ainda hoje. E é necessário, pois 90% das mulheres já trocaram de roupa pensando no assédio. Oito a cada dez mulheres deixou de fazer algo com medo de ser assediada. O mesmo número diz ter sido assediada na balada, com puxões de cabelo e sendo seguradas pelo braço.

Isso é paquera?

Isso é saudável?

Alguma mulher já saiu correndo atrás do motorista de um carro qualquer que buzinou para ela ou fez comentários sobre alguma parte do corpo dela, constrangendo-a publicamente?

Isso é, na verdade, controle e poder - e o lembrete de que o lugar de mulher é na vida doméstica. Não ocupe espaços públicos, porque lá você será assediada/agredida/constrangida.

O assédio na rua é tão problemático que diversos cartazes na Marcha das Vadias trazem manifestações de mulheres cansadas de serem objetificadas e desumanizadas, como se seus corpos servissem apenas para deleite dos homens. O coletivo da Marcha das Vadias de São Paulo falou com o Feminismo pra quê? sobre a pesquisa do Olga: "Poder caminhar pela rua em segurança ainda não é um direito conquistado e, no dia em que se juntam a outras milhares de mulheres na Marcha, cada uma percebe que seus temores cotidianos não são exagero, mas fruto da cultura do estupro, que dissemina e legitima o assédio e o estupro como forma punição para as mulheres".

Para muitos, aqueles que não repensam a roupa e tomam sorvete numa boa nas ruas, falar sobre assédio pode parecer exagero. "O assédio sexual em locais públicos é tratado como uma não-questão. É um monstro invisível, sem estudos, pesquisas, matérias, relatórios sobre o fato. E é impossível lutar contra um problema que não temos nenhuma informação a respeito", comenta a jornalista Juliana de Faria, do Olga.

A Marcha das Vadias, mais recentemente, e outros coletivos feministas sempre bateram nesta tecla. Com a pesquisa realizada pelo Olga e as reações nas redes sociais, vindas de não feministas, já temos um panorama importante: assédio nunca é legal. Não é lisonjeiro, não faz bem pra autoestima, não deixa a mulher confortável. Chega de fiu fiu.

Para conhecer os demais resultados da pesquisa, clique aqui.

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