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Sociedade

Lançamento

Iniciando os trabalhos no Escritório Feminista

por Aline Valek e Clara Averbuck — publicado 11/04/2014 09h00, última modificação 11/04/2014 18h30
Estreia do Escritório Feminista, novo blog da CartaCapital – "O feminismo é como um trabalho em período integral, que aceitamos fazer porque sabemos que nossas vidas dependem disso"
Foto: Flávio Sandoval / ONU Mulheres
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Painel produzido pelo artista Gilberto de Souza Barbosa com o tema Direitos Humanos das Mulheres

Todos os dias levantamos da nossa cama já sabendo quantas mentiras ouviremos sobre nós.

Levantamos e, depois de escovar os dentes, vestimos uma grossa armadura sobre a pele para resistir a mais um dia ouvindo que temos a cor de pele errada, que nosso peso é inadequado, que nossa orientação sexual é uma aberração, que não somos mulheres de verdade, que não somos mulheres o suficiente, que nosso corpo não é nosso, que somos muitos gordas, ou muito magras, ou que o nosso peito é muito pequeno, muito separado, muito caído, ou que nosso cabelo é feio, que nossos pelos são nojentos, que nosso corpo é errado por definição.

A roupa que vestimos, já vestimos pensando no que vamos ouvir por causa dela, ainda que seja só uma calça e uma camiseta. Abotoamos a camisa, fechamos o zíper e amarramos o cadarço sabendo que lá fora vamos enfrentar uma galera que acredita que merecemos ser atacadas pela roupa que usamos.

Quando vamos para o trabalho, vamos para ganhar menos do que um homem na mesma função, ainda que cumpramos tripla jornada, cuidando também da casa e dos filhos. Estamos, especialmente as negras, nos trabalhos mais mal remunerados. Isso quando não somos impedidas de entrar no mercado de trabalho formal, quando somos mulheres trans.

Despertamos preparadas para enfrentar a violência, em suas mais diversas formas, que nos aguarda todos os dias, na soleira da nossa porta. Ou do lado de dentro de casa. Tomamos coragem no café da manhã para tentar sobreviver à ameaça constante de agressões, estupros e assassinatos, muitas vezes vindos de alguém em quem até então confiávamos.

E então abrimos a porta, sabendo que só a nossa existência é o suficiente para que nos odeiem. Para que nos destinem os mais agressivos comentários, as mais perniciosas mentiras. Só um dia como qualquer outro.

A gente já sabe que não vão nos dar a igualdade e o respeito que nos é de direito pelo simples fato de sermos seres humanos. Temos que nós mesmas calçar as botas para chutar as portas que fecharam na nossa cara. Temos que nós mesmas contar as histórias que queremos que sejam contadas sobre nós. Temos que nós mesmas arregaçar as mangas e fazer o trabalho para mudar as coisas. Porque desse jeito não está bom, não.

O feminismo é isso: um trabalho em período integral, todos os dias do ano, todas as horas do dia, em função de mudar as coisas. A gente não descansa. É um trabalho que a gente leva pra casa, é um trabalho que a gente faz nas ruas, na internet, na vida. E a gente aceita trabalhar sem parar no feminismo porque sabemos que nossas vidas dependem disso.

O Escritório Feminista, nosso novo blog na Carta Capital, faz parte desse trabalho. De sacudir as estruturas. De colocar pulgas atrás das orelhas. De mostrar uma nova perspectiva sobre as coisas. De mostrar o machismo nas pequenas e nas grandes coisas, de impedir que esse monstro que se alimenta das nossas vidas fique ainda maior.

Se alguém parar por alguns minutos para se questionar, se alguém começar a fazer novas perguntas, se alguém começar a ver que as coisas podem ser de outro jeito, então, bem, o Escritório Feminista terá feito seu trabalho.

E trabalho por aqui é o que não falta.

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