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Sociedade

Dia Internacional da Mulher

Não há raiva que cale nossa voz

Embora transformado em data comemorativa para vender coisas, o Dia da Mulher é data de protesto. Se há algo para celebrar nesse dia, é a nossa voz – por Aline Valek no Escritório Feminista
por Aline Valek publicado 05/03/2015 18h22, última modificação 05/03/2015 19h05
Katheryn Emily / Flickr Creative Commons

Poucas coisas geram tanta raiva quanto uma mulher com voz. Eu já sabia disso antes de começar a escrever para a CartaCapital, se quando era apenas o meu blog eu já atraía todo tipo de gente raivosa e ameaças; então já era previsível o que viria do alcance de um grande veículo.

Quem escreve os comentários mais agressivos ou envia os emails mais desaforados talvez imagine que isso possa me desestimular, que, para evitar a fadiga, eu simplesmente evite, no futuro, tocar nesses pontos tão sensíveis. Será que não passa pela cabeça deles que, se eles se mostram tão incomodados, é porque estou acertando no que faço?

Outras feministas passam por uma barra muito mais pesada: são perseguidas e ameaçadas por uma multidão de doidos que babam de raiva diante de mulheres que levantam bandeiras contra o assédio, estupro e feminicídio – e se mostram até dispostos a calar essas mulheres usando de violência.

Anita Sarkeesian, que aponta a misoginia nos games, Ana Freitas, que escreveu uma reportagem sobre o machismo nos fóruns nerds, e Juliana de Faria, que levantou a campanha “Chega de Fiu Fiu” contra o assédio na rua, são alguns (entre os tantos) exemplos de mulheres que se tornaram alvo do ódio de gente que quer que as coisas continuem do jeitinho bosta que são.

Não é revelador saber que há pessoas que se indignam mais com feministas do que com os horrores que sofrem as mulheres? Eu acho.

Toda essa raiva é bastante interessante. Veja, é como se cada mulher que tivesse um pouco de voz, ainda que a maioria dos espaços continue a ser dominada por homens, desequilibrasse as forças do universo e eles simplesmente tivessem que detê-las. Vigilantes incansáveis de uma narrativa única.

O que me leva à questão das coisas nada agradáveis que temos que ouvir todo Dia da Mulher, 8 de março.

Já reparou que apesar do dia ser “das” mulheres, a voz predominante não é a delas? Basta se lembrar de como surgiu a data. O Dia da Mulher surgiu como uma data de protesto, liderada por operárias, o que é muito emblemático: em sua origem está o grito contra a dominação burguesa e masculina. Mas nos tomaram o poder dessa narrativa e substituíram por outro roteiro: o de “homenagear” as mulheres, sei lá, por serem bonitas, femininas, delicadas.

Nessa “sutil” troca de roteiro, viramos coadjuvantes, daquelas sem fala, que aparecem apenas como sujeito passivo que recebe os parabéns e homenagens. De pessoas reais que sofrem na carne, viramos figuras simbólicas que servem somente para ilustrar os mais horrendos e sem-graça trocadilhos de anúncios publicitários.

Somos brindadas com flores e campanhas machistas, o que mais poderíamos querer? Voz? Voz pra quê, se dá tanto problema? Se o mundo diz todos os dias que é melhor se ficarmos caladas?

Sob o véu da “igualdade” de gênero que para alguns já parece ser questão superada (afinal, hoje mulheres podem votar e trabalhar, não?), há um contínuo esforço, vindo de todos os lados, para que as mulheres continuem no lugar de não-fala.

Um lugar frio, quieto e solitário de onde só podemos assistir aos donos da história falando sobre nós do ponto de vista deles. Afinal, se não falamos, podemos existir do jeito que eles acham mais adequado – e, nesse processo, existimos um pouco menos.

A ideia é nos esmagar, nos diminuir, nos calar, tirar nossos espaços e nos fazer pequenas até sumir. Puf.

Daí a raiva contra as mulheres que falam. Porque eventualmente vamos sair do roteiro e apontar problemas que com muito custo encobriram para continuar aproveitando os privilégios sem dor na consciência.

É por isso que, de forma consciente ou automática, nos negam a voz; seja nos ameaçando, intimidando e constrangendo por ousarmos ter opinião; seja interrompendo a mulher que fala, nunca deixando que ela conclua um raciocínio; seja quando um cara repete as mesmas palavras que uma mulher acabou de dizer e fica com todos os créditos por aquela opinião; seja repreendendo a mulher cujo discurso não se adequa ao roteiro; seja na expectativa de que a gente aceite “elogios” caladas; seja distorcendo e se apropriando de nossas histórias e ideias; seja tentando abafar a repercussão de nossa voz.

“Mulher, no seu dia…” shiu. Se tem uma coisa de que não precisamos é que no “nosso” dia (e em todos os outros) a gente continue sujeita ao olhar e à narrativa do outro, que continuem a nos dizer o que fazer, o que pensar, como devemos existir. Temos voz e somos capazes de cuidar nós mesmas das nossas histórias.

Dia da Mulher é dia de protesto. E em protesto a gente grita, a gente se faz ouvir – porque já tentaram nos calar por tempo demais.