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Sociedade

"Ande na linha ou aguente as consequências", um recado da cultura do estupro

Dizem que o estupro só acontece com mulheres que saem de casa. Não é verdade. A maior parte dos estupros é cometida por conhecidos da vítima
por Nádia Lapa — publicado 21/08/2013 01h38, última modificação 24/08/2013 18h49

Uma jovem foi estuprada na madrugada de domingo no Rio de Janeiro. O crime ainda está em investigação, mas as primeiras notícias diziam que ela havia sido atacada ao sair de um baile funk (depois, soube-se que na verdade era um bar). Os comentários nas reportagens são sempre escabrosos. Nenhuma novidade até aí. O curioso é um tipo de comentário que se repete em todos os portais - e que sempre vemos em qualquer caso de violência contra a mulher ocorrido fora do ambiente doméstico:

"Se estivesse em casa estudando, nada disso teria acontecido."

Tal discurso tem problemas bastante óbvios, como, por exemplo, a culpabilização da vítima. Assim como em qualquer outro crime, a culpa é do criminoso; deveria ser óbvio. Nos casos de violência sexual, sempre se questiona a veracidade do relato e se a vítima não tem intenções não reveladas com a denúncia. Parece até que é fácil passar pelo imenso constrangimento de registrar a ocorrência, passar por exames no IML e tomar medicamentos, como a pílula do dia seguinte e de precaução contra doenças sexualmente transmissíveis.

A vítima, sabedora do modo como se encara os crimes sexuais, muitas vezes também se culpa pelo que lhe ocorreu. "Eu não devia ter bebido", "eu não devia ter paquerado", "por que eu fui pra casa dele?". Com vergonha, medo e certeza de que será avaliada minuciosamente, a vítima prefere não registrar a ocorrência, o que leva à sub-notificação de crimes sexuais.

Um outro problema é que este discurso é falso. Ele não corresponde à realidade. A maioria dos estupros é cometido por conhecidos da vítima, e não por um homem que espera, sorrateiro e com arma em punho, num beco escuro. Toda mulher tem verdadeiros rituais para se livrar do ataque de estranhos, como segurar as chaves como se fossem pequenos canivetes ao caminhar sozinha ou evitar a parte de trás dos ônibus. Fomos ensinadas desde pequenas a não sermos estupradas, quando o foco devia ser em ensinar os homens a não estuprar. E puni-los quando o fizessem.

Justamente por nos ensinarem que o estupro é um crime que acontece na rua e com garotas que "não se comportaram", fica mais difícil reconhecer quando o crime acontece dentro de casa. Infelizmente, as estatísticas apontam parentes e conhecidos como os agressores. Segundo o Dossiê Mulher, do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de Janeiro, somente 27% dos estupros registrados no estado em 2012 foram cometidos por desconhecidos. Enquanto isso, pais e padrastos são responsáveis por 18,4% dos crimes. Ex-companheiros respondem por 10% dos casos, e parentes foram apontados como estupradores em 11,3% dos registros.

Entre as mulheres violentadas sexualmente, 22% também sofreram violência doméstica. Isto é, uma a cada cinco mulheres foi agredida de outras maneiras, além do estupro, por pessoas com quem mantinham relações de afeto.

Logo, "estar em casa estudando" não garante a segurança de ninguém.

Porém, repetir isso como mantra traz uma consequência perversa e não tão óbvia: a mulher passa a se sentir estuprável na rua. E, com isso, ela evita sair de casa, deixando de ocupar espaços que são seus, que lhe pertencem, que são necessários para a ampla participação na vida pública. Lugar de mulher é na cozinha.

A ideia é que, caso ela decida sair, largar o tanque e o fogão, sua segurança estará em risco. Com isso, mulheres não exercem a cidadania e os pequenos prazeres com a liberdade indispensável a todos os seres humanos. Dizer que o lugar da mulher é na vida doméstica a afasta do cenário político. Nos protestos na Praça Tahrir, no Egito, centenas de mulheres foram estupradas. Para as "insistentes", houve a necessidade de separá-las com um cordão de isolamento feito por voluntários (bem parecido com o que estamos fazendo com os "vagões rosa" no transporte público no Brasil).

O recado é bem óbvio: fique em casa, não ocupe espaços, não fale, ande na linha, não dance, não cante, não beba.

Para resumir: não exista.

(mas existimos.)

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