Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Feminismo pra quê?

Feminismo pra quê?

Blog para discussão de temas como sexualidade, machismo e preconceito
por Matheus publicado 25/06/2013 10:23, última modificação 10/04/2014 20:34

Abuso sexual

E se Woody Allen fosse um serial killer?

Blog Feminismo pra Quê?: Woody Allen é premiado pelo conjunto da obra no Golden Globe, apesar do histórico de acusações de abuso sexual da própria filha.
por Nádia Lapa publicado 13/01/2014 19:00, última modificação 02/02/2014 16:05
HANDOUT / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP
allen.jpg

Diane Keaton discursa durante a premiação do Golden Globe, onde representou Woody Allen

Ontem (12) aconteceu a cerimônia de entrega do Globo de Ouro. Entre a escolha de melhores filmes, diretores e atores, um prêmio especial: o Cecil B. DeMille, de "conjunto da obra", em 2014 dedicado a Woody Allen. Para muitos, a homenagem é incontestável. Diretor, roteirista, ator e dramaturgo, Allen tem uma das mais carreiras mais profícuas de Hollywood. Não há prêmio que ele não tenha vencido nas quase seis décadas de carreira.

Enquanto Diane Keaton, uma das ex-namoradas do diretor, aceitava a honraria em seu lugar, Ronan Farrow, filho de Allen com Mia Farrow, tuitava: "Perdi o tributo ao Woody Allen - eles colocaram a parte em que uma mulher publicamente confirma ter sido molestada por ele aos sete anos de idade antes ou depois de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa?" (filme estrelado, aliás, por Keaton).

O ativista se referia às acusações de que Allen teria abusado sexualmente da própria filha adotiva, Dylan, irmã de Ronan, Dylan, quando ela tinha apenas sete anos. À época, Mia Farrow era casada com o diretor. Apesar de morarem em casas separadas, a presença de Woody Allen era constante na casa de Farrow, fazendo parte normalmente da educação das crianças.

Dylan foi bastante gráfica na descrição das ações do pai: ela contou que ele a tocava nas partes íntimas. "Tudo me deixava desconfortável, mas eu comecei a pensar que eu era uma criança ruim, pois não queria fazer o que o meu pai dizia. (...) Eu tinha sete anos. Eu estava fazendo aquilo tudo porque eu estava com medo. Eu queria que ele parasse. Mas eu achei que era assim que os pais tratavam suas filhas, que a interação era normal, e eu é quem era anormal por me sentir desconfortável", rememorou Dylan à Vanity Fair em entrevista realizada ano passado.

Quando o escândalo explodiu, há quase duas décadas, as histórias de uma verdadeira obsessão de Allen por Dylan foram à tona. Em uma grande reportagem assinada por Maureen Orth na edição de novembro de 1992 da Vanity Fair, testemunhas relatam que o diretor tinha ordens expressas para não ficar sozinho com Dylan; que ele sumiu com a garota em uma certa ocasião e que depois eles foram encontrados juntos - só que Dylan estava despida da cintura para baixo; e outras histórias sórdidas.

Dylan, que hoje tem outro nome, não fala com o pai. Seus irmãos, idem. Quem continua se relacionando com Woody Allen é Soon-Yi, de quem o diretor era padrasto e hoje é marido. Adotada por Mia Farrow no Vietnã, Soon-Yi tinha 19 anos quando a atriz descobriu na casa do então marido fotos da filha completamente nua. Allen alegou que foi tudo consensual; o fato de ele ter sido figura parental para a garota durante dez anos, aparentemente, não significava nada.

A situação levou ao divórcio de Mia Farrow e Woody Allen, sendo um escândalo à época. Há dois anos, Ronan Farrow expressou também no Twitter como as coisas ainda eram inacreditáveis: "Feliz Dia dos Pais - ou, como chamam na minha família, feliz dia do cunhado".

A relação incestuosa de Allen com Soon-Yi e as denúncias de Dylan não mancham o histórico de Woody Allen, ao que parece. A grande questão é: por qual razão? Por que se continua premiando e louvando e chamando de gênio um homem com histórico tão assustadoramente misógino?

E se, em vez de molestar a própria filha, como ela mesma alega, Woody Allen fosse um serial killer?

Teriam com ele a mesma condescendência? Apagariam os crimes porque como diretor ele é genial, segundo a maioria? Ou se a vítima for mulher, tudo bem? O mesmo aconteceu com Roman Polanski, acusado - e condenado - pelo estupro de uma garota de 13 anos, e que continua ganhando prêmios mundo afora, mesmo nos Estados Unidos, onde não pode pisar porque é fugitivo da polícia?

Se estes homens fossem desconhecidos, pobres e negros, todos pediriam o linchamento dos mesmos (e se a vítima fosse perfeita, também). Mas são brancos, ricos, poderosos e "geniais". Como separar o homem da obra? É possível fazer isso? Dá para sentar numa poltrona de cinema e se divertir sabendo que aquele filme é obra de um molestador de crianças?

A entrega do prêmio a Woody Allen e as repetidas homenagens ao diretor me incomodam porque passam a mensagem que está tudo bem em praticar um (ou mais) crime contra a mulher. Todo mundo vai passar por cima, esquecer, menosprezar. Para a vítima, no entanto, o que fica é o contrário: de nada adianta a sua luta, o seu testemunho, a sua dor - ninguém vai acreditar em você. E é com você, para sempre, que ficará essa dor e indignação. Mia Farrow também se posicionou a respeito no Twitter, resumindo em 140 caracteres este post inteiro:

"Uma mulher detalhou publicamente o abuso sofrido por ela aos sete anos e perpetrado por Woody Allen. O tributo do GoldenGlobe mostrou desprezo por ela e por todos os sobreviventes de abuso."

Preconceito

O que o BBB 14 já disse sobre você

Participante da nova edição do Big Brother Brasil trabalhou como camgirl - e a internet, enfurecida, já a julgou e condenou
por Nádia Lapa publicado 08/01/2014 17:38, última modificação 08/01/2014 18:03

Segunda-feira (6) entrei na internet e ela estava toda feminista. Perdi as contas de quantas pessoas compartilharam o texto "Xingamento", assinado por Gregorio Duvivier e publicado na Folha de S.Paulo. Nele, Duvivier fala sobre quão errado é utilizarmos adjetivos de cunho sexual como agressão. Usou exemplos voltados às mulheres e aos homens - apontando, com razão, que mesmo quando os homens são o alvo da chacota, é a mulher que se relaciona com ele (mulher, parceira) quem leva a pedrada.

Por mais restrições que eu tenha ao texto (e tenho várias), foi curioso ver as timelines do Facebook e Twitter cheias de links para uma coluna que exemplifica um termo muito usado no feminismo, o slut shaming. Fazendo uma tradução bem pobre, slut shaming significa "chamar de puta". Na verdade, ela engloba algo muito maior: representa o julgamento moral do caráter de uma mulher baseando-se na vida sexual dela. A vida de verdade ou a que o agressor inventa. Ao exclamar "vadia!", a pessoa não está falando que tal mulher tem vida sexual reprovável (como se fosse possível medir ou passar a régua no que é certo ou errado na cama); a mulher vira toda reprovável.

Uma vadia, assim vista socialmente, está vários degraus abaixo da linha de ser humano. De repente ela não serve para ser mãe, profissional, colega de faculdade, nada. Ela se resume à agressão, ao nome que lhe imputaram, e tem culpa de tudo de ruim que porventura lhe acontecer. Isso é o slut shaming, prática que todas as feministas combatem. Nós já escrevemos textos e mais textos a respeito; nos encontramos para discutir o assunto; marchamos uma vez por ano pelas ruas.

Ainda assim, foi preciso um homem vir dizer que fazer isso é errado. Pensei que tinham escutado e que - ah! prazer dos prazeres - pelo menos essa parte da militância nós já poderíamos deixar de lado. "Todos agora entenderam quão errado, agressivo e destrutivo o slut shaming é, e ninguém mais vai usar de palavras tão baixas para se referir a uma mulher; tampouco irão diminuí-la em razão de qualquer coisa que ela tenha feito - ou deixado de fazer - em sua vida sexual", imaginei, aqui, no meu conto de fadas. Que amor tanta gente descobrindo o feminismo!

De um dia pro outro, literalmente, as coisas mudaram totalmente de figura. Saiu a lista dos participantes da nova edição do Big Brother Brasil e, entre os escolhidos, há uma garota que trabalhou como camgirl. Camgirls são mulheres que fazem aparições eróticas via webcam, enquanto a pessoa do outro lado da tela paga por minuto para assisti-las.

Vasculharam a vida online da participante, compartilharam vídeos da mesma, e os xingamentos se multiplicaram. Na mesma internet que na véspera um texto quase feminista (mil aspas, por favor) foi profusamente compartilhado, agora o slut shaming corria solto. O programa ainda nem começou, mas já sabemos qual é a vadia da vez.

Dormi com a internet feminista, acordei com a misógina. Fica difícil entender, afinal, qual é a das pessoas, onde elas querem chegar, o que realmente lhes toca. É a discussão levantada pelo texto ou é a malhação da moça que usou o próprio corpo, e tão somente o próprio corpo, para uma prática absolutamente legal?

Quem somos?

Vamos decidir? Somos pessoas boas, bacanas, e que não se importam com a vida sexual alheia? Ou somos babacas, cretinos e machistas de plantão, apenas à espera do surgimento da próxima safada, quando nos uniremos em manada com outros imbecis e a xingaremos e a trataremos pior do que lixo?

Em breve você poderá ver a vida da moça com um clique no controle remoto. Mas a sua, dependendo da reação, já está exposta.

Afinal: de que lado você está?

Mídia

A representação da mulher na mídia e em produtos

Em comerciais de televisão, produtos e marcas, a mulher é tratada como brinde, imbecil ou hipersexualizada
por Nádia Lapa publicado 18/12/2013 17:33, última modificação 06/01/2014 14:58
nadia site.jpg

Na publicidade da NET, a mulher fica extasiada ao transformar um sapo em cartão de crédito

Todo mundo já sabe: em comerciais de cerveja, estará sempre muito calor e as mulheres vestirão um biquini fio dental nos corpos belíssimos. Corpos esses sem língua, diga-se, porque elas nunca falam nada. Quer vender detergente, sabão em pó ou qualquer outro produto de limpeza? Direcione as propagandas paras mulheres, porque elas ainda não saíram da cozinha.

Vemos isso o tempo todo, tomamos como verdade absoluta, e nem ligamos muito para a representação da mulher nos comerciais. Fúteis, vazias, competitivas com outras mulheres, rainhas do lar, vaidosas em nível tóxico. "É só propaganda", diriam alguns. Alguns muitos. Outros vários diriam que quem vê problema nessa má representação da mulher está é "falta do que fazer". "Vai lavar uma louça", os engraçados de Twitter responderiam. Na verdade, o sistema é esse, feroz, que se retroalimenta dos pensamentos da sociedade. As propagandas são ruins porque o público alvo é ruim, ou é o contrário? Difícil dizer.

Nos Estados Unidos há uma iniciativa chamada The Representation Project, que cuida justamente de analisar como a mídia mostra as mulheres (veja vídeo ao final do post). Aqui no Brasil não temos nada parecido, mas grupos feministas online costumam questionar as empresas quanto aos seus anúncios sexistas e muitas, muitas vezes misóginos.

Foi o que aconteceu durante a Copa das Confederações. A Ariel, marca de sabão para lavar roupas, lançou uma propaganda no Facebook com quadrinhos mostrando como a mulher também gosta de futebol. Seria ótimo quebrar o estereótipo de que só homem gosta do esporte, enquanto as mulheres são histéricas que só gritam nas partidas da seleção brasileira e não sabem nem o que é um escanteio, mas a marca, pertencente à Procter & Gamble, reiterou na série de quadrinhos como a mulher vê futebol por causa das pernas dos jogadores e que "torce". Torce roupa. Porque mulher esquenta barriga no fogão e esfria no tanque.

Falei com a assessoria de imprensa sobre os quadrinhos, e recebi a seguinte resposta: "a P&G informa que em  maio desse ano postou na fanpage de Ariel um pedido de desculpas pela tirinha criada para a Copa das Confederações. Vale ressaltar que a empresa valoriza a diversidade, assim como o papel de importância da mulher em nossa sociedade. A empresa informa ainda  que levará em conta todos os comentários e considerações que foram postados na época em sua fanpage para as próximas campanhas da marca.".

Eles, pelo menos, assumiram que foi uma bola fora (e sim, nós sabemos quando é lateral ou escanteio nesses casos). A cerveja Crystal, do Grupo Petrópolis, infelizmente não fez o mesmo. Tentou mais ou menos fugir da velha fórmula mulheres de biquini na praia (tem algumas à beira da piscina, ora pois!), e colocou uma mulher... como brinde!

 

Não, Crystal, apenas não. Mulher nunca é um brinde. Ou não deveria ser. A resposta da marca foi: "O Grupo Petrópolis sempre respeitou as mulheres e, em nenhum momento, teve a intenção de tratá-la como objeto.  A propaganda trabalha com humor e respeito.". Interessante observar o uso da palavra brinde, que não só é um objeto, como é um objeto que a pessoa ganha, sem maior esforço. A saída escolhida pela Petrópolis foi dizer que isso, comparar uma mulher a algo que se ganha, é piadinha. Humor é seeeeempre a desculpa para qualquer erro.

Quer ver como é sempre tudo muito, muito engraçado? A resposta da NET ao meu questionamento sobre o comercial abaixo parece até ter sido escrita pela assessoria da Crystal: "As campanhas da NET se caracterizam pela irreverência e bom humor. A empresa busca trazer novidades e frescor em sua forma de se comunicar e para isso se utiliza de temas ou situações que auxiliem neste fim.  Especificamente no filme citado, seguimos com a mesma intenção e em momento algum houve o intuito de denegrir a imagem da mulher ou imprimir qualquer outra conotação, apenas utilizou-se de um contexto usado no dia a dia das pessoas e em tom de brincadeira.".


 

Que coisa engraçada tratar a mulher como 1) desesperada por um príncipe; 2) interesseira a ponto de trocar um príncipe por um cartão de crédito. Hum... não.

Outra tática utilizada pelas empresas é dizer que algo - produto ou comercial - simplesmente caiu no colo delas. É preciso apontar que antes de ir ao ar ou aparecer nas araras das lojas, o produto ou propaganda passa por uma série de pessoas. Tudo está sujeito à criação, aprovação, produção. Há muito tempo e incontáveis oportunidades para alguém nesse ciclo simplesmente dizer "ei, isso aqui está errado, não vamos colocar no ar/colocar à venda".

No entanto, se alguém tem tal iniciativa nesse processo, certamente sua voz não está sendo ouvida. Enquanto isso, as empresas lavam as mãos a respeito da responsabilidade acerca da equidade de gêneros. A Luigi Bertolli está vendendo, neste momento, uma camiseta que diz:

Look like a girl

Act like a lady

Think like a man

Work like a boss

 

Pareça uma garota, se comporte como uma dama, pense como um homem, trabalhe como chefe. Pense como um homem? O que há de tão diferente no pensamento de um homem para que eu, mulher, deseje ser como ele? Não está bom ser do jeito que eu sou e pensar do meu jeito? Ou homens são mais inteligentes?

"A camiseta mencionada não tem qualquer objetivo machista, feminista ou político. Trata-se apenas de mais uma estampa de moda que combina frases irreverentes com as cores da estação. Sendo assim, a Luigi Bertolli não teve intensão ou pretensão de sugerir nenhum tipo de comportamento."

Ah, está tudo bem agora, então, ufa! Que bom que uma marca denunciada por trabalho escravo e que não faz roupa para gorda não está me dizendo como viver. Sinto um grande alívio agora.

É evidente que isso não é verdade. Uma marca vende não só um produto, tangível, mas também um estilo de vida. O consumidor, então, compra algo de acordo com o que lhe é vendido. Não é só a camiseta ou o sabão em pó. Quando se trata de autoestima, então, ataca-se um ponto fraco das mulheres. Até supermodelos dizem que às vezes não se sentem tudo isso, imagine uma mulher comum, que trabalha, vai à faculdade, cuida dos filhos, lava louça, entra em fila de banco.

As mensagens que ela recebe são de que ela precisa ser bonita, atraente, sexy, ter a aparência de uma garota e comportamento de uma dama. Ela precisa. É isso que é cobrado o tempo todo dela. E, se não der pra ser tudo isso por si mesma, só resta competir com as outras mulheres, tratando-as como café-com-leite.

 

Atualização em 06/01/2014: Ainda em dezembro, a assessoria da Eudora se pronunciou. "O objetivo da campanha é incentivar todas as mulheres a expressar a sua personalidade, para ajudá-las a expressar o poder de conquista dos seus desejos e fazer a diferença por onde passam.", diz a nota da empresa. Ela continua: "A expressão “café com leite” foi utilizada como metáfora para afirmar que essa mulher não está em uma atitude de neutralidade e passividade". No entanto, a expressão café com leite é utilizada para se referir às outras mulheres, as que não usam Eudora. Logo, segundo a própria nota, "neutras" e "passivas".

As mulheres precisam se unir e se empoderar, juntas, sem essa coisa de competir entre si. É triste ver uma empresa voltada às mulheres com esse tipo de discurso. No fim, se você não tiver uma aparência de capuccino e for um mero café-com-leite, você não será a escolhida pelo gatinho da balada. Não foi por causa dele que você saiu de casa?

 

Viu? Amigos de verdade não deixam os amigos saírem com meninas feias, diz a camiseta da Hering. Melhor ser um capuccino, garota, se não você está perdida. Segundo a assessoria da empresa, "em relação ao caso das estampas questionadas por consumidores, a Cia. Hering esclarece que já tomou as providências necessárias para evitar estes temas em seus produtos futuramente. A empresa reforça ainda que a estampa não condiz com os princípios e os valores defendidos pela marca".

Antes de eu questioná-los acerca da estampa, consumidores já o tinham feito por meio das redes sociais. Eles disseram que tirariam as camisetas das araras, mas dias depois as lojas continuavam vendendo. Sabem o motivo? Porque não importa. O sistema todo é assim. Este post poderia ser infinito, porque todos os dias nos deparamos com a péssima representação das mulheres na mídia.

O problema é que acreditamos nisso tudo. Mais do que comprar o sabão, a camiseta ou a maquiagem, nós compramos a ideia. E vivemos com ela, repetindo-a, sentindo-a na pele. Você é café-com-leite, você não é bonita o suficiente, você não será amada, você está gorda demais. E compre isso aqui para diminuir o buraco que eu, empresa, criei em você.

***

Como a mídia errou ao representar as mulheres em 2013 (em inglês). Vídeo do The Representation Project.


Cultura do estupro

Em caso de estupro, a vítima será a culpada. Sempre

Garota de 14 anos é estuprada em Manaus e os comentários online colocam a culpa na garota, como se ela estivesse "procurando" pelo crime
por Nádia Lapa publicado 13/12/2013 15:31

Comentarista de internet é difícil de lidar. Matheus Pichonelli escreveu muito bem a respeito em Não penso, logo relincho. Em casos de estupro, quando a violência acontece com uma "mulher direita" ou que a gente conheça (amiga, namorada, irmã), o discurso correto é culpar o estuprador, inclusive incitando uma violência barbárica. "Tem que castrar", "prisão perpétua", "pena de morte" e, até mesmo, estuprar o criminoso, para "devolver na mesma moeda".

No entanto, quando o estupro ocorre contra uma qualquer, isto é, uma mulher que, sim, poderia ser nossa irmã, mas não é, a culpa será sempre dela. Escrevi inúmeras vezes sobre isso aqui neste espaço e também no meu blog pessoal, só que parece que as pessoas não querem enxergar que elas têm, sim, esse discurso - e não têm a menor vergonha de compartilhar em comentários em blogs, no Twitter ou no Facebook.

O caso de hoje envolve uma garota de 14 anos que estava andando na rua às 23h em Manaus. Um motorista parou, obrigou-a a entrar no carro, e a levou para uma casa abandonada. Lá, estuprou-a. A vítima foi encontrada pela polícia. A reportagem não diz quais as condições físicas da adolescente naquele momento, mas obviamente não foi um encontro sexual consensual, porque se não a polícia não deveria tê-la "encontrado". Isso não é óbvio? Quando você transa, o normal e aceitável é que depois do sexo ou você se vista e vá embora, ou durma ao lado do parceiro. É assim que o mundo funciona, caso alguém não tenha entendido. Você não é "descoberto" pela polícia numa casa abandonada.

O tribunal da internet, no entanto, não foi capaz de fazer esse raciocínio lógico, tão desesperado por culpar a mulher, esta Eva que começou a nos destruir desde aquela tal maçã.

Recolhi alguns dos comentários na notícia no Facebook do D24, jornal do Amazonas que deu a reportagem.

Homem: 23 hs na rua? Kkkk... Coisa boa nao tao fazendo! E cadê os pais??? Ta merecendo uma cadeia

"Está merecendo uma cadeia." A vítima. Entenderam? A vítima merece cadeia por estar na rua às 23h.

Homem: O que uma menina dessa faz nas ruas a essa hora? Tava procurando,encontrou.

Claro. Todas nós, quando saímos, estamos à procura de sermos estupradas. É o sonho de toda mulher.

Mulher: o que essa individuo de 14anos fazia na rua uma hora dessa?!Do jeito que ta perigoso ficar até dentro de casa ai é pedir neh!!!

Novamente, ser estuprada é o nosso sonho.

Mulher: E o que uma menina faz na rua esse horario , e kde a mae dla , ? E 14 anos naum é nem uma criança ja sabe muito bem o que é bom e o que é ruim . A vá ate parece msm . . .

Por que ninguém pergunta pelo pai? E, sim, a garota pode até saber o que é bom e o que é ruim. Eu tenho 20 anos a mais do que ela e sei muuuuuuuuuuito bem o que é bom e o que é ruim, mas isso não quer dizer que eu vá escolher pelo ruim, pelo péssimo, pelo desastroso.

Mulher: De menor na rua esse horário?
No meu tempo muito diferente, dando trabalho para os pais e pra polícia!!!
Se tivesse em casa dormindo nada disso teria acontecido!!

O "em casa" pode ser substituído por "escola", por "igreja", e por aí vai, ignorando o fato de que 80% dos estupradores são conhecidos da vítima.

Homem: """""""Estupro""""""""" pq se hj em dia se um cara der um sopro numa menina é considerado estupro.

(me recuso a comentar.)

Homem: Imagino a roupa que ela estaria usando a essa hora na rua... mas nao justifica o estupro, mas as meninas de hoje procuram por isso, andam quase nuas.

Faltava o da roupa, né? Completou sua cartela de bingo aí?

Há comentários igualmente ou mais toscos ainda, citando órgãos sexuais e coisas do tipo. Vou poupá-los disso. Eu apenas quero mostrar como é necessário, sim, bater na mesma tecla: a culpa não é da vítima. Porque o "pensamento" corrente é o de que a vítima pediu por aquilo, se colocou em risco, não tomou os cuidados suficientes. Isso gera uma bola de neve, porque esta vítima vai mesmo se sentir culpada, suja. Ela não vai procurar a polícia - e os crimes de estupro, que já têm uma taxa pequena de condenação, continuarão impunes. Dificilmente ela conseguirá compartilhar com amigos e família o que lhe aconteceu, já que tem consciência do julgamento que virá a seguir.

A autoestima possivelmente irá para as cucuias, e esta mulher se sentirá sempre como se algo estivesse faltando, como se ela não fosse completa e, caso encontre um parceiro, irá aceitar o que vier. Se a relação for abusiva, incluindo violência física, ela ainda assim se sentirá sortuda por ter achado alguém que ficou com ela apesar de.

É o ciclo da misoginia e da violência contra mulheres. Precisamos quebrá-lo. É de pessoas que estamos falando, de gente, de seres que sentem, se machucam, se magoam, se desesperam. É epidêmico. É uma questão de humanidade.

Papéis de gênero

Poderosa e competente? Mas, peraí, é gata?

Primeira-ministra, presidenta, CEO de empresa, não importa: a beleza da mulher tem que vir em primeiro lugar
por Nádia Lapa publicado 11/12/2013 16:36, última modificação 11/12/2013 17:10
Helle Thorning-Schmidt/Flickr
Helle Thorning-Schmidt

A primeira-ministra da Dinamarca, Helle Thorning-Schmidt, que virou "meme" ao ser fotografada ao lado de Barack Obama e foi chamada no Brasil de "louraça"

"A louraça primeira-ministra da Dinamarca provoca saia justa entre o casal Obama", diz o título da coluna de um site. Louraça, assim, sem nome. Quem se importa? O importante é que Helle Thorning-Schmidt seja "bela, alta e loura", além de ter "celebrados olhos azul-turquesa" e andar de saltos altíssimos.

O que ela faz, como chegou ao poder, qual o trabalho dela como primeira-ministra? Não faz a menor diferença. Nas palavras de Naomi Wolf, em "O Mito da Beleza: "As trabalhadoras mais emblemáticas do Ocidente continuavam visíveis se fossem 'lindas', portanto visíveis, mas sem receber nenhum crédito pela competência. Ou poderiam, ainda, ser 'competentes' e 'sem beleza', portanto invisíveis, de tal forma que a competência de nada lhes valia".

Os comentários sobre a aparência de Thorning-Schmidt não são novidade. Atingiram, inclusive, a outra mulher envolvida na "polêmica" de ontem: Michelle Obama, mesmo adotando um penteado liso (aproximando-se do ideal de beleza ocidental, mesmo sendo negra), foi criticada duramente quando resolveu usar franjas. Por outro lado, os braços da primeira-dama são invejados, copiados em cirurgias plásticas e revistas fazem até passo-a-passo de como conseguir a musculatura de Michelle. Os braços de Michelle Obama, como se estivessem totalmente descolados da pessoa que ela é, ganharam até um Tumblr.

Embeleze o mundo: esta é a mensagem. Posso até te dar um poderzinho aqui, mas não há negociação, seja bonita, Enfeite a festa, o velório, o jogo de futebol, a reunião de negócios, o que for. Mas esteja maquiada, de salto alto e, se rolar, um decote sexy sem ser vulgar.

Todos param para prestar atenção quando é uma mulher bonita falando. Vejam até o Femen, grupo não feminista (importante frisar isso). Sempre que havia manifestações do grupo, os jornais repercutiam o fato, sempre com muitas fotos e quase nenhum texto. Com sorte, alguma legenda. Porque são mulheres brancas, magras, loiras, e com "os seios no lugar".

O mesmo não acontece com os homens. Eles podem envelhecer; as rugas, inclusive, são até consideradas sinal de maturidade. Cabelos grisalhos? Charmosérrimos. Também ninguém pergunta de qual estilista é o terno, a gravata ou o sapato, como fizeram com Hillary Clinton há alguns anos, em uma entrevista que ficou famosa pela resposta da ex-Secretária de Estado:

Entrevistador: Quais são seus designers favoritos?

Hillary Clinton: O quê? Designers de roupas?

Entrevistador: Sim.

Hillary Clinton: Você perguntaria isso a um homem?

Entrevistador: Provavelmente não. Provavelmente não.

 

Nossa presidenta também passa por questionamentos parecidos. Antes das eleições, o rejuvenescimento de Dilma Roussef foi visto com clareza - plásticas, tratamentos, corte de cabelo especiais. As roupas que ela usa geram até slideshow com os looks usados pela presidenta.

Quando se quer desmerecer o trabalho de uma mulher - por mais poderosa e competente que ela seja - o primeiro "xingamento" utilizado é o da aparência. Naomi Wolf, mais uma vez, mostra que esta é uma batalha quase invencível (mas continuaremos lutando): "Pela forma como a beleza e o trabalho ao mesmo tempo recompensam e punem as mulheres, elas nunca esperam por coerência - mas pode ter certeza que elas continuarão tentando. Buscar a beleza e a qualificação de beleza no local de trabalho agem em conjunto para mostrar às mulheres que, no que lhes diz respeito, a justiça não existe. Que a injustiça é apresentada a uma mulher como imutável, eterna, apropriada e com origem em si mesmas, como se fosse uma parte delas, assim como sua altura, cor do cabelo, gênero e o formato dos seus rostos".

Ativismo

Homens: tirem suas máscaras

Poeta canadense Jeremy Loveday fala sobre como os homens podem mudar o panorama da violência de gênero
por Nádia Lapa publicado 05/12/2013 16:46, última modificação 10/12/2013 23:32

Tradução e legendas por Daniela Abade.

 

Eu já falei em alguns textos deste blog como o agressor não é o "outro", aquele cara desconhecido, que pula de um arbusto de uma rua escura e deserta e ataca mulheres. Ele está entre nós; é nosso chefe, o colega da baia ao lado, o nosso irmão. Parece absurdo imaginar que alguém por quem temos respeito ou amor seja capaz de tornar o mundo um lugar inóspito para as mulheres.

Pensando exatamente assim, o poeta Jeremy Loveday fala no vídeo acima que ele criou máscaras para os outros homens, os tais "monstros" que eram capazes de violentar mulheres, física, verbal e psicologicamente. Até se dar conta de que, ao colocar máscaras em outros homens, homens comuns, fazia com que ele não enxergasse as próprias ações. Ações sobre as quais ele devia se responsabilizar. Ele cita algumas. Uma delas, aparentemente inofensiva, do chefe fazendo um comentário sexista. Para ele, homem, aquilo pode não ser tão grave. Mas não ter retrucado, ter aceitado a piadinha, ficar em silêncio, é escolher a violência.

Para Loveday, a violência de gênero é também uma questão dos homens porque ela é perpetrada por homens.  No feminismo temos discutido muito como mudar o panorama, lutamos, tentamos criar a consciência, buscamos o empoderamento feminino. No entanto, uma parte grande da mudança tem que vir de vocês, homens. Porque, em maior ou menor grau, vocês são os agressores. E, por favor, entendam: eu não estou individualizando nada, acusando ninguém pessoalmente, mas sim pensando em nós mesmos como sociedade. Temos que perceber que homens não animais incontroláveis que agridem porque é "da natureza". Não é. Somos fruto de uma construção social, e nesta sociedade aprendemos a aceitar a violência, e até mesmo a incentivá-la e premiá-la. "Como se os homens não tivessem o poder de mudar o jeito que os homens agem", diz Loveday. Vocês têm, sim.

E ele faz um desafio: homens, tirem suas máscaras.

Homens: responsabilizem-se.

Sexo

Estamos todos na puberdade (alguns nunca sairão de lá)

Aplicativo para avaliar parceiras sexuais e sutiã da torcedora do Bahia mostram que ainda temos muito a aprender sobre sexualidade. Por Nádia Lapa
por Nádia Lapa publicado 02/12/2013 18:19, última modificação 02/12/2013 19:01
Instagram
Demerson

O zagueiro Demerson com a irmã

 

Ontem uma torcedora do Bahia, irmã de um dos jogadores do time, levantou a camisa durante o jogo. De relance, vimos a barriga da moça e uma parte do sutiã. Foi o suficiente para desconcertar o narrador e colocar as redes sociais em chamas. Um monte de marmanjos ficou excitadíssimo com o vislumbre de uma peça íntima. Um dos apresentadores do Fantástico, o não-engraçado Tadeu Schmidt, disse "isso, pode extravasar, torcedor, mas calma, não bate assim no peito, vai machucar. Que que é isso? Que que é isso, menina?!! Olha o sutiã aparecendo. Componha-se, mulher!".

Todos adultos, todos com acesso à internet (onde mulheres de sutiã aparecem o tempo todo, mesmo que você não esteja à procura de pornografia), a maioria, penso, com alguma experiência sexual. Ainda assim, um pedaço da roupa íntima de uma desconhecida faz com que esses adultos voltem ao tempo em que se escondiam no banheiro com revistas conseguidas quase na clandestinidade.

Hoje as coisas são diferentes, não só por causa da internet, mas porque, ora, esses homens cresceram. Ou não?

Talvez não, pelo menos no que se refere a sexo. Nos últimos dias passamos horas e mais horas discutindo o aplicativo Lulu, uma bobagem sem fim que dá "notas" a homens. As tags utilizadas são as mais infantis e heternormativas do mundo. Um cara com dinheiro (que paga o jantar, que compra jóia) ganha notas maiores. Só isso, sem contar toda a questão da objetificação, já seria suficiente para superarmos o Lulu.

Mas daí alguns homens ficaram muito chateados com tamanha agressão (contém ironia). Resolveram fazer um app à altura, mas passaram - e muito, muito mesmo - dos limites. Talvez estejam criando o Tubby (ainda não há confirmação se é um hoax ou se o aplicativo está mesmo sendo desenvolvido). No Tubby, a ideia é também fazer avaliações, dessa vez das mulheres. E na cama. Como se a mulher transasse sozinha e não houvesse um (a) parceiro (a) ali com ela, estimulando-a e excitando-a.

Um grande problema é que grande parte dos homens (grande mesmo, não negue) acha que a simples presença deles e de seu "príncipe" é o suficiente para satisfazer uma mulher e enlouquecê-la. Não é; e está longe disso. Mais uma vez, a adolescência aparece: desaprenderam o "sexo" com filmes pornôs e acham que têm que fazer tudo igualzinho na vida real.

Parece inútil falar sobre isso num post; todo mundo já sabe disso tudo aí, diriam. Escrevo sobre sexo há quase três anos e devo dizer que não, não é bem assim. Peço ajuda mais uma vez a José Angelo Gaiarsa, psicanalista já falecido, em Amores Perfeitos: "Desde pequenos, falou em sexo, fecha a cara, ri como um bobo, fica vermelho, solta uma piada que a criança não entende. Ela vai descobrindo que tem uma bomba-relógio entre as pernas e ninguém lhe diz o que fazer com "aquilo". Só no grupo de amigos; aí, sim, é a única pseudoeducação sexual que temos. É a conversa entre amigos, a maioria delas bastante repetitiva, porque dez ignorantes falando de assunto do qual nenhum entende não resolvem muito a questão.

Aliás, não comentam. Representam e se exibem. A maioria dos homens não lê nada a esse respeito. Se você convidar um amigo: "Vamos a uma palestra sobre educação sexual?", ele vai olhar você com aquela cara assim: "O quê? Educação sexual, eu? Já sei tudo". "Já sei tudo" quer dizer "nunca pergunto para ela o que ela achou, e faço até questão de não olhar muito para o rosto dela depois"."

Olhem mais para suas/seus parceiras/os. Conversem. E não as avaliem em qualquer aplicativo, porque isso pode acarretar um grande constrangimento para as mulheres. Se mostrar sem querer o sutiã já é motivo de risinhos e piadas, imaginem se souberem que tal garota curte fazer sexo anal. Ou algo mais revolucionário, do tipo... realmente gostar de fazer sexo. Como já repetiram no Twitter: "o melhor aplicativo para ver se alguém é bom de cama chama-se transar. Experimentem".

Experimentem.

Machismo

Lugar de mulher ainda é na cozinha

Pesquisa do Instituto Avon confirma que os estereótipos de gênero continuam fortes na sociedade brasileira. Mulher não pode ficar bêbada e nem gostar de sexo, segundo o estudo
por Nádia Lapa publicado 29/11/2013 18:43, última modificação 29/11/2013 18:45

 

Venho de 1920 com algumas novidades. Segundo apurei por aqui,

- 89% dos homens acham absurdo que a mulher não mantenha a casa em ordem;

- quase metade dos homens entende que sexo é coisa de homem - mulher não sente necessidade disso!

- 69% dos homens acham inaceitável que uma mulher saia de casa sem o marido;

- se ficarmos bêbadas, então, 85% dos homens nos reprovam. Não é o comportamento de uma dama. Onde já se viu?

- 1 a cada 2 homens vigiam o que vestimos. Nada de sair por aí com roupas justas ou decotadas.

 

1920? Opa, me confundi. 2013, mesmo, de acordo com a pesquisa do Instituto Avon sobre violência doméstica lançada hoje.

A pesquisa, feita a cada dois anos, traz dados alarmantes sobre a violência contra mulheres (um exemplo: a cada uma hora e meia, uma mulher é morta no Brasil em razão... de ser mulher). Mas a questão aqui é sobre como ainda estamos atrasados nos estereótipos de gênero, isto é, naquela velha história de que há "coisas de homem" e "coisas de mulher".

Pior ainda: as "coisas de mulher" parecem imutáveis na cabeça dos homens. Até hoje metade deles acredita que mulher não sente necessidade de sexo. Devem achar que não temos prazer com isso, afinal. Temos, sim, dependendo de quão libertas somos e da qualidade dos nossos parceiros (quanto mais libertas, melhores os parceiros).

Segundo as descobertas - e as perguntas foram feitas para homens! - nós não podemos ainda sair, beber, enfim, nos divertir. Afinal, se sairmos, quem cuidará da casa? E a casa, como vocês bem sabem, cabe à mulher cuidar.

Eu fiquei assustada com esta parte de gênero da pesquisa. Porque, sinceramente, ainda que os números de feminicídio e estupros maritais me desesperem, eu já os conheço. Não há um único dia em que se abra qualquer jornal e não se veja alguma notícia tenebrosa sobre violência contra a mulher. Porém, eu pensava que estávamos mais modernos no que se refere aos papéis de gênero; que já havíamos entendido que não há nada inerentemente masculino ou feminino; que pelo menos na teoria nós somos iguais, eu e você, homens e mulheres. E, por nossa igualdade, nossos atos em espaço público e doméstico seriam julgados da mesma forma. Ou "não julgados", melhor, ninguém tem a ver com a vida de outrem.

Claro que não sou ingênua e sabia que alguns homens queriam que estivéssemos em 1920. Eu só não esperava que fossem tantos. Eu sugiro a esses homens que eles venham para 2013. Não é exatamente legal aqui, tem muita coisa horrível acontecendo, mas no que se refere à igualdade dos gêneros é um lugar bem melhor do que há cem anos. Ou, pelo menos, deveria ser.

Cultura do estupro

Por que as mulheres são estupradas, segundo a polícia

Policial catarinense dá dicas para as mulheres evitarem estupro. Além de ineficientes, as dicas mostram o despreparo da segurança pública ao tratar de crime tão delicado
por Nádia Lapa publicado 24/11/2013 15:59, última modificação 26/11/2013 06:06
Gabriel Bonis
Estupro

Policial catarinense dá dicas para as mulheres evitarem estupro. Além de ineficientes, as dicas mostram o despreparo da segurança pública ao tratar de crime tão delicado

 

Um estuprador atacou uma mulher em Blumenau, Santa Catarina, e a violência física foi tamanha que ela faleceu. Encontraram a vítima na manhã do último sábado (23). As informações são do G1, que traz uma fala de uma policial da cidade:

"A Polícia Militar disse ao G1 que o número de ocorrências envolvendo estupros na cidade aumentou nos últimos meses e por isso, orienta para que as mulheres busquem utilizar ruas e vias iluminadas e com movimentação de pessoas e evitem circular desacompanhada em horários com menos movimento, como à noite e início da manhã. "Se a pessoa mora sozinha, uma dica é também evitar chegar sempre no mesmo horário do trabalho. Além disso, tentar andar acompanhada. A presença de duas mulheres já inibe mais a ação. Se percorre o trajeto à pé, se possível, buscar caminhos diferentes, por que é a oportunidade que gera a ação", explica a Segundo a Sargento Cristina Moreira, da Central de Emergência da Polícia Militar".

Há dois anos, o policial canadense Michael Sanguinetti também deu uma super dica para as mulheres se protegerem de estupros: "parem de se vestir como vadias". As mulheres não se calaram; a partir desse comentário absurdo do policial, surgiu a Marcha das Vadias. De Toronto para o resto do mundo.

Diante de um crime bárbaro como o estupro, procura-se explicações para o acontecido. Deve ser muito difícil simplesmente assumir que entre nós há pessoas capazes de tamanha atrocidade; porém, os números não mentem. No Hospital Pérola Byington, em São Paulo, são atendidas 15 vítimas de violência sexual por dia. Com estatísticas assustadoras, natural buscar-se métodos para evitar novos crimes.

O problema é focar na potencial vítima, e não no agressor.

Toda mulher aprende desde novinha como se comportar para não ser assediada/violentada/abusada. Os conselhos, em geral, são:

- Não use roupa curta ou decotada;

- Não saia sozinha;

- Não ande em ruas desertas ou escuras;

- Não aceite bebida de desconhecidos;

- Não beba com desconhecidos;

- Não abra a porta da sua casa para desconhecidos;

- Não faça sexo casual;

- Não, não e não. Todos os "nãos" possíveis e imagináveis. Alguns inimagináveis também.

A policial catarinense ainda deu uma nova sugestão: "se morar sozinha, evite chegar do trabalho sempre no mesmo horário". O que a pessoa vai ficar fazendo? Depois de passar o dia trabalhando, vai ter que criar mecanismos para enganar um agressor? Passear no shopping? Ir ao bar beber umas cervejas - e, ops, isso não pode! O que fazer, então?

Claro que eu não tenho a resposta. Mas acho preocupante quando pessoas que deveriam ser especialistas em segurança pública têm o discurso de culpabilização da vítima. O que elas esperam? Que as mulheres fiquem trancafiadas em casa? O estupro é ao mesmo tempo um crime e uma ferramenta de controle social. Segundo Jill Filipovic, colunista do Guardian, "mostrar o estupro como algo que acontece fora de casa reforça a ideia de que as mulheres estão seguras em ambiente doméstico e em risco, se saírem" (tradução minha). O que não é verdade, uma vez que a maioria dos estupradores é conhecida da vítima.

As dicas para "evitar o estupro" podem até ser bem intencionadas, quando elas vêm de um amigo ou um familiar (de um profissional de segurança pública, nunca). Porém, elas dão a impressão de que há como escapar de um crime sexual. Se aconteceu com você, é porque "você não se cuidou o bastante", e isso gera culpa na vítima. Neste panorama, dificilmente ela irá registrar a ocorrência ou procurar ajuda.

O discurso de Michael Sanguinetti, lá no Canadá, e de Cristina Moreira, aqui em Blumenau, em vez de ajudar as vítimas, piora ainda mais a situação. Precisamos olhar o estupro como um crime de cunho social. Não é apenas a violência de um indivíduo contra outro; o contexto social precisa ser melhor avaliado. E os responsáveis pela nossa segurança precisam se preparar melhor para tratar de assunto tão delicado.


Feminismo

O papel dos homens no feminismo

O que os homens podem fazer como aliados do feminismo. Ensinar-nos a militar? Jamais. Mas tem muita coisa a ser feita
por Nádia Lapa publicado 19/11/2013 00:30, última modificação 19/11/2013 01:31

 

"Qual o papel dos homens no feminismo?", perguntam alguns, realmente preocupados em não ultrapassar qualquer limite e respeitar as ativistas. A resposta é difícil; há muitos feminismos, e cada um lida com esta questão de forma diferente. Eu, feminista autônoma, sigo correntes que colocam o homem como aliados, jamais como protagonistas. Nunca.

O quê exatamente isso quer dizer, uma vez que o feminismo não tem líderes?

Significa que o feminismo é formado por coletivos organizados de maneira horizontal, nos quais as decisões são tomadas em conjunto e não há função "mais importante" que a outra. O que existe é troca e apoio mútuo. Parece irreal? Pois é assim mesmo que coletivos muito bem sucedidos, como a Marcha das Vadias, funcionam. E funciona muito bem!

Você pode dizer que há feministas mais conhecidas que outras, e isso é óbvio, mas elas não representam todo o feminismo, e sim as próprias opiniões e posicionamentos. Por isso fiz questão de pontuar no início do texto que ele mostra o meu ponto de vista e que não represento qualquer coletivo na minha fala.

Resolvida a questão da liderança, passemos ao protagonismo. Muitos homens inexplicavelmente são contrários ao protagonismo das mulheres, dizendo que esta é uma luta de todos. Há uma confusão neste ponto: a luta até poderia - e deveria -  ser de todos, mas um gênero é oprimido, enquanto o outro é privilegiado. Inútil apontar qual ocupa esses grupos. Como falar em igualdade se ela, de fato, não existe? Partiríamos, mulheres e homens, de lugares diferentes!

Costumo responder à insistência pelo "protagonismo compartilhado" com algumas perguntas simples:

Já não bastam as 90% cadeiras no Congresso Nacional que são ocupadas pelos homens?

E as de CEO de empresas, cuja participação feminina é irrisória?

Os homens mandam no mundo e detêm o poderio econômico. Querem ser protagonistas em MAIS UM movimento, movimento este que deseja justamente revolucionar as estruturas que permitiram a opressão das mulheres através dos séculos? Não parece contraditório, mimado na melhor das hipóteses e manipulador na pior?

Alguns homens se dizem feministas, pasmem, para conhecer mulheres. Verdade. É uma nova balada para eles. Outros, para pegar bem na fita. Afinal, é feio demais ser machista, né? Tem gente que se orgulha, vai entender...

Mas se o rapaz está mesmo desejando participar do movimento, em nome das suas irmãs, namoradas, mãe, e mulheres que ele sequer conhece mas que sabe que estão sofrendo, como agir?

  • Nos seus ambientes masculinos, introduzindo o feminismo. No futebol com os amigos, no boteco, no café no intervalo na firma;
  • Não compartilhando, de jeito nenhum, imagens que diminuem a mulher ou que obviamente eram para uso íntimo e "vazaram" por um ex vingativo;
  • Posicionando-se contra seu colega de trabalho/faculdade/familiar que agrediu uma mulher;
  • Se ela estiver sozinha ou sem apoio, indo com ela a uma Delegacia da Mulher;
  • Propondo programas de equidade de gênero na empresa em que trabalha;
  • Não tratando a Marcha das Vadias como Carnaval ou micareta, se vestindo de mulher e passando batom. Ser mulher é muito mais difícil que isso. Proponha ao coletivo, por exemplo, ajudar na segurança da Marcha;
  • Compartilhando tarefas domésticas;
  • Não duvidando da palavra de uma mulher que foi vítima de agressão. Ela precisa de apoio, não de julgamento;
  • Se uma conhecida estiver bêbada na balada, certificando-se que ela chegou sã e salva em casa;
  • Deixando a mulher falar. A fala é dela. Não interrompa. Nunca. Ouça tudo;
  • Em hipótese alguma culpe a TPM por uma insatisfação real da sua amiga ou parceira;
  • Deixando de adquirir produtos e serviços que objetificam mulheres;
  • Parando de zoar o próprio filho ou o sobrinho por este querer um brinquedo que não é "de menino";
  • Abandonando de vez os xingamentos sobre a vida sexual da mulher (vadia, periguete, piranha).

 

Mais importante que tudo, tudo, tudo: jamais nos ensine a militar. Quem sente a dor de ser mulher numa sociedade patriarcal somos nós. Sejam nossos aliados, não nossos donos. Vocês já estiveram nessa posição por tempo demais.

Edições Digitais

Já é Assinante? Faça login para acessar a edição digital.



Não tem login? Cadastre-se.

Como funciona a edição digital?

Índices Financeiros
Moedas
Dolar Comercial +0.00% R$0,000
Dolar Paralelo +0.00% R$0,000
EURO +0.00% R$0,000
Bolsas
Bovespa +1,03% 56789
Nasdaq +1,03% 12340
Frankfurt +1,03% 38950

Diálogos Capitais