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Sociedade

Copa do Mundo

A mulher brasileira existe, mas não para satisfazê-los

por Aline Valek publicado 18/06/2014 12h21, última modificação 18/06/2014 13h08
Como a imagem propagada para o mundo contribui para a ideia equivocada de que somos apenas corpos disponíveis – Por Aline Valek, do blog Escritório Feminista
Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil
Torcedoras em Brasília

Torcedoras brasileiras assistindo ao jogo em Brasília.

Copa do Mundo sediada no Brasil significa, mais que os jogos e a torcida pela conquista de um troféu, a vinda de turistas de todos os lugares do mundo. Estrangeiros que, antes mesmo de pisar em solo brasileiro, muitas vezes já têm uma ideia do que vão encontrar: futebol, samba, festa, gente cordial, caipirinha e mulheres.

A “beleza” e “sensualidade" da mulher brasileira são vendidas como um atrativo, quase como um patrimônio nacional, tirando o fato de que estamos falando de pessoas, e não de cachoeiras ou conjuntos arquitetônicos. Enquanto isso pode ser visto por muitos com orgulho, mais um quesito para sermos “melhores” do que os outros, acho preocupante e até perigoso que sejamos retratadas para o resto do mundo desta forma.

Uma amiga foi assediada na rua por estrangeiros que vieram para a Copa. Outro estrangeiro achou por bem agarrar e beijar uma repórter, enquanto ela trabalhava, de forma que ela não teve sequer escolha se queria ou não aquele contato físico. No clipe oficial da Copa, o foco da câmera na bunda de passistas que rodeiam o cantor estrangeiro dão uma pista de onde vem a ideia de que o corpo da mulher brasileira, especialmente da mulher negra, existe para ser admirado. Está ali à disposição.

Veja bem: o problema não é a vinda de estrangeiros. Os turistas que assediaram minha amiga não fizeram nada muito diferente do que os homens brasileiros já fazem todo dia, com Copa ou sem Copa. A nossa existência ser resumida às nossas bundas, coxas e seios também não foi invenção de seja lá quem dirigiu o clipe da Copa.

Os estrangeiros que compram essa imagem da mulher brasileira e vêm para o nosso País acreditando que estamos aqui para servi-los (inclusive vários deles vindo alimentar uma rede de exploração sexual que muitas vezes vitima crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social) certamente são parte do problema; tanto quanto os brasileiros, que consciente ou inconscientemente, reforçam esse machismo que nos despe não só de roupas, mas de humanidade.

Basta olhar com atenção para o jornalismo e para as propagandas “made in Brazil” nesta época de Copa. Em um comercial da TAM, por exemplo, que dá as boas-vindas a todo o tipo de torcedor, torcedoras só são mostradas quando o narrador dá as boas-vindas às “princesas”.

Porque é claro que se mulheres marcam presença nos estádios é para agradar o olhar masculino. Isso fica ainda mais evidente no jornalismo punheteiro que elege as “musas” da torcida, reforçando que a existência da mulher só serve ao propósito de embelezar o ambiente que ela frequenta, no caso, a arquibancada.

Seria uma grande sorte se fôssemos vistas e tratadas assim apenas durante a Copa. Daria até pra comemorar. O negócio é que não: esse tratamento nos é dispensado cotidianamente, para onde quer que a gente olhe, onde quer que a gente vá, não importa o que a gente faça.

O mais trágico é que, apesar da imagem hiperssexualizada da mulher brasileira, não somos apenas nós que sofremos com essa constante desumanização. Não é como se estrangeiros só assediassem mulheres quando viessem ao Brasil. Mulheres de todo o mundo também passam por isso, em maior ou menor grau, dependendo de onde são.

Mas, de volta ao Brasil: quando saímos na rua, alguns homens acreditam que estamos ocupando aquele espaço público para obter a aprovação de seu olhar. E não são poucos. No mapa da campanha Chega de Fiu Fiu, os depoimentos deixados por mulheres dão uma ideia de como é comum e perigoso esse pensamento de que se estamos andando sozinhas na rua é porque estamos à disposição. Pergunte a qualquer mulher: essa invasão dos nossos corpos e espaços são rotina para praticamente todas nós.

“Ah, cantada é inocente, elogio não tira pedaço”. Isso não poderia ser mais falso. Primeiro, porque é sim uma violência e é ainda mais cruel tentar esvaziar ou minimizar o constrangimento, o medo, a raiva e até a culpa que sentimos quando passamos por isso.

E é como se a vontade do homem de “elogiar” valesse mais do que a nossa tranquilidade, nossa autonomia e o nosso direito de usar o espaço público sem sermos intimidadas ou perturbadas. Ou seja, de novo, nossa existência sempre em segundo plano em relação aos desejos dos homens. Depois, porque esse tipo de assédio é uma manifestação da ideia de que somos corpos disponíveis – e isso é munição que valida violências ainda mais extremas contra nós.

Se existimos para satisfazê-los e estamos à disposição, então não veem problema em abusar de nossos corpos mesmo contra a nossa vontade. Então “tudo bem” nos violentar, agredir, até arrancar a vida se não correspondemos às suas vontades, especialmente quando fugimos do padrão de “mulher desejável”.

Lésbicas então só existem como adereço para as fantasias sexuais masculinas ou para serem “consertadas” por um homem que as satisfaça “de verdade”. Não veem que existimos para nós mesmas, que temos vontades e desejos próprios.

Essa ideia de que nossa existência gira ao redor da aprovação e da satisfação masculina está tão introjetada na sociedade que mesmo quando um ou dois filmes são protagonizadas por mulheres, com as histórias girando em torno delas e não de algum homem, gera indignação em uma parcela considerável do público masculino (veja, estou falando de uma simples representação em meio a um oceano de estereótipos machistas propagadas desde sempre, em todos os lugares). Como assim um filme em que as mulheres não servem de acessório a um protagonista homem ou para agradar o público masculino? Pois é.

É contra esse tsunami de estereótipos que constroem sobre nós e que propagam de todas as formas, em todos os meios, e contra as agressões decorrentes dessas ideias, que temos que lutar diariamente. Temos que afirmar e reafirmar nossa existência como seres humanos diversos, complexos e autônomos. E se escrevemos ou falamos sobre isso, também geramos indignação: afinal, como pode uma mulher existir para escrever algo que não agrade os homens, algo que os faz sentir desconfortáveis por pensarem ou agirem de determinada forma?

Só digo que é melhor se acostumarem a isso. Existimos, sim. E toda vez que tentarem nos negar nossa autonomia como seres humanos, nossas vontades próprias e nosso protagonismo em nossas histórias, vamos fazer mais barulho do que uma arquibancada inteira de torcedores.

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